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4. DIREITOS DE PERSONALIDADE E AUTODETERMINAÇÃO

4.1. DIREITO OBJETIVO E SUBJETIVO DE PERSONALIDADE

Embora não possamos nos aprofundar acerca do tema relativo aos direitos objetivo e subjetivo, a compreensão destes conceitos é fundamental para a analisarmos a possibilidade de limitação voluntária de alguns direitos de personalidade.

Sobre o tema, ORLANDO GOMES340 esclarece que, segundo a concepção jusnaturalista, o direito subjetivo seria preexistente ao direito objetivo e, dessa forma, este teria a função de garantir aquele através da coação. Mas de acordo com a concepção positivista ocorreria exatamente o contrário, ou seja, o direito objetivo seria anterior ao subjetivo.

Prosseguindo, o civilista afirma que seria inconcebível a existência de uma ordem jurídica na qual não houvesse direitos objetivo e subjetivo, na medida em que um não existe sem o outro. Portanto, o direito subjetivo corresponde a uma faculdade de agir, enquanto o objetivo é uma norma de ação.

Nestes termos, o direito objetivo seria aquele consagrado no ordenamento jurídico, que impõe um dever e está fora da disponibilidade do particular, a não ser quando permitido expressamente. Constitui produto de normas jurídicas proibitivas ou impositivas.

Com relação ao direito subjetivo, após tecer precisas considerações históricas sobre a evolução deste direito, PAIS DE VACONCELOS341, numa análise da doutrina portuguesa, aponta a coexistência das construções subjetivista e objetivista.

Em linhas gerais, o mencionado autor entende que embora o direito subjetivo tenha como característica principal a liberdade, ou seja, o poder de autodeterminação do seu titular, este possui um conteúdo complexo e móvel, que varia de acordo com as circunstâncias e dificuldades que enfrenta na realização do seu fim.

340 Orlando Gomes, Introdução ao Direito Civil. Revista atualizada e aumentada, de acordo com o Código Civil

de 2002, por Edvaldo Brito e Reginalda Paranhos de Brito. Rio de Janeiro: Forense, 2008, pág. 97.

341 Pedro Pais de Vasconcelos, A Participação Social nas Sociedades Comerciais, 2ª edição, Almedina, págs.

Dessa forma, segundo PAIS DE VASCONCELOS342, o direito subjetivo poderá conter além dos poderes, deveres, vinculações, adstrições e ônus. Como exemplo o autor cita os direitos subjetivos de personalidade, que estão em constante evolução, culminando na criação de novos poderes e meios defensivos contra as novas ofensas a tais direitos.

Por fim, conclui no sentido de considerar o direito subjetivo como “uma posição jurídica pessoal de vantagem, de livre exercício, dominantemente activa, inerente à afectação, com êxito, de bens e dos correspondentes meios, isto é, de poderes jurídicos e materiais, necessários, convenientes ou simplesmente úteis, à realização de fins específicos e um seu concreto titular”343.

Em sentido bastante semelhante, LEITE DE CAMPOS344 considera incompleto pensar no direito subjetivo como mero poder de vontade segundo os interesses do seu titular, pois há uma outra face, que é o dever do titular desse direito para com a outra parte e seus respectivos interesses. Assim, este dever ético-jurídico para com os demais nada mais é que um poder- dever, um veículo de colaboração, pois o direito de cada um possui um limite externo que é o outro e o próprio. “O poder está ao serviço do eu – que não se confunde com a vontade – e dos outros”345.

Por sua vez, ASCENSÃO esclarece que a liberdade conferida ao homem não se limita a uma mera capacidade de opção, mas está indissociavelmente ligada a uma dimensão ética. Desse modo, as pessoas não são titulares de direitos apenas, mas possuem deveres, sendo que estes são emanações vindas da solidariedade346.

Como tivemos a oportunidade de demonstrar, entendemos que os direitos de personalidade são direitos inatos, inerentes ao homem, que permitem ao seu titular se defender de agressões não apenas nas relações privadas, mas também perante o Estado. Sendo assim, as pessoas não poderiam depender da positivação desses direitos.

342

Pedro Pais de Vasconcelos, A Participação Social nas Sociedades Comerciais, op. cit., págs. 475 e 476.

343

Ibidem, pág. 478.

344 Diogo Leite de Campos, Os Direitos da Personalidade: Categoria em Reapreciação, In: Nós, op. cit., págs.

162 e 163.

345

Ibidem, pág. 132.

346 José de Oliveira Ascensão, Pessoa, Direitos Fundamentais e Direito da Personalidade, op. cit., págs. 159 e

Além disso, não podemos nos esquecer da necessidade de se assegurar a liberdade a todas as pessoas na conformação das regras a reger a sua vida, ou seja, na construção dos contornos da sua personalidade. Estamos aqui na esfera dos direitos subjetivos.

Mas, por outro lado, o espaço de livre desenvolvimento do direito de personalidade não é total, pois também contempla zonas indisponíveis decorrentes do preceito geral da dignidade da pessoa humana, que impede a renúncia ou transmissão dos direitos de personalidade. Como por exemplo o direito à vida.

É aqui que LEITE DE CAMPOS347 destaca que o direito à vida não confere ao seu titular a prerrogativa de dispor desta, mas antes gera um dever de respeitá-la e defendê-la. Da mesma forma, o direito à constituição de família deve ter por escopo a realização individual e também a de cada um dos demais.

Cabe ainda ressaltar que a perspectiva objetiva dos direitos não abrange apenas o dever do próprio para consigo e com os demais, mas também está situado neste âmbito o dever de tutela do Estado. O poder público não deve apenas se abster de violar os direitos, mas deve os proteger. Trata-se do imperativo de proteção do Estado, defendido na doutrina alemã por CANARIS348, já analisado por nós n seção 2.4. supra.

Pelo exposto, tendo em vista que a tutela da personalidade é una349, acreditamos a mesma possui uma vertente subjetiva e outra objetiva350, pois os direitos da personalidade possuem a peculiaridade de impor obrigações, tendo como primeiro destinatário a própria pessoa e, ao mesmo tempo, confere direitos a este mesmo indivíduo, beneficiando-o. É daí que surge a noção de pessoa humana como titular de direitos e obrigações.

Assim, o direito objetivo de personalidade se refere ao espaço de indisponibilidade, resultante das normas proibitivas ou impositivas e principalmente do dever de agir de forma ética;

347 Diogo Leite de Campos, Os Direitos da Personalidade: Categoria em Reapreciação, In: Nós, op. cit., págs.

162 e 163.

348

Manuel A. Carneiro da Frada, A própria vida como dano? : dimensões civis e constitucionais de uma questão- limite , In: Estudos em honra do Professor Doutor José de Oliveira Ascensão, vol. I, Coimbra, 2008, págs. 189 e 190.

349

No tópico a seguir, quando tratarmos na patrimonialidade dos direitos de personalidade, iremos expor com maiores detalhes as correntes monista e dualista.

enquanto, o direito subjetivo de personalidade resultaria das normas permissivas, que conferem à pessoa a faculdade de exigir o respeito a sua dignidade, independentemente da atuação do Estado.