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BREVES NOTAS SOBRE O DIREITO POSITIVO ESTRANGEIRO O presente trabalho não tem por objetivo realizar um estudo de direito comparado.

No documento Assistência no processo civil brasileiro (páginas 47-50)

É inegável, entretanto, que a tutela do terceiro é algo universal e muitos ordenamentos preveem instrumentos análogos à assistência do processo civil brasileiro, destinados a permitir a intervenção voluntária de um terceiro em processo pendente.

Algumas soluções encontradas pela doutrina estrangeira não podem ser ignoradas pelo estudioso brasileiro quando possam se aplicar ao ordenamento brasileiro. E é muito comum que isso possa ocorrer na medida em que os enunciados normativos que permitem a intervenção são bastante semelhantes. É o que se passa a demonstrar, não sem antes esclarecer que apenas Brasil e Portugal conservaram a utilização do termo “assistência”, substituído nos demais ordenamentos pelo termo “intervenção”, por influência do direito intermédio.

De início, o ordenamento alemão152, que, ao lado do austríaco153, foi o que maior influência exerceu sobre o legislador brasileiro, prevê duas figuras de intervenção: a intervenção adesiva ou coadjuvante (§ 66 da ZPO), permitida, a qualquer momento, sempre que um terceiro tenha interesse jurídico da vitória de uma das partes e a intervenção litisconsorcial (§69 da ZPO), permitida, também a qualquer momento, sempre que de acordo com as disposições do Código Civil a coisa julgada e o processo principal possam ser invocados de forma válida na relação do que pretende intervir com a parte contrária à que pretende auxiliar; a esses intervenientes aplicam-se as regras relativas ao litisconsórcio. No caso da intervenção adesiva, prevê o §68 da ZPO que se produz em relação a ele o efeito de intervenção, que consiste na impossibilidade de alegar, em relação à parte principal, que o processo foi decidido incorretamente, a não ser que a parte principal tenha conduzido o processo de maneira deficiente.

O Código de Processo Civil português, por sua vez, prevê (art. 335) que pode intervir como assistente em processo pendente quem tenha interesse jurídico na vitória de

152 As afirmações feitas sobre o ordenamento alemão são baseadas na tradução espanhola da ZPO alemã

contida na seguinte obra: Álvaro J. Perez Ragone, Juan Carlos Ortiz Pradillo, Código Procesal Civil alemán

(ZPO), traducción con un estudio introductorio al proceso civil alemán contemporáneo, Montevideo,

Fundación Konrad-Adenauer, 2006, p. 169). Elegeu-se referida tradução da ZPO, ainda que em língua espanhola, em detrimento de outras encontradas em livros brasileiros que tratam da assistência em razão de ter contado com a aprovação de José Carlos Barbosa Moreira, que prefaciou a obra. Vale acrescentar ainda o esclarecimento de Ubiratan do Couto Maurício, segundo quem a ZPO não consagrou as expressões “assistente” e “assistência” em razão da influência recebida do direito comum intermédio europeu (Assistência simples no direito processual civil, p. 14).

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Ver, nesse sentido, Barbosa Moreira, A influência do direito processual civil alemão em Portugal e no

uma das partes, para prestar-lhe auxílio. O interesse jurídico, por expressa disposição legal, é sinônimo de titlularidade de relação jurídica cuja consistência prática ou econômica dependa da pretensão do assistido. Uma vez intervindo, o assistente fica vinculado à coisa julgada (art. 341), devendo aceitar, em qualquer causa posterior, os fatos e o direito estabelecidos na decisão do processo em que interveio, a não ser que demonstre a existência de excludentes idênticas àquelas previstas nos incisos do art. 55 do Código de Processo Civil brasileiro. Há, ainda, regulação minuciosa a respeito da atuação do assistente no processo.

Prevê ainda o Código português a possibilidade de intervenção espontânea (arts. 320 a 324) do litisconsorte necessário preterido, do que poderia ter formado com as partes litisconsórcio voluntário desde o início do processo e ainda nos casos em que é possível a coligação de autores e réus. Esclareça-se que tanto os casos de litisconsórcio voluntário como os casos de coligação de autores e réus do direito português são previstos na legislação brasileira como hipóteses de um único fenômeno: o litisconsórcio facultativo (art. 46 do CPC).

Na Itália, o art. 105 do CPC permite, no §2º, a intervenção adesiva – que alguns também chamam de intervenção adesiva dependente – a quem tenha interesse próprio no processo, para sustentar a razão de uma das partes. De outro lado, permite também, no §1º, segunda parte, a intervenção litisconsorcial – que alguns também chamam de adesiva autônoma – a quem possa fazer valer, em face de uma das partes, um direito relativo ao objeto (pedido) ou dependente do título (causa de pedir) deduzido no processo154.

Na França, o Code de Procédure Civile prevê a possibilidade de intervenção principal (art. 329) a quem tenha interesse de agir relativamente a certa pretensão e traga-a ao processo e de intervenção acessória (art. 330) a quem tenha interesse, para conservação de seus direitos, em apoiar a pretensão de uma das partes.

Na Argentina, o art. 90 do Código Procesal Civil y Comercial de la Nación prevê a intervenção voluntária, na qualidade de parte, em duas hipóteses: a quem possa ter interesse próprio afetado pela sentença e a quem, de acordo com as normas de direito substancial, fosse legitimado para demandar ou ser demandado. No primeiro caso, o

154 Cândido Rangel Dinamarco, em comentários à tradução da obra de Liebman para o português, afirma que

“o intervento litisconsortile, descrito no texto, equivale em parte à nossa intervenção litisconsorcial

voluntária, que dá origem a autêntico litisconsórcio ativo ulterior (cfr. Barbosa Moreira, ‘Intervenção

litisconsorcial voluntária’, pp. 21 ss.). Não se trata do assistente litisconsorcial versado no art. 54 do Código de Processo Civil brasileiro” (Manual de direito processual civil, v. I, p. 154, nota 103).

interveniente terá atuação acessória e subordinada ao passo que no segundo caso atuará como litisconsorte da parte principal, com as mesmas faculdades processuais.

Na Espanha, a intervenção adesiva e a intervenção litisconsorcial só passaram a ter previsão legislativa expressa e genérica com a Ley de Enjuiciamento Civil de 2000155. O art. 13 da LEC prevê a possibilidade de admissão como demandante ou demandado de quem tiver interesse direto e legítimo no resultado do processo. A despeito da redação legal pouco precisa, a doutrina espanhola majoritária acredita estarem admitidas, pela lei, tanto a intervenção adesiva simples como a litisconsorcial156. Admite-se expressamente, ainda, a intervenção de qualquer consumidor ou usuário em processos instaurados pelas entidades legalmente reconhecidas para a defesa de seus interesses. Importa considerar, por fim, que a lei diz ser o interveniente considerado parte para todos os efeitos.

Até mesmo nos Estados Unidos, que se filia à common law157, são previstas

modalidades de intervenção na “Rule 24” das Federal Rules of Civil Procedure. O mesmo se diga da Inglaterra, que recentemente editou um Código de Processo Civil no qual há previsão expressa (Part 19) de possibilidade de intervenção de terceiros (adição de autores ou de réus), sem, entretanto, especificá-las.

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Antes disso, havia previsões esparsas de intervenção em leis específicas (Juan Montero Aroca, La

intervención adhesiva simple, p. 102) e a jurisprudência passou a admitir o instituto de maneira genérica,

mesmo à míngua de previsão legal, a partir de 1946 (idem, p. 126-143).

156 Cf., nesse sentido, Juan Carlos Cabañas Garcia, La tutela judicial del tercero, p. 245. 157

Embora a distinção entre civil law e common law venha cada vez mais perdendo importância, a consideração é importante em razão da inexistência de tradição de admissão dessa figura nos ordenamentos de common law. Como apontam Richard L. Marcus, Martin H. Redish e Edward F. Sherman, “it arose in statutes after the adoption of code pleading, and is peculiarly the product of the twentieth century” (Civil

5. ASSISTÊNCIA SIMPLES E ASSISTÊNCIA LITISCONSORCIAL

No documento Assistência no processo civil brasileiro (páginas 47-50)