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Capítulo 3 – Do quilombo como transgressão ao lugar de direitos: trajetória

3.4. Direito territorial, territorialidade quilombola

O dispositivo constitucional que beneficia as comunidades quilombolas tem ainda um importante efeito impulsionador de visibilidade e reconhecimento de modalidades específicas de uso e propriedade da terra e de todas os processos sociais e identitários decorrentes delas. A associação entre a questão quilombola e fundiária, com o reconhecimento de sua territorialidade, abre caminho para visibilizar na legislação brasileira os diferentes usos e lógicas territoriais para além da terra privada e individual. Segundo Arruti (2008, p. 323), o artigo 68 “aparecia como instrumento que poderia fazer o ordenamento jurídico nacional reconhecer a legitimidade das modalidades de uso comum da terra”, em um contexto de forte resistência das elites econômicas nacionais.

O fator comunitário, como condicionante da “propriedade”, no caso das comunidades remanescentes de quilombos, abre uma nova matéria no ordenamento fundiário brasileiro na medida em que exige que o Estado categorize e defina instrumentos operacionais que dessem conta das “novas” modalidades de usos territoriais para além da terra privada individual e da tutela. Não é a terra o elemento exclusivo que identificaria os sujeitos do direito, mas sim o seu uso coletivo. Isso inverte a forma como a terra é enquadrada pelas instituições e pressiona para uma série de possibilidades de inovação e rearranjos.

Essa necessidade de rearranjos institucionais tem se evidenciado a partir da dificuldade de órgãos oficiais em classificar terras de uso comum, tais como as que são reivindicadas pelas comunidades negras rurais de diversas partes do País, como do nosso estudo de caso em Oriximiná/PA. Fica claro que as classificações fundiárias não são suficientes para a identificação de ocupações diferenciadas, como é caso dos quilombolas, indígenas, babaçueiros, caiçaras, seringueiros, entre outras formas comunitárias até então ignoradas pelo sistema fundiário brasileiro.

O que passa a ser contemplado no processo de titulação seria então o modo de vida do grupo, a participação de cada um no dia-a-dia da vida em comunidade. De todos os significados do quilombo, o mais recorrente é o que remete à idéia de nucleamento, de associação cooperativa e de experiências singulares intra e intergrupos. A utilização das áreas obedece a sazonalização das atividades, sejam agrícolas, extrativistas ou outras, caracterizando diferentes formas de uso e ocupação dos elementos essenciais ao ecossistema, que tomam por base laços de parentesco e vizinhança, assentados em relações de solidariedade e reciprocidade.

A territorialidade quilombola funda-se a partir de um modelo específico de segregação, e sugere a predominância de uma dimensão muito mais relacional do que produtiva, não sendo vinculadas, portanto, com uma atividade agrícola. Até porque, mesmo as fontes principais de produção aparecem muitas vezes combinadas com outras fontes de sobrevivência do grupo.

Quer dizer: a terra, base geográfica, está posta como condição de fixação, mas a condição determinante para a definição dos grupos quilombolas é a relação que o grupo estabelece com ela (SOUZA, 2008). Trata-se, portanto, de um direito remetido a uma forma de organização social que se baseia no parentesco, na herança e na memória coletiva.

Assim, o Artigo 68 atribui um status especial na legislação para territórios que se constituem em outra perspectiva, uma vez que o uso da terra no Brasil é bastante heterogêneo, como nos aponta Alfredo W. de Almeida (2002):

Pode-se adiantar que compreendem, pois, uma constelação de situações de apropriação de recursos naturais (solos, hídricos e florestais), utilizados segundo uma diversidade de formas e com inúmeras combinações diferenciadas entre uso e propriedade e entre o caráter privado e comum, perpassadas por fatores étnicos, de parentesco e sucessão, por fatores históricos, por elementos identitários peculiares e por critérios político-organizativos e econômicos, consoante práticas e representações próprias (ALMEIDA, 2002, pg. 45).

Apesar da propriedade da terra ser o meio fundamental que define as condições de permanência de continuidade dos grupos, as referências simbólicas em que os grupos projetam sua existência são resultado da participação na vida coletiva, da autorganização e autogestão da comunidade. É isso o que a lei tenta contemplar. É neste quadro político que o quilombo é, então, ressemantizado, como um tipo particular de referência, cujo alvo recai sobre uma territorialidade que, a partir da recuperação de uma identidade positiva de si, origina formas de organização, gestão do território e mobilização política específicas.

O fato da propriedade não ser necessariamente individualizada e aparecer sempre condicionada ao controle de associações comunitárias torna o território um obstáculo às tentativas de transações comerciais e praticamente imobiliza o território enquanto mercadoria.

As terras das comunidades quilombolas cumprem sua função social de fato, quando o grupo étnico, representado pelo poder da organização comunitária, gerencia os recursos no sentido de sua reprodução física e cultural, recusando-se a dispô-los às transações comerciais. A comunidade quilombola organizada e titulada atenta contra a significação mercantil do espaço e dos estabelecimentos fundiários. Tal forma de propriedade impede que imensos domínios venham a ser transacionados no mercado de terras. Particulamente no território amazônida, essa garantia é essencial.

Fica claro, portanto, que a luta quilombola por titulação das terras que estes grupos vem ocupando, ou que perderam em condições arbitrárias, é apenas consequência dos critérios de constituição cultural e histórica da coletividade e não sua causa. É uma modalidade específica de luta pela terra, muito mais vinculadas a fundamentos de natureza étnica, e não pode ser enquadrada junto com demandas de outra natureza. O movimento quilombola, assim como todos os movimentos de comunidades que se mobilizam em torno da pauta étnico-fundiária, amplia o debate da estrutura fundiária nacional e abre as possibilidades de novas estratégias para consecução das demandas pela reforma agrária.

No campo teórico, como tentativa de acompanhar essas constantes transformações e de encontrar um eixo de identificação unívoco, mas que

respeitasse a diversidade de acesso à terra pelo campesinato negro, culminou-se na formulação sociológica terra de uso comum. Este conceito que permite a generalização de conformações sociais como Terras de Santos, Terras de Preto, Terras de Parentes, Terras de Irmandade, Terra de Herança e Terra de Índio potencializa a visibilidade e entendimento.