DIREITO À VIDA, NECESSIDADES HUMANAS E ALTERIDADE
3.1 O DIREITO À VIDA COMO BASE PARA A TEORIA GERAL DOS DIREITOS HUMANOS
O direito à vida é hoje universalmente reconhecido como um direito humano básico, justamente porque o gozo do direito à vida é uma condição necessária do gozo de todos os demais direitos humanos, pelo que o “direito à vida” se constitui a base dos modernos ordenamentos jurídicos dos Estados democráticos de direito.
Constata-se de início, que o chamado "direito à vida" configura um absoluto. Fazendo .. uma alusão à Kelsen, o direito-valor-necessidade radicai à vida está para 0 sistema jurídico
brasileiro, assim como a "norma-fundamental" está para o ordenamento jurídico abstrato. Pode-se citar em primeiro lugar, a histórica e emblemática Declaração Universal dos
Direitos Humanos, de 1948. Este documento enuncia em seu artigo 3 , que "todo indivíduo
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tem direito à vida, à liberdade e à segurança de sua pessoa".
Este mesmo documento em seu artigo 5o. declara que "ninguém será submetido a torturas, penalidades ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes" (.Direito à integridade
da vida). Ainda no que se refere ao direito à vida, enuncia em seu artigo 12°. que "ninguém
será objeto de ingerências arbitrárias em sua vida privada, sua família, seu domicílio ou sua correspondência, nem de ataques à sua honra ou reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais ingerências ou ataques."
De uma certa forma estes breves, mas significativos enunciados normativos representam os enunciados primeiros, de todos os dispositivos sobre direitos humanos, que
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211 Assim é que em várias palestras, aulas e eventos, indaga-se o presente autor, se por acaso, a morte diária de milhares de crianças (vitimadas pela fome, miséria, subnutrição, péssimas condições ambientais e de sáude), se dá de forma natural (chegou a sua hora?). Será que a humanidade, (os Estados e todos nós), ao não reconhecer a importância dos direitos econômicos e sociais, não está sendo autora de um doloroso, cruel e pior, evitável infanticío?
212 MOSCA, Juan & AGUIRRE, Luiz Perez. Direitos Humanos - Pautas para uma educação libertadora. Petrópolis: Vozes, 1990, p. 39-45
lhes seguiram: inúmeros tratados internacionais, bem como as mais recentes Constituições de Estados de Direitos, como é claramente o caso brasileiro.213 c
A Constituição Federal de 1988, sem dúvida, deu importantes passos no sentido da realização do direito à vida, de forma coerente, em todo o seu bojo. Esta Carta impõe os direitos humanos como o fundamento maior do Estado Democrático de Direito 214
Em relação aos Direitos e Garantias Fundamentais (dispostos no Título II da Constituição Brasileira, que vêm “completar” o Título I - Dos Princípios Fundamentais), vale destacar a importante norma do artigo 5°., parágrafo 2o, que afirma: “os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.” O Brasil desta forma, se insere claramente no sistema internacional e interamericano dos direitos humanos, uma vez que ratificou tratados internacionais (tanto no plano mundial ; icomoaregional) ;que podem rpor fbrça^ desta norma^constituirtenormas constitucionais: como ?
competência ergaomnes.
Esta posição veio a ser confirmada no plano internacional, com a II Conferência Internacional dos Direitos Humanos, realizada em Viena em 1993, que consagrou a internacionalização e a universalização dos direitos humanos, colocando um fim às
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213 O constituinte brasileiro se inspirou sobremaneira nas normas de direitos humanos constantes da chamada "Carta dos Direitos Humanos", que inclui a Declaração Universal, de 1948, e os dois pactos que a acompanham (Pacto Internacional sobre direitos civis e políticos e Pacto internacional sobre direitos
econômicos, sociais e culturais, 1966)
214 Não é outra a determinação de seus artigos Io, 3o, e 4o. ao disporem: “art. Io. -A República Federativa do Brasil, formada pela unido indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos: I - a soberania; II- a cidadania; III- a dignidade da pessoa humana; IV- os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V- o pluralismo político. Parágrafo único. Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição; art. 3o- Constituem objetivos fundamentais da Federativa do Brasil: I- construir uma sociedade livre justa e solidária; II- garantir o desenvolvimento nacional; III- erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV- promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação; art. 4o. A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: I- independência nacional; II- prevalência dos direitos humanos; III- autodeterminação dos povos; IV- não intervenção; V- igualdade ente os Estados; VI- solução pacífica dos conflitos; VII- defesa da paz; VIII- repúdio ao terrorismo e ao racismo; IX- cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; X- concessão de asilo político. Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.
diferenciações entre as gerações de direito (que passaram a ser “utilizadas” tão apenas
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em caráter didático-explicativo). ■
O direito à vida, desde o início de sua positivação, apresenta-se como algo além da simples proteção jurídico penal. Não significa apenas o direito à vida "física", mas sim, a uma existência de acordo com a dignidade humana, pelo que implica uma interpretação conjunta das disposições constantes do artigo 3o , artigo 12° e artigo 25° da Declaração
Universal. (O artigo 25° consagra o direito de toda pessoa a "um nível de vida adequado que
lhe assegure, bem como à sua família, a saúde216 e o bem estar, e , especialmente, alimentação, o vestuário, a moradia, a assistência médica e os serviços sociais
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