2 Uma abordagem personalizada para Informação sobre os Serviços de Interesse Geral
2.1 Os Serviços de Interesse Geral para os seniores
2.1.2 Direitos constitucionais dos seniores portugueses
Na Constituição Portuguesa constam obrigações para o Estado no sentido de assegurar a disponibilização de diferentes atividades, recursos e serviços, desde aqueles referentes à áreas de soberania do Estado (defesa, segurança e justiça) até os relativos à prestação de cuidados de saúde, segurança social e disponibilização de escolas (Amaral, 2011). Para alcançar bons níveis de qualidade de vida e bem-estar dos cidadãos, em especial os menos favorecidos, faz- se necessária ainda a prestação universal de certos serviços básicos e essenciais, seja a cargo dos próprios poderes públicos ou por empresas privadas, que se obrigam a fornecê-los conforme certos pré-requisitos.
Particularmente em Portugal, para efeitos de proteção dos cidadãos e dos consumidores em geral, a Lei dos Serviços Públicos22, em seu artigo 1o., define como serviços essenciais:
fornecimentos de água, de energia elétrica, de gás natural e de gases de petróleo liquefeitos canalizados; as telecomunicações; os serviços postais; e a recolha e tratamento de águas residuais e a gestão de resíduos sólidos urbanos. Deste modo, estabelece-se um mercado com características bem definidas, dirigidas à prestação de serviços básicos, universais e essenciais à vida moderna. É importante sublinhar que os serviços contemplados como essenciais podem ter seus respetivos fornecimentos sujeitos a sérios desequilíbrios contratuais, uma vez que os consumidores não dispõem de poder negocial perante o fornecedor. Portanto, tal lei é de extrema importância para assegurar níveis mínimos e aceitáveis de qualidade de vida e equidade da população.
Relativamente ao cidadão sénior Português, consta também na Constituição da República23, Capítulo II (Direitos e Deveres culturais), Artigo 72 (Terceira idade), que estes cidadãos “têm
direito à segurança económica e a condições de habitação e convívio familiar e comunitário
22 Lei n.o 23/96, de 23/07 – http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=1436&tabela=leis (Acesso em 05-05-2017)
23 Lei n.o 1/92, de 25/11 – http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=4&tabela=leis (Acesso em 05-05-2017)
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70 que evitem e superem o isolamento ou a marginalização social”. Nesta lei são ainda impostas
medidas protetoras de cunho económico, social e cultural “para criar oportunidades de
realização pessoal, através de uma participação ativa na vida da comunidade”. No contexto
europeu, destacam-se os “Princípios das Nações Unidas para o Idoso”, Resolução 46/91 e a “Carta Europeia dos Idosos” (1992). Estes documentos foram promulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU) e representam um marco inicial para a criação de políticas públicas relacionadas ao envelhecimento populacional na Europa (Patrício, 2014). De acordo com Keinert e Rosa (2009), tais documentos ressaltam a importância dos idosos na sociedade, que devem “participar ativamente na formulação e implementação de políticas que afetam seu bem-
estar, prestando serviços voluntários à comunidade, de acordo com seus interesses e capacidades e atuando em movimentos e associações da sociedade civil”. Anos depois, em
1999, no âmbito do “Ano Internacional das Pessoas Idosas das Nações Unidas"24, foi lançado o comunicado “eEurope - Uma sociedade da informação para todos” (European Commission, 1999) com respostas políticas pertinentes a cidadãos de todas a idades. Desde então, vários comunicados e iniciativas têm sido lançados pela EC de modo a garantir uma maior coesão social, económica e territorial entre os Estados-Membros da UE. A Tabela 2 lista os direitos dos idosos definidos na “Carta Europeia os Idosos”.
Tabela 2. Direitos definidos na “Carta Europeia dos Idosos” (Brandão, 2013, grifo do autor). 1 Direito a rendimentos mínimos garantidos que permitam uma vida digna
2 Direito a escolher o local de residência e o dever, por parte da sociedade, de garantir os serviços sociais necessários para o exercício desse direito
3 Direito à saúde mental e física, a medidas de prevenção, de reabilitação e de proteção legal em caso de tratamento
4 Direito a um quadro de vida adequado e a um sistema de transportes públicos adaptados às suas necessidades
5 Direito a um meio ambiente que garante a segurança e a saúde das pessoas
6 Direito ao ócio, à formação; ao aperfeiçoamento, à cultura, à prática de atividades físicas e desportivas complementares
7 Direito a uma informação completa e eficaz
8 Direito a uma cidadania responsável e à participação nas decisões coletivas mediante uma representação eficaz nos órgãos competentes
24 https://un.org/development/desa/ageing/resources/international-year-of-older-persons-1999.html (Acesso em 05-05-2017)
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Por último, importa salientar que apenas a prestação de serviços essenciais de forma equitativa e com qualidade não é suficiente. Considerando novamente o contexto Português, para além de elencar os serviços essenciais à vida moderna, a Lei de Serviços Públicos, em seu Artigo 4o., vai ao encontro do item 7 da “Carta Europeia dos Idosos” (Direito a uma informação
completa e eficaz) e estabelece regras explícitas relativamente às obrigações dos prestadores
de serviço para fornecimento de informações:
“1. O prestador do serviço deve informar, de forma clara e conveniente, a outra parte das condições em que o serviço é fornecido e prestar-lhe todos os esclarecimentos que se justifiquem, de acordo com as circunstâncias.
2. O prestador do serviço informa diretamente, de forma atempada e eficaz, os utentes sobre as tarifas aplicáveis pelos serviços prestados, disponibilizando-lhes informação clara e completa sobre essas tarifas.
3. Os prestadores de serviços de comunicações eletrónicas informam regularmente, de forma atempada e eficaz, os utentes sobre as tarifas aplicáveis aos serviços prestados, designadamente as respeitantes às redes fixa e móvel, ao acesso à Internet e à televisão por cabo.”25
O presente trabalho apoia-se fundamentalmente na Constituição da República de Portugal e nas deliberações da EC relativamente aos Serviços de Interesse Geral (SGI) portugueses26, uma vez que potencia a disponibilização de informação adequada sobre os serviços prestados aos cidadãos beneficiários.