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Direitos da Criança no Plano Internacional

No documento CENTRO UNIVERSITÁRIO UNICEUB (páginas 38-41)

1.2 A Emergência dos Direitos da Criança

1.2.3 Direitos da Criança no Plano Internacional

De origem nacional, estribado no direito interno, o princípio do melhor interesse da criança alcançou relevância internacional. A partir da implantação nos ordenamentos jurídicos internos, abriu-se caminho à afirmação internacional dos direitos da criança, e o princípio do superior interesse deve ser considerado um dos “princípios gerais de direito reconhecidos pelas nações civilizadas” que o Artigo 38 do Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça considera uma fonte de interpretação do Direito Internacional (MONTEIRO, 2002, p. 146). A partir da segunda metade do século XX, juntamente com a internacionalização da questão dos direitos humanos, os direitos da criança foram elevados ao patamar de tema global.

Já em 1924, entretanto, a Declaração de Genebra, no âmbito da Liga das Nações, afirmava a necessidade de proclamar à criança uma proteção especial5. Em 1948, por meio da Declaração Universal dos Direitos do Homem, das Nações Unidas, novo passo foi dado, e reconheceu-se à criança “o direito a cuidados e assistência especiais”. Posteriormente, a Declaração Universal dos Direitos da Criança, Resolução nº 1.386, de 20 de novembro de 1959, da Assembléia Geral da ONU, estabeleceu em seu Segundo Princípio:

a criança gozará proteção especial e ser-lhe-ão proporcionadas oportunidades e facilidades, por lei e por outros meios, a fim de lhe facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, de forma sadia e normal e em condições de liberdade e dignidade. Na instituição de leis visando este objetivo levar-se-ão em conta sobretudo, os melhores interesses da criança6.

O processo de emergência dos direitos humanos (e também dos direitos da criança) como tema global permitiu que fosse conferido o necessário destaque internacional às necessidades especiais da criança na condição de pessoa em desenvolvimento.

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De fato, a criança, tema do primeiro dos grandes encontros internacionais da agenda social da Organização das Nações Unidas nos anos 90, na denominada Década das Conferências (ALVES, 2001, p. 24), integra um grupamento humano cuja proteção, embora sempre invocada com destaque nos discursos políticos e textos jurídicos, tem tido sua efetividade reiteradamente afligida pelo descaso de entes estatais e privados nacionais e internacionais, o que proporciona toda sorte de violações dos direitos mais elementares daqueles que “por sua própria natureza, são os seres mais vulneráveis e desprotegidos da espécie humana” (CÁRDENAS, 2000, p. 207)

Tanto no plano interno quanto no plano internacional, a defesa dos direitos da criança é um desses temas que desperta manifestações de simpatia em todos os lugares e entre todos os envolvidos nas discussões nacionais e internacionais. Essa boa vontade geral já havia sido identificada quando da aprovação da Declaração dos Direitos da Criança, e novamente se fez presente quando da aprovação da Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada pela Resolução nº 44/25, de 20 de novembro de 1989.

A boa vontade para com o tema não representa, entretanto, garantia da inexistência de divergências no processo de discussão ou de futura eficácia operacional dos textos normativos aprovados. A tranqüilidade com que se desenvolveu a Cúpula Mundial sobre a Criança, realizada na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, de 28 a 30 de setembro de 1990, foi resultado de intensos trabalhos na década anterior e de modificações na política internacional, sobretudo no sentido Leste-Oeste:

O fato de três dias terem sido suficientes para as negociações e aprovação de documentos não significa que o tratamento do tema não comportasse divergências. Elas se haviam manifestado acirradamente por dez anos, entre 1979 e 1989, no processo de elaboração da Convenção sobre os Direitos da Criança, tanto por diferenças ideológicas típicas da Guerra Fria, como por motivos de ordem econômica e cultural, no sentido Norte-Sul. Mas as discordâncias amainaram com a evolução da distensão Leste-Oeste , de tal forma que foi possível ter a Convenção adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, conforme desejava o Unicef (Fundo das Nações Unidas para as Crianças), no momento em que se celebravam os trinta

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anos do primeiro documento normativo da ONU sobre a matéria: a Declaração sobre os Direitos da Criança, de 1959. (ALVES, 2001, p. 48).

No que se refere aos conflitos de interesses em que envolvidos menores, durante muito tempo, muito mais do que o razoável, as sociedades observaram o conflito entre o bem estar do menor e o interesse pessoal de um ou de ambos os genitores sem o adequado enfrentamento do problema (CÁRDENAS, 2000, p. 208). Finalmente, compreendeu-se que esse conflito de interesses deve ser resolvido com o foco voltado para a prevalência do interesse da criança. Ou seja, as disputas não podem ser enfrentadas sob o primado dos princípios que regem os interesses sobre coisas, pois o que se encontra em questão são direitos humanos.

Embora a Convenção sobre os Direitos da Criança tenha consagrado internacionalmente o princípio do ‘interesse superior da criança’, o caminho percorrido foi acidentado:

Na sua primeira formulação geral, adoptada pelo Grupo de Trabalho da Convenção, em 1980, o interesse superior da criança deveria ser a ‘consideração suprema’, mesmo para os pais e tutores da criança. No ano seguinte, durante a discussão do novo projeto revisto, apresentado pela Polônia, os EUA retomaram uma proposta do ano anterior e apresentaram uma versão diferente, que considerava o interesse superior da criança como ‘uma’ consideração ‘primordial’, acrescentando ‘oficiais’ à palavra ‘decisões’, relativas às crianças, e excluindo a referência aos pais e tutores da criança. Durante o debate, algumas delegações suscitaram a questão de saber se o interesse superior da criança deveria ser ‘a’ consideração ‘primordial’, o que parecia excessivo, ou ‘uma’ consideração ‘primordial’. Argumentou-se que, em certas circunstâncias, outras prioridades se podem impor. Foi também posta em causa a imposição de obrigações aos pais e aos tutores em tratado internacional (MONTEIRO, 2002, p. 147-148).

A questão da disciplina de relações privadas por meio de tratados já vinha sendo enfrentada em alguns fóruns internacionais, pois o incremento do número de situações em que presentes elementos de conexão internacional, como o deslocamento compulsório do menor de um Estado para outro, já evidenciara a necessidade de encontrar soluções que adequadamente enfrentassem o desafio representado por essas situações de interesse privado tornadas mais freqüentes pela ampliação do deslocamento de pessoas pelo mundo:

para impedir que estos desplazamientos que tienem em su génesis motivos egoístas resultem exitosos para quienes los han llevado a cabo, los Estados han compreendido que se trata de um problema que precisa de soluciones convencionales. Por tanto, se impone la mutua cooperación [...]

Com tales propósitos los foros internacionales se han preocupado por elaborar distintos mecanismos de protección, entre los que se testacan los implementados em convênios internacionales, sean bilaterales o multilaterales. (Cárdenas, 2000, p.208).

Monteiro (2002), autor português, afirma que, quanto à forma de enunciar o caráter primordial do interesse superior da criança na Convenção sobre os Direitos da Criança, não se pode dizer ter havido uma tese vencedora para todo o texto, pois se o § 1º do Artigo 3º dispõe que “todas as decisões que dizem respeito às crianças, quer sejam tomadas pelas instituições públicas ou privadas de proteção social, pelos tribunais, pelas autoridades administrativas ou pelos órgãos legislativos, o interesse superior da criança deve ser uma consideração

primordial”, o Artigo 21 prescreve que os Estados-Partes “que admitem e/ou autorizam a adopção asseguram-se de que o interesse superior da criança é a consideração primordial na

matéria” (grifos nossos). No texto brasileiro, entretanto, não se observa essa diferença.

A proteção internacional dos direitos da criança insere-se no conjunto mais amplo da proteção internacional dos direitos da pessoa natural. É adequado, portanto, antes de abordar a disciplina jurídica dos direitos das crianças, discorrer sobre mais alguns aspectos da proteção internacional das pessoas naturais.

No documento CENTRO UNIVERSITÁRIO UNICEUB (páginas 38-41)