3 VIOLAÇÃO AOS DIREITOS DE PERSONALIDADE E RESPONSABILIDADE
3.1 DIREITOS DA PERSONALIDADE: CONCEITO E CARACTERÍSTICAS
Os direitos da personalidade são direitos subjetivos atribuídos ao ser humano com o fim de proteger seus direitos essenciais. Tais direitos possuem como fundamento maior a dignidade da pessoa humana e ganharam redação específica no direito brasileiro a partir do Código Civil de 2002, que trouxe um capítulo próprio sobre o tema (artigos 11 a 21). Antes disso, a sua proteção se dava de forma esparsa na própria legislação civil, na legislação penal, dentre outras, além da proteção prevista no texto constitucional.
Existem duas correntes principais acerca dos fundamentos jurídicos dos direitos da personalidade, uma jusnaturalista, defendida por Limongi França e seguida por Carlos Alberto Bittar, Maria Helena Diniz, que entendem que os direitos da personalidade são inatos ao homem, e outra positivista, minoritária, defendida por De Cupis e a qual se filiam Cristiano Farias e Nelson Rosenvald, que entendem que somente serão considerados direitos da personalidade os direitos reconhecidos pelo Estado (aqueles decorrentes da ordem jurídica) afastando, portanto, a ideia de que os direitos da personalidade são inatos ao homem.
Para Adriano de Cupis, os direitos da personalidade constituem direitos necessários e imprescindíveis à formação da personalidade; representam o “minimum necessário e imprescindível ao seu conteúdo”. De Cupis, adepto da teoria positivista, afirma que somente devem ser considerados como direitos da personalidade aqueles reconhecidos pelo Estado.107 Já Limongi Franca entende que “os direitos da personalidade dizem-se as faculdades jurídicas cujo objeto são os diversos aspectos da própria pessoa do sujeito, bem assim da sua
107 CUPIS, Adriano de. Os direitos da personalidade. Trad. Afonso Celso Furtado Rezende. Campinas: Romana,2004, p.23-24.
63 projeção essencial no mundo exterior”. O autor, adepto da teoria jusnaturalista, entende que os direitos da personalidade não se resumem aos previstos em lei.108
No direito brasileiro, Carlos Alberto Bittar define os direitos da personalidade como “os direitos reconhecidos à pessoa humana tomada em si mesma e em suas projeções na sociedade, previstos no ordenamento jurídico exatamente para a defesa de valores inatos no homem, como a vida, a higidez física, a intimidade, o segredo, o respeito, a honra, a intelectualidade e outros tantos”. Segundo o autor, os direitos da personalidade são aqueles inerentes à pessoa, em razão de sua estrutura física, psíquica e moral.109
Por outro lado, Cristiano Farias e Nelson Rosenvald, definem os direitos da personalidade como “aquelas situações jurídicas reconhecidas à pessoa, tomadas em si mesma e em suas necessárias projeções sociais”. Segundo os autores, tratam-se de direitos “essenciais ao desenvolvimento da pessoa humana, em que se convertem as projeções físicas, psíquicas e intelectuais do seu titular, individualizando-o de modo a lhe emprestar segura e avançada tutela jurídica” 110.
Entretanto, embora adeptos da teoria positivista dos direitos da personalidade, Cristiano Farias e Nelson Rosenvald entendem que o rol desses direitos previstos no Código Civil Brasileiro não é taxativo e devem ser compreendidos a partir de uma cláusula geral “que assegure proteção plena e eficaz à pessoa humana, permitindo que novos e eventuais valores incorporados à personalidade não estejam carentes de tutela jurídica”. Afirmam os autores que diante da rapidez com que ocorrem novas descobertas tecnológicas e científicas, a existência de um direito geral da personalidade, se faz necessária para garantir a tutela da pessoa humana111.
Desse modo, Cristiano Farias e Nelson Rosenvald afirmam que embora a legislação brasileira traga proteção específica a alguns direitos da personalidade, a exemplo do direito ao nome, a privacidade e a imagem, existe ainda uma cláusula geral de proteção da personalidade, que amplia a tutela de forma significativa, impedindo o esgotamento das espécies de direitos da personalidade.
A existência de um direito geral da personalidade é defendida por muitos doutrinadores brasileiros. Nesse sentido, afirma Carlos Alberto Bittar:
108 FRANÇA, R. Limongi. Instituições de direito civil. 5.ed. São Paulo: Saraiva, 1999. P.935.
109 BITTAR, Carlos Alberto. Os direitos da personalidade. 8.ed.São Paulo:Saraiva, 2015, p.29.
110 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil, v1: parte geral e lindb.15.ed.Salvador: Podivm, 2017. P 183-184.
111 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil, v1: parte geral e lindb.15.ed.Salvador: Podivm, 2017. P 222.
64 O direito geral da personalidade fundamenta, informa e serve de princípio geral mesmo aos direitos especiais da personalidade, uma vez que é visto como um direito-mãe ou um direito-fonte. No entanto, sua aplicação se dá de forma subsidiária aos direitos especiais da personalidade, sendo englobante dos mesmos, que, por seu turno, não esgotam o bem geral da personalidade. Assim, pode-se dizer que os direitos típicos seriam manifestações parciais da tutela globalmente conferida pelo direito geral da personalidade112.
Nos dizeres de Bittar, o direito geral da personalidade serviria como um direito mãe, apto para tutelar bens da personalidade que não possuam tutela específica, de modo que a sua aplicação ocorreria de forma subsidiária e ajudaria a suprir as brechas existentes no direito positivo.
Destaque-se, entretanto, que, embora defendido por muitos autores brasileiros, o Código Civil de 2002 não trouxe previsão expressa de um direito geral da personalidade, firmando-se o entendimento de que tal direito encontra-se implícito, como decorrência do principio da dignidade humana. Neste sentido, afirma Bittar que a moderna doutrina brasileira entende que o direito geral da personalidade encontra-se implícito no ordenamento jurídico, e fundamenta-se “no princípio da dignidade da pessoa humana (art.1º,III, da CF), na permissão constitucional do reconhecimento de outros direitos e garantias (art.5º, §2º, da CF), bem como no art. 12 do Código Civil de 2002, que funcionará como cláusula de abertura formal do sistema” 113.
Em que pese a divergência acerca da existência ou não de direito geral da personalidade no direito brasileiro, prevalece o entendimento de que o rol de direitos da personalidade previsto no Código Civil não é taxativo, mas meramente exemplificativo. Nesse sentido, Carlos Alberto Bittar afirma que “os direitos da personalidade são muitos e de várias categorias; por isso, o Novo Código Civil preferiu apresentar um rol meramente residual, uma vez que boa parte dos direitos da personalidade vem inserida na Constituição Federal como direitos fundamentais”.114
No mesmo sentido, o enunciado 274 do Conselho da Justiça Federal, aprovado na IV Jornada de Direito Civil também afirma que o rol dos direitos da personalidade previsto no Código Civil não é taxativo:
Os direitos da personalidade, regulados de maneira não exaustiva pelo Código Civil, são expressões da cláusula geral de tutela da pessoa humana, contida no art. 1º, III, da Constituição (principio da dignidade da pessoa humana). Em caso de colisão entre eles, como nenhum pode sobrelevar os demais, deve-se aplicar a técnica da ponderação.
112 BITTAR, Carlos Alberto. Os direitos da personalidade. 8.ed.São Paulo:Saraiva, 2015. P.154.
113 BITTAR, Carlos Alberto. Os direitos da personalidade. 8.ed.São Paulo:Saraiva, 2015.P.156.
65 Esses direitos da personalidade, cujo rol é exemplificativo, costumam ser classificados no Brasil de forma tripartida, referentes aos aspectos físicos, psíquicos e morais, destaque-se, entretanto, que essa classificação poderá variar de acordo com a metodologia adotada por cada autor.
Carlos Alberto Bittar divide os direitos da personalidade em físicos “referentes a componentes materiais da estrutura humana (a integridade corporal, compreendendo: o corpo, como um todo; os órgãos; os membros; a imagem, ou efígie)”, psíquicos, “relativos a elementos intrínsecos à personalidade (integridade psíquica, compreendendo: a liberdade; a intimidade; o sigilo)” e morais “respeitantes a atributos valorativos (ou virtudes) da pessoa na sociedade (o patrimônio moral, compreendendo: a identidade; a honra; as manifestações do intelecto)”.115
Classificação semelhante é a adotada por Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona, que classificam os direitos da personalidade de acordo com a proteção à vida e integridade física, integridade psíquica e criações intelectuais, e integridade moral.116
Outra classificação bastante conhecida é a de Heinrich Hubmann, apontada por Leonardo Zanini, que traz a distinção entre o direito à personalidade (referente à “toda equipagem do individuo” incidindo sobre a existência, o espírito e a vontade) , o direito ao desenvolvimento da personalidade (a exemplo das liberdades) e o direito à individualidade (referente ao caráter próprio do homem).117
Como salientado, tem prevalecido no Brasil a divisão dos direitos da personalidade em direitos de ordem física, psíquica e moral. Esses direitos possuem como principais características o fato de serem direitos subjetivos; não patrimoniais, eis que não possuem conteúdo patrimonial e econômico; intransmissíveis, não podendo ser transferidos a outrem; irrenunciáveis, não podendo abrir mão deles; vitalícios, eis que vigoram durante toda a existência da pessoa; e oponível erga omnes. Tais atributos sofrem uma pequena variação de acordo com entendimento de cada autor.
Carlos Alberto Bittar caracteriza os direitos da personalidade como “inatos (originários), absolutos, extrapatrimoniais, intransmissíveis, imprescritíveis, impenhoráveis, vitalícios, necessários e oponíveis erga omnes” 118.
115 BITTAR, Carlos Alberto. Os direitos da personalidade. 8.ed.São Paulo:Saraiva, 2015. P.49.
116 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil, v1: parte geral. 19. ed,. São Paulo: Saraiva, 2017.
117 ZANINI, Leonardo Estevam de Assis. Direitos da personalidade: aspectos essenciais. São Paulo: Saraiva, 2011.
66 Quanto à indisponibilidade, cumpre destacar que alguns direitos da personalidade podem ser relativizados. Nesse sentido, Cristiano Farias e Nelson Rosenvald afirmam que “muito embora os direitos da personalidade sejam indisponíveis ao seu titular, admite-se, eventualmente, uma cessão do seu exercício, em determinadas situações e dentro de certos limites”. Admite-se, portanto, a disponibilidade relativa dos direitos da personalidade, desde que não seja sacrificada a dignidade do titular.119
Nessa linha de entendimento, o enunciado 4 da 1ª Jornada de Direito Civil dispôs que “o exercício dos direitos da personalidade pode sofrer limitação voluntária, desde que não seja permanente nem geral”.
De igual modo, em relação à extrapatrimonialidade, em que pese os direitos da personalidade não possuam valor econômico, alguns deles podem ser cedidos de forma onerosa, assim como a ofensa aos direitos da personalidade pode ter reflexos patrimoniais.
Destacado o conceito e as principais características dos direitos da personalidade, e com o objetivo de não se desviar do foco do presente trabalho, que aborda as fake news, passa-se a analisar os principais direitos da personalidade afetados pelas falaciosas notícias.