1.1 “Sexo” e “gênero”
3. Direitos da Personalidade: nome e estado da pessoa
Antes de adentrarmos no estudo dos Direitos da Personalidade, é necessário tecer um breve comentário sobre o atual estágio do Direito Civil em nosso país.
O chamado Direito Civil Constitucional é uma releitura desse ramo do Direito a partir dos fundamentos e princípios constitucionais da nova tábua axiológica, fundada na Solidariedade Social, Igualdade Substancial e Dignidade da Pessoa humana, sendo este um superprincípio e valor máximo do Direito.
Dá-se em função do fenômeno da projeção horizontal dos direitos fundamentais, ou seja, a partir da aplicação desses direitos não apenas em âmbito público, como também nas relações privadas. Os Direitos Fundamentais são projetados para mediar relações entre Estado e particular (direito público), mas também passam a configurar fonte mediadora das relações entre sujeitos particulares (direito privado).
Assim, ocorre uma verdadeira recompreensão e reinterpretação do Direito Civil com base nos princípios e regras constitucionais, não sendo mais correto tratar essa esfera do Direito como um ramo do direito privado, estando atualmente a divisão entre direito público e privado obsoleta (SanCheS, 2012).
Nota-se, com isso, uma elevação da importância dos princípios constitucionais, havendo cada vez mais a necessidade de observância da dignidade da pessoa humana em harmonia com a liberdade e a igualdade (formal e material). Esta introdução é de suma importância para que haja a correta compreensão do enfoque a ser dado no presente artigo, tendo em vista que entendemos que os princípios constitucionais, especialmente a Dignidade da Pessoa Humana, devem guiar toda a produção jurídica acerca deste tema.
3.1 Direitos da Personalidade
Sem adentrar de forma extensa em uma discussão jurídica de qual seria o momento do surgimento da pessoa natural,16
uns entendem que este se dá quando do nascimento com vida, com o funcionamento do aparelho cardiorrespiratório (teoria natalista), enquanto outros atrelam o surgimento da pessoa ao momento da concepção (teoria concepcionista). Seja qual teoria se adote, a Personalidade (existência da pessoa) e os direitos correlatos a ela surgem no momento do início da vida, tendo seu fim com a morte da pessoa.
Os Direitos da Personalidade podem ser conceituados como “direitos subjetivos que têm por objeto os bens e valores essenciais da pessoa, em seu aspecto físico, moral e intelectual” (tartuCe, 2013, p. 86), sendo os direitos inerentes à pessoa e à sua dignidade.
Dizem respeito à necessidade de garantia da autonomia privada, enquanto possibilidade de o indivíduo dar destino ao desenvolvimento de sua existência e personalidade livre de qualquer constrangimento externo. São direitos essenciais para que os demais direitos subjetivos da pessoa se realizem, sendo o mínimo necessário do conteúdo da personalidade (VeCChiatti, 2015).
16 “Pessoa é o ente físico ou coletivo suscetível de direitos e obrigações, sendo sinônimo de sujeito de direitos. Sujeito de direitos, por sua vez, é aquele que pode fazer valer uma pretensão jurídica por meio de ação, [...] autorizado pela lei a exigir do Estado a prestação da tutela jurisdicional” (diniz, 2007, apud toledo, 2008, p. 76).
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Pode-se entender que os fundamentos dos Direitos da Personalidade são a proteção da dignidade humana e da autonomia privada, as quais garantem o desenvolvimento da individualidade das pessoas e sua autodeterminação.17
Assim, não há dúvidas de que os Direitos da Personalidade são também Direitos Fundamentais.
A doutrina classifica os Direitos da Personalidade como intransmissíveis, irrenunciáveis, extrapatrimoniais, vitalícios, subjetivos, inatos, absolutos, indisponíveis, imprescritíveis, ilimitados e impenhoráveis (tartuCe, 2013). Não obstante, estas características podem ser relativizadas em determinadas circunstâncias, como nos casos de cessão do direito de imagem, cirurgia de transgenitalização e alteração do prenome.
Os Direitos da Personalidade podem ser divididos em três grandes categorias: integridade física; integridade intelectual; e integridade moral.
No primeiro grupo estão os direitos à vida, saúde, ao corpo e partes separadas do corpo. Em relação às transexuais, é importante citar a possibilidade da cirurgia de transgenitalização18 e demais modificações corporais (ex: implante
de silicone, mastectomia), estas também realizadas pelas travestis e homens trans, não sendo mais tais interferências consideradas como violação da integridade física, mas sim verdadeiros procedimentos para garantir a saúde, bem- estar e dignidade destas pessoas.
O segundo grupo se relaciona com a questão de direitos autorais. O terceiro grupo, por sua vez, engloba direitos que integram diretamente o tema deste artigo, como a identidade, imagem, honra, privacidade e intimidade.
A identidade visa à preservação da individualidade social (nome, estado e domicílio) e pessoal (genética). A imagem se refere à representação física da pessoa ou seu retrato, enquanto a honra se comunica diretamente com aquela, no aspecto público. A privacidade busca a não exposição do indivíduo. Por fim, a intimidade visa ao controle sobre as informações que digam respeito à vida pessoal e íntima da pessoa.
Importante ressaltar que os direitos ao nome e ao estado sexual integram a individualização da pessoa natural, possibilitando a identificação, a representação e conferindo identidade às pessoas, sendo que todos os outros atributos da integridade moral fundamentam e serão amplamente utilizados na defesa do direito à alteração do prenome e estado sexual da pessoa trans.
3.1.1. Prenome
O nome é o primeiro sinal que identifica a pessoa perante a família e a sociedade, sendo o elemento exterior mais visível de sua individualidade, categorizando a personalidade do indivíduo no aspecto pessoal e no aspecto civil (hogeMann, 2014).
17 Neste sentido, nos dizeres do Enunciado 274 da IV Jornada de Direito Civil, “os direitos da personalidade, regulados de maneira não exaustiva pelo Código Civil, são expressões da cláusula geral de tutela da pessoa humana, contida no art. 1º, III, da Constituição (princípio da dignidade da pessoa humana)” (tartuce, 2013, p. 86).
18 O Conselho Federal de Medicina autoriza a cirurgia de transgenitalização desde 1997. Atualmente a Resolução 1.955/2010 regulamenta o procedimento de neocolpovulvoplastia (mulheres transexuais) e procedimentos sobre gônadas e caracteres sexuais secundários, permitindo, a título experimental, o procedimento de neofaloplastia (homens trans). Desde agosto de 2008 o procedimento também é realizado pelo SUS (vieira, 2012).
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Nada mais é do que um requisito básico de nossa existência social, sendo um verdadeiro Direito Público Subjetivo da pessoa, diretamente relacionado ao direito à integridade moral e pessoal, uma vez que não é possível a existência de uma pessoa sem a designação de um nome (hogeMann, 2014), nos termos do art. 16 do Código Civil.
Assim, entende-se que o nome possui duas funções: individualizadora e identificadora. A função individualizadora designa a necessidade da sociedade na distinção das pessoas. A função identificadora designa a necessidade de esta sociedade identificar as pessoas para os fins de direitos e obrigações (hogeMann, 2014).
Os elementos essenciais do nome são o prenome e o sobrenome, sendo o primeiro de livre escolha dos pais, sem que haja exposição ao ridículo, escolha essa que normalmente se dá de acordo com o gênero sexual designado ao recém- nascido (conforme sua genitália). O sobrenome, por sua vez, é o nome de família, exteriorizando a procedência desta. Em princípio ambos são imutáveis, uma vez que tomados por um interesse público na individualização das pessoas e segurança nas relações jurídicas. No entanto, existem algumas hipóteses em que a alteração se faz possível, de forma excepcional, com fundamento na Dignidade da Pessoa Humana (art. 1.º, III, da Constituição) e no princípio da Solidariedade Social (art. 3.º, I, da Constituição).
Podemos citar, de forma genérica, algumas hipóteses em que a alteração do prenome se justifica: substituição do prenome por apelido público notório; fundada coação ou ameaça decorrente de colaboração na apuração de crimes; erro gráfico evidente; exposição ao ridículo de seu titular, ou grave constrangimento; correção do sexo para as hipóteses de intersexuais; pessoas trans, tenham ou não feito cirurgia de transgenitalização (tartuCe, 2013).19
Neste artigo trataremos especificamente do prenome, tendo em vista que é este o objeto de alteração nos pedidos realizados pelas pessoas trans.
Não podemos ignorar a relevância e o impacto do prenome nas pessoas trans, sendo ele o primeiro elemento de identificação da pessoa e também da confirmação do seu gênero. Nesse sentido, tendo em vista que na realidade brasileira os prenomes se orientam de acordo com o binarismo de gênero, para as pessoas trans a sua alteração é de suma importância, sendo requisito básico para a afirmação de sua identidade de gênero.
19 Lei 6.015/1973 (Lei de Registros Públicos – LRP):
“Art. 55. [...] Parágrafo único. Os oficiais do registro civil não registrarão prenomes suscetíveis de expor ao ridículo os seus portadores. Quando os pais não se conformarem com a recusa do oficial, este submeterá por escrito o caso, independente da cobrança de quaisquer emolumentos, à decisão do Juiz competente.
Art. 56. O interessado, no primeiro ano após ter atingido a maioridade civil, poderá, pessoalmente ou por procurador bastante, alterar o nome, desde que não prejudique os apelidos de família, averbando-se a alteração que será publicada pela imprensa.”
“Art. 58. O prenome será definitivo, admitindo-se, todavia, a sua substituição por apelidos públicos notórios.
Parágrafo único. A substituição do prenome será ainda admitida em razão de fundada coação ou ameaça decorrente da colaboração com a apuração de crime, por determinação, em sentença, de juiz competente, ouvido o Ministério Público.”
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3.1.2 Estado Sexual
Estado é a posição jurídica da pessoa no meio social resultante de certas qualidades que lhe são inerentes, nos contextos político, familiar e individual. Trata-se de uma qualificação jurídica decorrente de seu modo particular de existir, que também representa um de seus elementos identificadores.
É dividido em quatro categorias: político (posição da pessoa face ao Estado); profissional (atuação econômica da pessoa); familiar (relações conjugais e de parentesco) e individual (condição física da pessoa influente em seu agir) (tartuCe, 2013).
O Estado Sexual da pessoa pertence à última categoria, sendo analisado sob o prisma individual físico do indivíduo. Nesta categoria a pessoa pode ser classificada conforme sua idade (maior ou menor), quanto à saúde mental e física (pessoa com ou sem deficiência) e quanto ao sexo (feminino e masculino) (toledo, 2008).
A doutrina confere as características da irrenunciabilidade, inalienabilidade e imprescritibilidade ao estado da pessoa. Ocorre que a alteração é possível em casos excepcionais, como no caso do casamento/divórcio, adoção e alteração de estado sexual das pessoas trans (toledo, 2008).
Da mesma forma que o nome, o estado sexual é um elemento de suma importância para as pessoas trans, uma vez que identificar uma pessoa com o gênero oposto ao que ela ostenta socialmente significa grave violação de sua dignidade e de seu direito à individualidade, identidade e autodeterminação. Assim, a busca pela alteração desse elemento em seu Registro Civil se faz de extrema importância para que estas pessoas possam viver plenamente a sua identidade de gênero.