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Como quer que se defina a liberdade individual, ela não pode significar uma liberdade em relação a todas as formas de dependência. Nenhum agente humano é capaz de criar sozinho todas as precondições para sua ação. O cidadão livre é especialmente dependente. Pode se sentir “independente” quando entra numa loja de ferragens e compra ferramentas e materiais para construir algo para si, mas sua autonomia é uma ilusão. Portanto, a teoria liberal deve distinguir a liberdade, que é desejável, da não dependência, que é impossível. A liberdade, quando corretamente concebida, não exige uma total ausência de dependência em relação ao Estado; pelo contrário, um Estado afirmativo proporciona as precondições necessárias para a liberdade. A Declaração de Direitos é um jogo de ferramentas e um conjunto de materiais que os cidadãos só podem comprar em “lojas” custeadas pelos contribuintes.

Com base numa lei democraticamente promulgada, como a Lei das Ações de Responsabilidade Civil contra o Governo Federal, o cidadão individual pode recorrer ao poder judiciário e mover ação contra o governo por ter violado seus direitos. Ao fazê-lo, age como um cidadão livre, muito embora seu ato individual pressuponha um ato anterior do Estado. Assim, o país liberal não pode eliminar a dependência dos indivíduos e dos subgrupos em relação ao Estado. Mas por que deveria eliminá-la? Uma certa espécie de dependência não é debilitante; pelo contrário, é capaz de facilitar a vida, especialmente quando as leis podem ser objeto de revisão democrática e os políticos podem ser depostos do cargo também por via democrática. Meu direito de votar ou de fazer um testamento

depende de que o Estado proporcione meios jurídicos pelos quais esses fins possam ser alcançados. Quando o Estado se nega a fornecer esses meios (como faz, por exemplo, quando nega a casais do mesmo sexo o direito de se casar legalmente), ele está, com ou sem razão, negando certos direitos individuais. O que promove a liberdade individual não é a não dependência em relação ao sistema jurídico e ao Estado, mas sim um certo estilo de dependência que estimule a iniciativa pessoal, a cooperação social e o autoaperfeiçoamento.

A educação pública proporcionada a todos, e não somente com base no poder aquisitivo do cidadão, é o exemplo mais evidente de uma assistência afirmativa do Estado, financiada pela coletividade e criada para capacitar os indivíduos e grupos. Os direitos de propriedade têm a mesma finalidade e o mesmo resultado. Essa ideia deve nos encorajar a repensar nossos programas de regulamentação e bem-estar social, não no sentido de eliminar a dependência (o que é impossível), mas de criar um tipo de dependência que capacite as pessoas e possibilite que a maioria delas leve uma vida decente.

A “independência” de que os norte-americanos tanto gostam é, na verdade, a dependência em relação a um certo conjunto de instituições liberais. Só posso escapar à opressão do chefete local – ou seja, só posso ser independente – se tiver o poder público do meu lado. Um Tesouro vazio e uma administração debilitada condenam os direitos a existirem somente no papel. Não temos de examinar outros países para ver que isso é verdade. O que vemos quando olhamos para nossos bairros mais pobres, aqui mesmo nos Estados Unidos? Será que os norte-americanos menos privilegiados têm realmente os mesmos direitos que todos os outros (por exemplo, a liberdade em relação a buscas e apreensões irrazoáveis, a proteção contra os abusos da polícia, o direito a um julgamento justo), além de uma larga gama de direitos de bem-estar social proporcionados sem que tenham de gastar nada? Na verdade, muitos norte-americanos pobres vivem sem direitos exigíveis judicialmente porque, tendo sido praticamente abandonados pelo Estado, é como se tornassem pessoas sem nacionalidade.

Os norte-americanos ricos não são abandonados dessa maneira. Os cidadãos que mais “se viram sozinhos” não são nem os que têm casa própria nem os que recebem ajuda da previdência social, mas sim os sem-teto que ficam longe dos albergues e reviram o lixo, dormem embaixo de viadutos e pedem trocados aos transeuntes. Dizer que tais indivíduos “se viram sozinhos” é dizer que têm pouco acesso aos mecanismos legais que poderiam protegê-los da institucionalização não merecida ou de serem atacados por adolescentes armados de tacos de beisebol e galões de gasolina.

Os governos liberais também têm de impedir que a disparidade entre o luxo e a miséria cresça e apareça ao ponto de o ódio entre as classes começar a pôr em risco a estabilidade social e o próprio regime de propriedade privada. Um dos esquemas que visam afastar essa ameaça é a própria educação pública, pensada de modo a proporcionar meios para o desenvolvimento individual e, quando necessário, para que o indivíduo consiga sair de uma situação familiar desesperadora. Mas, para reagir ao risco de que ocorram tensões entre os que têm algo e os que nada têm, o Estado também pode instituir vários programas de formação profissional e de combate à pobreza. O programa de Crédito Tributário por Renda Adquirida (Earned Income Tax Credit – EITC), que alcançou certo sucesso, é um bom exemplo1. Além disso, o governo pode dar apoio a um sistema de hipotecas por meio do código tributário ou dando respaldo jurídico ao poder dos bancos privados de desalojar os devedores inadimplentes. Um sistema hipotecário bem organizado, por sua vez, pode estimular a construção civil e permitir que um número maior de famílias de baixa renda adquira um imóvel e ingresse assim na classe média definida de modo amplo, que é politicamente confiável por definição.

Ou seja, não há conflito de fundo entre a prudência e a moral. Os direitos de bem-estar social podem ser não somente úteis, mas também equitativos. Em certa medida, só podem ser úteis porque são percebidos como basicamente equitativos. E como sabem todos aqueles que já foram chefes de um simples escritório, a justiça não é uma mera norma moral: é também uma poderosa ferramenta de gestão. Sem ela, a moral do grupo e a tendência a colaborar com o

grupo diminuirão ou desaparecerão. O mesmo vale em escala nacional, e isso é evidenciado de maneira poderosa pelos ganhos de eficiência na arrecadação de tributos quando estes são percebidos como mais ou menos equitativos2.

A parcialidade evidente dos direitos (supostamente imparciais) em favor dos que têm mais recursos suscita um problema de legitimidade política. Os autores marxistas, entre outros, chamam a nossa atenção para essa dificuldade recriminando os direitos básicos como se fossem coisa “meramente formal”, embustes aplicados sobre a população em geral, válidos somente para poucos. Segundo eles, tudo o que os pobres ganham com a democracia capitalista é “o direito de dormir sob um viaduto à noite”. Trata-se de um exagero absurdo, mas não deve ser desconsiderado por completo. Com efeito, se os direitos supostamente imparciais só existissem para beneficiar os ricos, a pretensão do governo norte- americano de representar a sociedade como um todo, e não ser somente um instrumento de interesses especiais, não seria somente manchada; ela cairia por terra.

O contrato social norte-americano só pode vigorar na medida em que todos os grupos econômicos, raciais e religiosos influentes acreditarem que estão sendo tratados com respeito e com certa equidade, ou, pelo menos, que estão recebendo um retorno palpável em troca de sua cooperação, colaboração e renúncia à violência. Assim sendo, se um único grupo poderoso usurpasse o governo e o usasse exclusivamente para defender seus próprios interesses, os outros cidadãos de um país multidenominacional concluiriam, com razão, que o contrato social foi rompido. E quando discrepâncias escandalosas entre o luxo e a miséria destroem a noção de que todos os cidadãos estão de algum modo no mesmo barco – como se corre o risco de ver acontecer nos Estados Unidos de hoje –, o governo perderá a capacidade de contar com a cooperação social necessária para sua ação política.

O interesse do Estado na estabilidade política às vezes o leva a infringir direitos que, no mais, são protegidos pela Constituição. É o que acontece quando o FBI grampeia telefones para reagir a uma ameaça terrorista, por exemplo. Mas a expressão principal do