2. HA-JOON CHANG E OS DEGRAUS DO DESENVOLVIMENTO
2.4 O DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL
2.4.2 DIREITOS DE PROPRIEDADE E SOCIEDADES ANÔNIMAS
Até que ponto os direitos de propriedade são benéficos? Para quem eles são benéficos? A melhor resposta é que eles beneficiam o dono da propriedade, e mais ninguém. Afinal, é o direito de propriedade que tem trazido tantos problemas para a sociedade, pois ele é um direito excludente, que ao favorecer uma pessoa, ignora o resto da sociedade.
Um exemplo bastante contemporâneo, de quanto excludente e amargo é o direito de propriedade, é o direito de propriedade intelectual. É por causa de ele que, em países como o Brasil, durante muitos anos, pouco se desenvolveu em termos de software. Fomos inundados pelos sistemas operacionais e produtos norte-americanos – como o Windows, por exemplo – de forma que não desenvolvemos a nossa própria indústria. Além disso, por força contratual, comercializamos e adquirimos computadores usando os programas estrangeiros. Respeitamos os direitos alheios de propriedade intelectual e, em contrapartida, nos desrespeitam fortemente, explorando um país em que a maioria das pessoas nem sequer tem acesso à informação e à informática e ainda tem que pagar direitos de utilização dos programas para outras nações:
O discurso da “boa governança” considera decisiva a “qualidade” dos regimes de direito de propriedade, já que se acredita que ela é um determinante-chave do incentivo ao investimento e, portanto, à criação de riqueza78.
Após tal franca explicação de Chang, cabe a pergunta: criação de riqueza para quem? Quem são, então, os beneficiados? E o próprio autor, alguns parágrafos depois, responde esta questão:
78
No discurso ortodoxo atual, acredita-se amplamente que quanto mais forte for a proteção aos direitos de propriedade, tanto melhor para o desenvolvimento econômico, já que essa proteção estimula a criação de riqueza. (...) A segurança dos direitos de propriedade não pode ser encaradas como algo bom em si. A história é pródiga em exemplos de preservação desses direitos que resultou nociva para o desenvolvimento econômico, assim como de violações dos direitos de propriedade existentes (com a criação de outros novos) que foram benéficas para o desenvolvimento econômico79.
Segundo Chang é preciso contemplar a perspectiva da função social da propriedade. Se há grupos capazes de utilizar certas propriedades melhor que seus proprietários, é possível que convenha mais à sociedade não proteger o direito de propriedade vigente e criar outro, transferindo então o patrimônio aquele grupo. Um exemplo clássico onde este tipo de filosofia deve nortear as decisões é quando o assunto envolve as questões de concentração de terra e a reforma agrária.
No que tange a lei de patentes, quando tratava-se de interesses internos, a mesma era imensamente burlada. O patenteamento de invenções de países estrangeiros foi permitido até o fim do século XIX. Diversos são os exemplos dos legítimos “roubos” de invenções que as legislações acobertavam. Porém, cabe ressaltar que tudo era feito, como já foi discutido, sob o ideal do catch up, na tentativa de desenvolver, de progredir, de copiar o outro para seguir em frente, melhorar e não depender mais de outras nações. A Suíça e Holanda, por exemplo, se recusavam a introduzir uma lei de patentes apesar da pressão internacional. Só em 1907 e 1912, respectivamente, que conseqüentemente tais leis foram promulgadas nestes países. Contudo, elas permitiam livremente a apropriação de tecnologia estrangeira80. Como bem coloca Chang:
(...) apesar da emergência de um regime internacional de DPI, mesmo os PADs mais desenvolvidos seguiam violando rotineiramente o DPI dos cidadãos dos outros em plenos século XX. (...) como eram falhos os regimes de DPI dos PADs (quando estes eram países em desenvolvimento). Mesmo nos mais avançados deles, houve sérias e generalizadas violações até o
79CHANG, Ha-Joon. op. cit., p. 144. 80
fim do século XIX e depois, principalmente quando se tratava de proteger o DPI de estrangeiros81.
No que diz respeito a governança empresarial, sabe-se que nos últimos séculos, provou-se reiteradamente que a responsabilidade limitada fornece um dos mecanismos mais poderosos de socialização de riscos. Aliais, é exatamente esta característica das sociedades de responsabilidade limitada que as fizeram prosperar tanto, afinal, possibilitou investimentos de escala sem precedentes.
Adam Smith dizia que a responsabilidade limitada só poderia levar os administradores à vadiagem. John McCulloch, o influente economista do começo do século XIX, alegava que ela tornaria os proprietários negligentes no monitoramento dos administradores contratados. Também acreditava, não sem razão, que era uma causa importante da especulação financeira. Foi com base nisso que a Inglaterra, mediante o Bubble Act de 1720, proibiu a formação de novas sociedades de responsabilidade limitada, se bem que voltou a autorizá-la em 1825, com a revogação dessa lei82.
Chang também dedica parte de seu livro para falar das leis de falência, sobre auditoria, relatório financeiro, transparência de informação – denominado disclosure83 – e também sobre a lei da concorrência. De acordo com ele, é apenas a partir da década de 80 que as leis de falência têm chamado mais atenção. Afinal, viu-se neste período a bancarrota de grandes conglomerados, juntamente com grandes crises econômicas. Dessa forma, notou-se a necessidade de mecanismos eficazes para reconciliar reivindicações concorrentes, transferências de ativos e a preservação do emprego.
Até por se tratar de uma questão recente, ainda não se sabe ao certo qual seria a melhor lei de falência. Como Chang exemplifica, a dos Estados Unidos favorece o devedor, a da Inglaterra beneficia a credor e a da França
81CHANG, Ha-Joon. op. cit., p. 149. 82
CHANG, Ha-Joon. op. cit., p. 149 e 150. 83
Pode-se definir disclosure, em Finanças, como sendo qualquer divulgação deliberada de informação da empresa para o mercado, seja quantitativa ou qualitativa, requerida ou voluntária, via canais formais ou informais. O disclosure tem, dentre outros objetivos, a finalidade de maximizar o valor para os acionistas, ao colocar ao alcance do investidor todos os fatores necessários à avaliação racional do valor das ações, levando-se em conta o custo de oportunidade e o prêmio pelo risco.
favorece o empregado. No entanto, independente da corrente, não se pode discordar que uma lei de falência eficaz é desejável.
Ninguém nega também a importância da auditoria e da disclosure financeiras. Porém, é preciso comparar o custo financeiro e em recursos humanos no desenvolvimento dessas instituições com seu benefício, principalmente nas nações em que os recursos são escassos. É muito fácil para os investidores estrangeiros se queixarem da opacidade da contabilidade das empresas, da frouxa regulamentação da auditoria e da disclosure. No entanto, todas essas queixas devem ser interpretadas com restrição:
Uma restrição óbvia a tais argumentos é que, mesmo antes da crise, aceitava-se amplamente que, nesses países, a informação no âmbito da empresa já apresentasse os ditos problemas; em semelhante situação, a atitude natural e sensata do emprestador seria a de não emprestar. Nesse contexto, o argumento de ‘falta de informação’ apresentado pelos emprestadores parece bastante tendencioso84.
É possível constatar, a partir de uma observação histórica criteriosa, que tais países, em pleno século XX, possuíam instituições de regulamentação da obrigatoriedade do relatório e da disclosure financeiros de péssima qualidade. Dessa forma, podemos concluir mais uma vez que tais instituições – que constam da “cartilha em prol do desenvolvimento” proposta pelos PADs – não estiveram, necessariamente, associadas ao desenvolvimento de tais nações.