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POPULAÇÃO ESTRANGEIRA RESIDENTE NO CONCELHO DE LISBOA,

2. Healthy immigrant effect (HIE)

2.1 Direitos dos imigrantes

A migração de pessoas entre países é um fenómeno que existe desde sempre, no entanto, não existe um documento internacional suficientemente amplo e abrangente que discipline o comportamento dos países face a todas as variáveis presentes na migração. Para efeitos documentais, a migração internacional pode ter duas caracterizações: involuntária é caracterizada pela fuga a confrontos, perseguições e desastres ambientais independentemente da sua origem ou voluntária quando se destina à procura de melhores condições de vida e económicas. A primeira situação é protegida por instituições como o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e, de forma geral, por três normais internacionais: o Direito Internacional dos Direitos Humanos, o Direito Internacional dos Refugiados e o Direito Internacional Humanitário; sendo que a segunda é protegida por resoluções da Assembleia Geral da ONU. Atualmente podem considerar-se dois documentos como marcos no direito internacional das migrações: Declaração dos Direitos Humanos (1948) e a Convenção da ONU para a Proteção dos Trabalhadores Migrantes e seus Familiares (1990). Esta última entrou em vigor a 1 de Julho de 2003, conforme o nº1 do artigo 87º, sendo que Portugal até Outubro de 2015 não tinha assinado ou ratificado esta convenção. Importante ressalvar que a imigração em Portugal tem seguido uma tendência positiva, tendo visto aumentar o número de residentes estrangeiros de 107.767 (1990) para 392.969 (2016), um aumento de 285.202 imigrantes, no espaço de 26 anos. Esta convenção assegura que sejam reconhecidos e aplicados os direitos aos trabalhadores migrantes, consagrando (parte VI) a “promoção de condições saudáveis, equitativas, dignas e justas em matéria de migração internacional de trabalhadores e das suas famílias”. Os artigos 25º, 28º, 43º, 45º, 70º ressalvam os direitos destes migrantes a condições de saúde e ao acesso a cuidados da mesma.54–56

Uma das seleções dos imigrantes que em alguns países corrobora o HIE é a seleção que existe na fronteira, ou seja, os critérios de permissão e de negação de entrada de imigrantes em território português.

Assim, segundo o artigo 32º da Lei n.º 23/2007, de 4 de julho que aprova o regime jurídico de entrada, permanência, saída e afastamento de estrangeiros do território nacional, a entrada de cidadãos estrangeiros pode ser recusada com base em situações

de saúde apenas se constituírem perigo ou grave ameaça para a saúde pública.57 No entanto, esta recusa por motivos de saúde pública, como medida de proteção do território nacional, apenas se pode basear em doenças infeciosas ou parasitárias contagiosas ou outras doenças definidas pela OMS. Pode também ser exigido aos nacionais de países terceiros um exame médico, com o objetivo de atestar que não sofre de nenhuma das doenças anteriormente mencionadas, bem como da efetivação das medidas médicas adequadas.

Segundo o artigo 83º do mesmo documento, os titulares de autorização de residência em Portugal gozam de semelhantes direitos e deveres em relação aos cidadãos naturais portugueses, nomeadamente no que diz respeito ao acesso à saúde, segundo a alínea e) desse artigo. Tendo em conta que o artigo 64ª da Constituição da República Portuguesa afirma que a promoção da saúde é feita através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito e materializando o artigo 15º do mesmo documento que equipara os direitos dos estrangeiros residentes em Portugal com o gozo dos direitos e o cumprimento dos deveres a que estão sujeitos dos cidadãos portugueses, conclui-se que os imigrantes que residam de forma legal em Portugal têm o mesmo direito universal e gratuito aos serviços de saúde de que gozam os cidadãos portugueses.58 Também a base XXV da Lei de Bases em Saúde (Lei nº 48/90, de 24 de Agosto) atesta que são beneficiários os cidadãos estrangeiros residentes em Portugal em condições de reciprocidade. Importa também ressalvar que de acordo com o artigo 13º da Constituição da República Portuguesa nenhum cidadão pode ser prejudicado ou privado de qualquer direito (nem isento de qualquer dever) por motivo de ascendência, raça, língua, território de origem, religião, convicções ideológicas, etc.59

Posto isto, podemos afirmar que Portugal se encaixa no mesmo tipo de estudo realizado em Espanha por Gimeno-Feliu et al.44, uma vez que ambos são países da EU e ambos têm sistemas de saúde semelhantes, pelo menos aquando da realização daquele estudo. Tal como esse artigo refere, são raros os trabalhos realizados neste âmbito em países da EU e que tenham serviços de saúde universais e gratuitos. Uma vez que o acesso restrito aos serviços de saúde por parte dos imigrantes é uma das hipóteses que ajudam a explicar o deteriorar da sua saúde com o aumento do período de estadia nos países de acolhimento e, sendo que essa restrição, em teoria, não acontece em Portugal, é importante saber quais os motivos que explicam esta degradação do estado de saúde dos imigrantes, nomeadamente, dos imigrantes do sudoeste asiático.

3. Metodologia

A investigação científica é um processo sistemático que permite examinar fenómenos com o objetivo de obter respostas a questões concretas. Existem duas características fundamentais que devem ser tidas em conta quando se inicia o processo de investigação: sistematização e rigor. Permite descrever, explicar e predizer factos ou acontecimentos, estando ligada à teoria uma vez que tem a capacidade de a produzir ou verificar. Assim, escolheu-se a abordagem de investigação que melhor se adaptasse às questões colocadas.

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