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Direitos Fundamentais e o Trabalho da Mulher

No documento Mulher no futebol: que medidas protetivas? (páginas 48-70)

capítulo 2: AspectoS SOCIAIS

3.1 Direitos Fundamentais e o Trabalho da Mulher

O sistema que se arrastou através de séculos colocava a mulher em posição inferior ao homem. Inserida numa sociedade patriarcal foi vítima de preconceitos e humilhações quanto ao seu desempenho profissional sob diversos argumentos.

Com a primeira revolução Industrial, a exploração do trabalho feminino, mão-de-obra abundante e barata, se tornou intensa contribuindo para a degradação das condições de trabalho. Como ilustração do cenário da época, Souza e Carneiro95 afirmam que:

93 REALE, M. Teoria Tridimensional do Direito. 5ª. ed. São Paulo: Saraiva, 1994.

94 _____, Filosofia do Direito. 19ª ed., Editora Saraiva. São Paulo, 2000.

A completar o quadro, era usual a utilização das chamadas “meias-forças”, ou seja, trabalho do menor, trabalho da mulher, cuja remuneração era ainda inferior à do trabalhador maior, do sexo masculino. A consequência foi o aviltamento das condições de trabalho.

Diante do contexto, tornou-se evidente a necessidade de proteção ao trabalho da mulher, sendo objeto de regulamentação de vários organismos internacionais96, que influenciaram a legislação pátria. Culminou-se em diversos dispositivos presentes na Consolidação das Leis do Trabalho, com um capítulo reservado ao trabalho da mulher, que visavam a diminuição do preconceito e discriminação através de normas que pudessem equilibrar a relação desproporcional entre os trabalhos masculino e feminino.

Contudo, deve-se analisar que à época que foram elaboradas as normas que concediam à mulher uma série de garantias, que a estas não eram reconhecidas, o Brasil se encontrava diante de outra ordem constitucional.

Com relação à prática de esportes pelas mulheres, a atividade era proibida durante os governos de Getúlio Vargas e Ditadura Militar. Assim dizia o decreto 3.199 de 1941 a respeito da prática de esportes pelas mulheres:

Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos (CND) baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.97

Após essas restrições as mulheres iniciam reinvindicações que em meio a uma crescente corrida esportiva feminina mundial, ganha força e aos poucos avança para uma maior participação feminina no esporte.

No novo Código, as mulheres são vistas como cidadãs, sujeitas de direitos e deveres. Agora a mulher ao casar não apenas como descrevia o Artigo 240 do Código Civil de 1916, que “assume a condição de companheira, consorte e colaboradora do marido nos encargos de

96Convenções da OIT: nº. 3 e 103; nº. 4, 41, 89 e Protocolo 90; nº. 156; 45; 13 e 136; nº. 100 e 111.

família, cumprindo-lhe velar pela direção material e moral desta”98, mas passa a exercer direitos e deveres baseados na comunhão plena de vida e na igualdade entre os cônjuges99.

A Constituição de 1988 deu à mulher os mesmos direitos e deveres na família. Afora as mudanças legislativas, os tribunais também contribuíram para que as mulheres fossem equiparadas aos homens. Através de decisões emblemáticas alteraram várias práticas discriminatórias e serviram de inspiração para muitos artigos da nossa nova legislação civil.

Como já referido, a Constituição da República Federativa do Brasil é uma das mais avançadas do mundo no que diz respeito aos direitos civis e sociais nela estabeleceu-se a mais precisa e detalhada carta de direitos de nossa história que incluiu a identificação de direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, além de um conjunto preciso de garantias constitucionais. Esse fato significou enorme avanço conceitual e jurídico para a promoção dos direitos humanos.

O Capítulo I do Título II trata dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos que são objeto dos incisos I ao LXXVIII e parágrafos. Estes são, em suma, os princípios fundamentais hoje genericamente denominados Direitos Humanos.

Os direitos individuais também são chamados de direitos das pessoas, direitos de mulheres e homens. Seus fundamentos estão no direito natural e em certas liberdades essenciais à personalidade e a dignidade da pessoa humana. Com os direitos fundamentais a Constituição proclama que a sociedade e o Estado existem para o bem estar da pessoa humana.

A partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, não se concebe mais a submissão feminina, baseada no princípio da igualdade, previsto no art. 5º, caput e inciso I da CF/88, bem como na disciplina dos art. 7º, inciso XX e XXX.

O artigo 5º da Carta Magna assim dispõe:

98 BRASIL.Lei nº 3.071, de 1º de Janeiro de 1916. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L3071impressao.htm

99 COSTA, Maria Regina Ferreira da. RIBEIRO, Gabriela Chicuta. As mulheres e o futebol: relação diferenciada? In: Fazendo gênero – Corpo, Violência e Poder, Florianópolis, 2008.

Art 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;

O inciso em destaque reforça o princípio da isonomia, no qual todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza, mas dessa vez com enfoque na igualdade entre os sexos. No entanto, é necessário apontar que tal princípio possui duas vertentes: a igualdade formal e a igualdade material.

A igualdade formal é a "igualdade perante a lei, sem distinção de qualquer natureza", ou seja, a lei garante a igualdade para todas as camadas, não podendo discriminar. É uma norma de proibição. O legislador constituinte fez ainda questão de destacar: "homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações".

Contudo o impeditivo legal, em si, é insuficiente para alcançar os objetivos, esculpido no art. 3º da Carta Magna sendo necessário que o constituinte originário resgatasse o contexto da definição de igualdade material.

A igualdade material tem como finalidade a equiparação dos cidadãos em todos os contextos sociais e jurídicos, ou seja, o de tratamento igualitário e uniformizado a todas as pessoas, a sua equiparação em possibilidades e oportunidades através de mecanismos concretos.

No Brasil, se verificarmos a realidade dos fatos, concluiremos a exacerbada concretude da desigualdade material. Para isso, basta analisar a ausência de normas que regulamentem a profissão da atleta de futebol.

Desta forma, não só os iguais se identificam igualmente, os desiguais se tornam efetivamente iguais na medida de suas desigualdades, princípio que assegura aos menos favorecidos, equidade nas diferenças sociais. Como exemplo da igualdade material no ordenamento tem-se a proibição da diferenciação de salários por motivos de sexo, idade, cor ou estado civil presente no Art. 7º inciso XXX da Constituição Federal.

Neste sentido, Canotilho100 preleciona que:

[...] a obtenção da igualdade substancial, pressupõe um amplo reordenamento das oportunidades: impõe políticas profundas; induz, mais, que o Estado não seja um simples garantidor da ordem assente nos direitos individuais e no título da propriedade, mas um ente de bens coletivos e fornecedor de prestações.

Considerando isto, deve-se buscar uma igualdade material através de mecanismos normativos para que se possa falar na conquista aos direitos fundamentais de participação da mulher nos esportes, sobretudo no futebol.

Conforme Goellner, “o temor que a mulher rompa algumas barreiras que delimitam as diferenças culturalmente construídas para cada sexo torna imperiosa a sua feminização, caso contrário, diz o discurso dominante, ela estará se masculinizando”101.

Partindo-se do pressuposto protecional da Constituição Federal, tanto a lei 9.615 de 1998 que trata das normas gerais de desporto, quanto a lei 9.601 de 1998, sobre contrato de trabalho por prazo determinado e todas as leis que porventura tratem de esportes, estão vinculadas aos princípios da Carta Magna na proteção da igualdade de gênero e direitos, para homens e mulheres.

Nesse ínterim, a proteção dos direitos da mulher no futebol, passa pelo mesmo crivo que a proteção que cabe ao homem, seja pela lei ou pelas normas e resoluções que forem baixadas pelas federações e confederações. Existindo proteção jurídica legal para o homem no esporte, haverá também para a mulher na mesma proporção, pois não se pode praticar a discriminação de gênero com base na superioridade dos mandamentos constitucionais.

Dessa maneira, pode-se afirmar que a Carta Magna é uma das legislações mais avançadas no tocante a defesa de direitos fundamentais e humanos e incluindo aí a não discriminação de gênero e raça, presentes no artigo 5º.

100 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional. 6. ed. Coimbra: Almedina, 1995, p.306

101 GOELLNER, Silvana Vilodre. Feminismos, mulheres, e esportes: questões epistemológicas sobre o fazer historiográfico. Revista Movimento, v.13, n.2, 2007. p. 180.

3.2 Breve Histórico da Legislação Desportiva Brasileira

Manuel Tubino102 em seu livro, “500 anos de legislação esportiva Brasileira: do Brasil colônia ao início do século XXI”, trouxe um dos mais completos estudos acerca da história da legislação do Esporte no Brasil. Em sua obra divide a legislação em 3 fases: A primeira fase, do Brasil-colônia até o Estado-Novo; a segunda fase que vai do Estado-Novo, em 1941, até 1985; e a terceira fase, de 1985 até a atualidade.

Na primeira fase a única norma existente dispunha da prática desportiva em escolas militares, fora isso, não havia qualquer regulamentação formal da prática esportiva. Nesse período também não se falava em qualquer controle do Poder Público nas atividades. Era nomeado então de “Período Esportivo de Prática Livre”.103

No segundo momento há uma grande disseminação das práticas esportivas na sociedade impulsionadas pelas escolas militares. Houve também a propagação de novas modalidades, como o futebol. O crescimento das práticas e a desordem desportiva fez com que o governo reestruturasse a organização do Desporto. Para essa fase, Tubino104 a classificou como “Período da tutela Estatal sobre o Esporte” que compreendia desde o Decreto-lei nº 3.191 de 1941 até 1985, quando vigia a lei nº 6.251 de 1975 e seu decreto regulamentador 80.228 de 1977.

102 TUBINO, M. J. G. 500 anos de legislação esportiva brasileira: do Brasil colônia ao início do século XXI. Rio de Janeiro: Shape, 2002.

103 TUBINO, p. 19-21.

Em 1939, através do Decreto-Lei nº 1.056, foi criada a Comissão Nacional de Desportos com o objetivo de realizar estudos sobre o desporto no Brasil e de apresentar uma proposta para seu desenvolvimento no país.

Na data de 14 de Abril de 1941, quatro dias após a promulgação do Decreto-lei nº 3.191, a Comissão Nacional de Desportos publica o Decreto-lei nº 3.199 que, como visto anteriormente, proibia as mulheres de praticarem desportos incompatíveis com a natureza feminina, dentre os quais, o futebol.

Ainda na segunda fase, apesar de ter sido editada a Lei 6.251, em 1975, que instituía normas gerais sobre desportos, e de seu Decreto Regulamentador, nº 80.228/1977, as principais decisões ainda eram tomadas através de portarias do CND sobre, por exemplo, futebol feminino de salão, natação, paraquedismo, estágio do atleta amador, a prática do desporto por mulheres e futebol.105

No intuito de ampliar os direitos das mulheres no campo esportivo, o próprio CND reforça essa nova configuração e, em 6 de março de 1986 publica a recomendação nº 02, na qual reconhece a necessidade de estímulo à participação da mulher nas diversas modalidades desportivas no país.

Na mesma época e no espaço de tempo da Constituição Federal de 1967, houve a edição do Código Brasileiro de Justiça Desportiva e a revogação do Decreto Lei 3.199 de 1941 que regulamentaria a atividade do atleta de futebol profissional por meio da lei 6.354 de 1976.106

Em relação ao contexto da legislação internacional se faz necessário mencionar que em 1951 a FIFA também se posicionou contrária à prática do futebol por mulheres, recusando-se a cuidar da modalidade, afirmando que se tratava de questão de Biologia e de educação, devendo então ser tratada por médicos e professores.

105 TUBINO, M. J. G. 500 anos de legislação esportiva brasileira: do Brasil colônia ao início do século XXI. Rio de Janeiro: Shape, 2002.

Foi somente em 1970 que as federações da Alemanha Ocidental, Inglaterra e França suspenderam o veto à prática do Futebol pelas mulheres. A FIFA então, só revê sua postura apenas na década de 1990: Torneio Internacional Feminino em 1988 e Copa do Mundo em 1991, ambos na China.107

No Brasil foi em 1983 que as mulheres conseguem a legalização da prática do futebol pela deliberação nº 01/83 do Conselho Nacional de Desportos, que reconhece o crescente interesse das mulheres pela modalidade, não apenas no Brasil como em todo o mundo.

Resolve que o futebol feminino poderá ser praticado nos Estados, nos Municípios, no Distrito Federal e nos Territórios, sob a direção das Federações e Ligas do desporto comunitário, cabendo à Confederação Brasileira de Futebol a direção no âmbito nacional.

A terceira e atual fase é o chamado, por Tubino108, de “Período de Modernização do Esporte”. A partir da nova ordem Constitucional houve o desvencilhamento do Estado no Esporte garantindo-se a autonomia às entidades de prática desportiva.

A Lei Maior de 1988, cumpriu sua função ao constitucionalizar o direito desportivo. Acompanhou as mudanças culturais e sociológicas do País e integrou-se para se adequar aos aclamados anseios individuais e coletivos.

Álvaro de Melo Filho, em sua obra “Desporto na Nova Constituição”, defende a nova contemporização do desporto:

Além das idéias e idéias subjacentes às normas desportivo-constitucionais, seu conhecimento é essencial e vital, conquanto caberá às entidades, órgãos e pessoas que integram a comunidade desportiva brasileira zelar pela eficácia jurídica e social de tais noras e fazer valer o direito nelas protegidos e assegurados. 109

107 Ibidem.

108 Tubino, p. 227.

Merece destaque aqui o artigo 217 da Lex Magna que elenca os princípios basilares do desporto no Brasil constitucionalmente de autoria do supracitado autor, Álvaro de Melo Filho:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,

garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

XXVIII - são assegurados, nos termos da lei:

a) a proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução da imagem e voz humanas, inclusive nas atividades desportivas;

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 90, de 2015)

Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre:

IX - educação, cultura, ensino e desporto;

TÍTULO VIII – Da Ordem Social; CAPÍTULO III – DA EDUCAÇÃO, DA CULTURA E DO DESPORTO; Seção III – DO DESPORTO

Art. 217. É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais, como direito de cada um, observados:

I - a autonomia das entidades desportivas dirigentes e associações, quanto a sua organização e funcionamento;

II - a destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do desporto educacional e, em casos específicos, para a do desporto de alto rendimento; III - o tratamento diferenciado para o desporto profissional e o não- profissional; IV - a proteção e o incentivo às manifestações desportivas de criação nacional. § 1º O Poder Judiciário só admitirá ações relativas à disciplina e às competições desportivas após esgotarem-se as instâncias da justiça desportiva, regulada em lei.

§ 2º A justiça desportiva terá o prazo máximo de sessenta dias, contados da

instauração do processo, para proferir decisão final.

§ 3º O Poder Público incentivará o lazer, como forma de promoção social.

A primeira Lei Geral sobre o desporto pós Constituição Federal de 1988 foi a lei 8.672 instituída em 1993 normatizando o esporte em bases liberais, devolvendo a autonomia às entidades desportivas e também estabeleceu sistemas desportivos autônomos.

Apesar dos avanços conquistados pela referida norma havia uma demanda a qual ainda não havia sido solucionada, a extinção do Passe, regulado pela Lei nº 6.354 em 1976, que dispunha sobre as relações de trabalho do atleta profissional de futebol.

A lei nº 6.354/76 trazia os conceitos de empregador e empregado e as condições e requisitos para o contrato de trabalho profissional de trabalho, in verbis:

Art. 1º Considera-se empregador a associação desportiva que, mediante qualquer modalidade de remuneração, se utilize dos serviços de atletas profissionais de futebol, na forma definida nesta.

Art. 2º Considera-se empregado, para os efeitos desta Lei, o atleta que praticar o futebol, sob a subordinação de empregador, como tal definido no artigo 1º mediante remuneração e contrato, na forma do artigo seguinte.

Art. 3º O contrato de trabalho do atleta, celebrado por escrito, deverá conter: I - os nomes das partes contratantes devidamente individualizadas e caracterizadas; II - (Revogado pela Lei nº 9.615, de 24.03.1998)

III - o modo e a forma da remuneração, especificados o salário os prêmios, as gratificações e, quando houver, as bonificações, bem como o valor das luvas, se previamente convencionadas;

IV - a menção de conhecerem os contratantes os códigos os regulamentos e os estatutos técnicos, o estatuto e as normas disciplinares da entidade a que estiverem vinculados e filiados;

V - (Revogado pela Lei nº 9.615, de 24.03.1998)

VI - o número da Carteira de Trabalho e Previdência Social de Atleta Profissional de Futebol.

§ 1º (Revogado pela Lei nº 9.615, de 24.03.1998)

§ 2º Os contratos de trabalho serão numerados pelas associações empregadoras, em ordem sucessiva e cronológica, datados e assinados, de próprio punho, pelo atleta ou pelo responsável legal, sob pena de nulidade.

§ 3º (Revogado pela Lei nº 9.615, de 24.03.1998)

Da análise da norma colacionada infere-se que o atleta que praticasse a atividade esportiva preenchendo os requisitos essenciais da CLT era reconhecido como empregado. Logo, a ausência de contrato formal escrito não constituía óbice à qualificação de empregado ao atleta e, por conseguinte, de atleta profissional.

Foi somente após a publicação da Lei nº 12.395 em 17 de março de 2011 que passou- se a exigir o contrato escrito formal para que a relação de profissionalismo se configurasse.

Em 1998 promulgou-se a lei nº 9.615, que vigora até os dias atuais, revogando por completo a lei de 1993. No entanto, somente em 2001 com a Medida Provisória nº 2.141/2001

foi extinto o instituto do Passe. A partir de então, o vínculo desportivo do atleta passou a ser acessório ao contrato de trabalho deste com a entidade de prática desportiva.

Importante colacionar a referida Medida Provisória com sua alteração:

Art. 1º: A Lei no 9.615, de 24 de março de 1998, passa a vigorar com as seguintes alterações:

Art. 28. ...

§ 2º O vínculo desportivo do atleta com a entidade contratante tem natureza acessória ao respectivo vínculo empregatício, dissolvendo-se, para todos os efeitos legais, com o término da vigência do contrato de trabalho, salvo na hipótese prevista no § 3o, inciso II, do art. 29 desta Lei.110

No tocante a relação trabalhista de atletas com as entidades de prática desportivas, como visto anteriormente, será regulamentada pela lei 9.615, de forma específica, e, no que couber, pela Consolidação das Leis do Trabalho. A lei aborda as características do contrato desportivo além de outros pontos que estão dispostos na norma ademais da prática desportiva profissional são: Princípios fundamentais do Desporto, bem como sua natureza e finalidade, os sistemas brasileiro e nacional do desporto, a ordem desportiva, a justiça desportiva, entre outros.111

Mesmo que de forma incipiente, foi por meio da lei nº 9.615 de 1998, que houve a primeira menção legal a respeito da paridade entre homens e mulheres no esporte, como pode ser observado no artigo 55-A, § 2º:

Art. 55-A. Fica criada a Justiça Desportiva Antidopagem - JAD, composta por um Tribunal e por uma Procuradoria, dotados de autonomia e independência, e com competência para:

I - julgar violações a regras antidopagem e aplicar as infrações a elas conexas; e II - homologar decisões proferidas por organismos internacionais, decorrentes ou relacionadas a violações às regras antidopagem.

110 PLANALTO. Disponivel em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/mpv/antigas_2001/2141.htm>.

111 PASSOS, M. F. Direito Desportivo Internacional: A influência das normas e das decisões

jusdesportivas internacionais no ordenamento jurídico Brasileiro. Universidade do Estado do Rio de

§ 1o A JAD funcionará junto ao CNE e será composta de forma paritária por

representantes de entidades de administração do desporto, de entidades sindicais dos atletas e do Poder Executivo.

§ 2o A escolha dos membros da JAD buscará assegurar a paridade entre homens e

mulheres na sua composição. (BRASIL, 1998)112

Partindo-se do pressuposto que o princípio da igualdade está formal e materialmente disposto como Direito Fundamental na Carta Magna, conclui-se que esta isonomia deve ser obedecida por todos os dispositivos infraconstitucionais. Destarte, não há que se falar em distinção de aplicação das leis para homens e mulheres sendo assim aplicável para estas as mesmas normas inerentes ao futebol masculino.

3.3 A Lei nº 13.155 e o Investimento no Futebol Feminino

A lei sancionada em 5 de agosto de 2015 de nº 13.155, é o conhecido Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro, ou, como é popularmente chamado, PROFUT. Atualmente, a dívida dos clubes brasileiros chega a quase 4 bilhões113 e, diante disso, esse programa tem como seu objetivo principal amparar as

entidades de prática desportiva a sanar suas dívidas com a União através de refinanciamento

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