2. O Estado assegura especial protecção às crianças órfãs, abandonadas ou por qualquer
3.6. Direitos Humanos e Desenvolvimento: o exemplo da educação que gera empowerment
Em boa razão pode afirmar-se que as crianças em perigo estão numa posição em que alguns dos seus direitos lhes são negados, provocando, directa e indirectamente, um obstáculo ao Desenvolvimento. Se o bem-estar das pessoas (e aqui se incluem muitas áreas da vida como a educação, a saúde, a segurança, o nível de vida) for esquecido nos processos de Desenvolvimento para dar-se a primazia à questão económica, de modo algum serão atingidos os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.
A educação é um direito humano universal, porém sabemos que em todo o mundo milhares de crianças (e adultos) não têm acesso a uma educação gratuita e de qualidade. Os países que investem na educação primária de alta qualidade para todos – especialmente para as raparigas
– têm extraordinários ganhos para o Desenvolvimento. A educação das raparigas é provavelmente o maior e mais eficaz investimento no desenvolvimento que um país pode fazer. Actualmente 113 milhões de crianças em idade de frequentar a escola primária nunca foram à escola e cerca de 150 milhões de crianças abandonaram a escola depois de poucos anos, ainda sem saberem ler, escrever ou trabalhar com números.
Sem dúvida que este é um direito que todas as crianças têm e que a própria lei portuguesa de protecção de crianças em perigo refere, mostrando que a sua negação constitui um perigo para a criança se esta “assume comportamentos ou se entrega a actividades ou consumos que afectem gravemente a sua saúde, segurança, formação, educação ou desenvolvimento sem que os pais, o representante legal ou quem tenha a guarda de facto se lhes oponham de modo adequado a remover essa situação” (Lei 147/99 de 1 de Setembro). Muitas das crianças em situação de perigo têm um maior absentismo escolar, menor aproveitamento e muitas vezes um abandono escolar precoce.
Um dos Objectivos do Desenvolvimento do Milénio é o de fazer chegar de forma igualitária a educação a rapazes e raparigas, sendo esta considerada o alicerce para tirar as populações da pobreza profunda. Aqui devemos centrar-nos na questão essencial da educação das raparigas. Nos nossos dias ainda existe uma forte discriminação no acesso à educação com referência ao género. Muitas são as raparigas que não frequentam a escola por terem de trabalhar em casa, ficando com irmãos mais novos (como acontece em Portugal), por serem obrigadas a entrar nas redes de prostituição infantil como acontece nalguns países asiáticos, ou até por serem obrigadas a casamentos precoces. Contudo, os países têm consciência que investir na educação é uma estratégia fundamental que protegerá os direitos de todas as crianças para uma educação de qualidade e uma estratégia que ajudará a alcançar todos os outros objectivos de Desenvolvimento.
Frequentar a escola transforma qualquer criança e no que se refere às raparigas possibilita que com o aprender elas percebam o seu potencial, aumentem a sua autoconfiança, as suas capacidades sociais e de negociação, a sua habilidade de proteger-se da violência e de doenças. O preço de perder alguns anos de escolaridade é demasiado alto mas não será pago somente pelas próprias crianças, mas também pela sua família, pela sociedade e pelo país. Os efeitos negativos de não frequentar a escola são maiores para as raparigas do que para os rapazes, efeitos esses que passarão para a geração seguinte. Com ou sem educação as
raparigas são mais vulneráveis a doenças como o HIV/ SIDA, exploração sexual e tráfico de crianças. Sem o conhecimento e capacidades que se adquirem no contexto escolar, estes riscos multiplicam-se. Assim, podemos afirmar que a escola permite que as crianças e as suas famílias se protejam, e o absentismo escolar traz múltiplas exposições a esses riscos.
Consideramos pertinente perceber porque as raparigas são sistematicamente excluídas da escola, as mulheres excluídas dos processos políticos e os países vão, assim, deixando para trás avanços no desenvolvimento. Antes de mais porque a educação das raparigas raramente é discutida nos círculos políticos como um modo de assegurar o progresso social. Como resultado disto, o investimento na educação das raparigas é muitas vezes posto em segundo plano.
Por seu lado, muitas famílias não podem pagar as despesas de ter uma criança a estudar, mesmo quando a educação é formalmente gratuita, subsistem os custos directos sob a forma de despesas com livros, alimentação e transportes. Estes custos podem atingir até 20% do rendimento de uma família, tornando demasiado cara a educação para muitos (vendo-se na necessidade de obrigar as crianças a trabalharem por constituir mais uma fonte de rendimento para a família ao mesmo tempo que não têm as despesas com os custos indirectos).
Em terceiro lugar, historicamente o desenvolvimento tem olhado mais para as questões económicas do que para as questões sociais e da educação, e em particular a das raparigas. Os paradigmas do desenvolvimento têm falhado em não considerar as relações desiguais entre homens e mulheres e não têm levado em conta o potencial das mulheres para contribuírem para o desenvolvimento do sector público e privado do desenvolvimento dos países, UNICEF (2004).
Por último, as perspectivas tradicionais têm falhado em não considerar as questões do género que afectam as crianças no acesso à escolaridade, relacionadas com as diferentes necessidades de rapazes e raparigas, e dos seus papéis, responsabilidades e identidades.
Como referimos anteriormente a educação faz com que as crianças percebam o seu valor, e nomeadamente para as raparigas, a educação levará a que posteriormente elas possam actuar noutros âmbitos: desde a saúde das mulheres e os cuidados pré-natais e a ter com os bebés,
passando pela nutrição, saneamento e empowerment da comunidade, até à redução do trabalho infantil e outras formas de exploração, até a resolução pacífica de conflitos.
Se as raparigas que receberam educação se tornarem mães, provavelmente também colocarão os seus filhos na escola, fazendo assim multiplicar os benefícios quer para eles quer para a sociedade, gerando um efeito positivo e intergeracional. Além disto, quando a sociedade assegura que as mães recebam educação (se não tiveram essa oportunidade enquanto crianças), as crianças serão melhor cuidadas, mais saudáveis e menos morrerão.
Perante estes factos, concluímos que a educação é geradora de empowerment, quer para rapazes quer para raparigas, embora tenhamos focado a situação das raparigas por ser considerada uma forte barreira ao desenvolvimento dos países. A educação permite, assim que as mulheres tenham um maior controlo da sua vida e dá-lhes capacidades para poderem contribuir para a sociedade em que se inserem. Capacita-as a tomarem decisões por si próprias e a influenciarem as suas famílias. É este “poder” que produz todos os outros benefícios sociais que geram o desenvolvimento. A participação das mulheres e a sua influência no governo, família e comunidade, na economia e provisão de bens é fundamental. Isto levará a um desenvolvimento mais igualitário, famílias mais fortes, melhores serviços e melhor saúde infantil.