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1 O TRABALHO HUMANO ATRAVÉS DA HISTÓRIA E O SURGIMENTO DO

1.6 Direitos humanos dos trabalhadores e o trabalho digno

Tratados os princípios basilares do Direito do Trabalho, logo, somos remetidos ao Direito Internacional do Trabalho, em razão de que não se pode falar de proteção do trabalhador, garantias, sem mencionar a Organização Internacional do Trabalho – OIT e os Direitos Humanos dos trabalhadores.

A partir da Conferência da Paz, assinada em julho de 1919 em Versalhes, depois da primeira Guerra Mundial, foi criada a OIT, com a finalidade de promover justiça social e o respeito aos direitos humanos no meio trabalhista.

A OIT é composta de três órgãos: a Conferência ou Assembleia-Geral, o Conselho de Administração e a Repartição Internacional do Trabalho. O primeiro é o órgão deliberativo, que é constituído de representantes dos Estados-membros, os quais se reúnem em sessões uma vez ao ano. O segundo exerce a função executiva, administrando a OIT, composto de empregados, empregadores e pelo governo. O terceiro, é a secretaria da OIT, tendo como função a de documentar e divulgar suas atividades, publicando as convenções e recomendações adotadas. (MARTINS, 2014, p. 41 e 42).

Quanto às convenções da OIT, estas:

[...] são normas jurídicas provenientes da Conferência da OIT, que têm por objetivo determinar regras gerais obrigatórias para os Estados que as ratificarem, passando a fazer parte do seu ordenamento jurídico interno. São aprovadas as convenções da OIT pela Conferência Internacional por maioria de dois terços dos delegados presentes (art. 19.2, da Constituição da OIT) e, para terem validade, devem ser ratificadas pelos países signatários. Os Estados, porém, não são obrigados a ratifica-las, só o fazendo quando assim têm interesse. É obrigatória a convenção. Firma direitos e obrigações. Tem

natureza de tratado. É objeto de ratificação. É considerada fonte formal de Direito. Tem natureza de lei federal. (MARTINS, 2004, p. 104).

A Constituição Federal em seu artigo 49, inciso I dispõe que é da competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional.

A recomendação por sua vez, refere-se a uma norma da OIT que não foi suficientemente aderida para que adquirisse o status de Convenção, servindo de sugestão ao Estado, vindo a orientar seu direito interno, dispensando a necessidade de ratificação pelo Estado-membro. É facultativa, sendo apenas uma indicação. Ao contrário da Convenção, não cria direitos e obrigações, não existe entrada em vigor, nem denúncia e revisão, é considerada apenas como fonte material de Direito. (MARTINS, 2004, p. 105).

Apesar de suas amplas distinções, a convenção e a recomendação, ambas necessitam da aprovação pela Conferência em duas sessões seguidas, a serem realizadas em dois anos consecutivos.

Com relação as declarações internacionais, estas indicam regras genéricas, com fim de embasar um sistema jurídico, não tendo caráter de regras imperativas, e sim, apenas para orientação de modo geral. Como um exemplo de declaração internacional, temos a Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas no ano de 1948, que prevê em seu texto alguns direitos e garantias trabalhistas. Reconhecida em âmbito internacional vindo a servir de base para os demais ordenamentos jurídicos, e garantindo assim o início do reconhecimento da dignidade do obreiro, expressa:

Art. XXIII. 1. Todo homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho, e à proteção contra o desemprego. 2. Todo homem, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho. 3. Todo homem que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como a sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social. 4. Todo homem tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para a proteção dos seus interesses; Art. XXIV. Todo homem tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável de horas de trabalho e a férias remuneradas

periódicas; Art. XXV. 1. Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice, ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. 2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social. (MARTINS, 2004, p. 106).

Os Direitos Humanos, também chamados de direitos sociais, são inerentes ao homem, pertencem ao indivíduo e assim, são direitos naturais, garantias, faculdades, positivados no ordenamento jurídico ou não, sem os quais a dignidade da pessoa humana, prevista e protegida em texto constitucional, se encontrará completamente ameaçada, prejudicando os direitos mínimos para a promoção da igualdade.

A principal justificativa para a existência dos Direitos Humanos é a proteção a dignidade da pessoa. Nas palavras de José Antônio Ribeiro de Oliveira Silva (2007, p. 114-115):

O objeto dos direitos humanos é possibilitar o pleno desenvolvimento da personalidade de cada um, ou, de outro modo, oferecer-lhe as condições materiais e morais para que possa alcançar o máximo desenvolvimento possível, de acordo com sua vontade. Fala-se, então, em bens humanos básicos, como a vida, a saúde, a segurança social, o trabalho, a alimentação, a habitação, o vestuário, a liberdade de consciência, a educação. (Grifo do autor).

No que tange a área do Direito do Trabalho, os Direitos Humanos vêm com o intuito de proteger o trabalhador das condições precárias no ambiente laboral, do tratamento análogo ao recebido por escravos, excesso de carga horária, salários irrisórios que não garantem nem mesmo seu próprio sustento, em razão de que ferem os direitos mínimos dos trabalhadores, questão totalmente ligada a dignidade da pessoa humana.

Dentre as Convenções da OIT ratificadas pelo Brasil, temos a nº 29 do Trabalho Forçado ou Obrigatório de 1930; a nº 95 da Proteção do Salário de 1949; a nº 98 do Direito de Sindicalização e de Negociação Coletiva também de 1949; a nº 100 da Igualdade de Remuneração de Homens e Mulheres Trabalhadores por Trabalho de Igual Valor de 1951; a nº 102 das Normas Mínimas da Seguridade Social de 1952; e a nº 168 da Promoção do Emprego e Proteção Contra o Desemprego de 1988.

Além destas, pode-se destacar, como exemplo de proteção dos Direitos Humanos dos trabalhadores, a Convenção nº 155 da OIT, aprovada na 67ª reunião da Conferência Internacional do Trabalho (Genebra – 1981), entrando em vigor no plano internacional em 1983, foi aprovada no Brasil pelo Congresso Nacional através do Decreto Legislativo nº 2 de 17 de março de 1992, ratificada em 18 de maio de 1992, com sua vigência em âmbito nacional a partir de 18 de maio de 1993, dispõe sobre a segurança e saúde dos trabalhadores.

Em seu artigo 4º, como princípio de política nacional, preconiza:

Art. 4 — 1. Todo Membro deverá, em consulta com as organizações mais representativas de empregadores e de trabalhadores, e levando em conta as condições e as práticas nacionais, formular, pôr em prática e reexaminar periodicamente uma política nacional coerente em matéria de segurança e saúde dos trabalhadores e o meio-ambiente de trabalho.2. Essa política terá como objetivo prevenir os acidentes e os danos à saúde que forem conseqüência do trabalho tenham relação com a atividade de trabalho, ou se apresentarem durante o trabalho, reduzindo ao mínimo, na medida que for razoável e possível, as causas dos riscos inerentes ao meio-ambiente de trabalho. (Sic).

Há ainda a Convenção nº 81 da OIT, aprovada na 30ª reunião da Conferência Internacional do Trabalho (Genebra – 1947), que entrou em vigor a nível internacional no ano de 1950, aprovada pelo Congresso Nacional, foi ratificada em 25 de abril de 1957, relativa a inspeção do trabalho na indústria e no comércio, traz eu seu artigo 3º:

Art. 3 — 1. O sistema de inspeção de trabalho será encarregado: a) de assegurar a aplicação das disposições legais relativas às condições de trabalho e à proteção dos trabalhadores no exercício de sua profissão, tais como as disposições relativas à duração do trabalho, aos salários, à segurança, à higiene e ao bem-estar, ao emprego das crianças e dos adolescentes e a outras matérias conexas, na medida em que os inspetores são encarregados de assegurar a aplicação das ditas disposições; b) de fornecer informações e conselhos técnicos aos empregadores e trabalhadores sobre os meios mais eficazes de observar as disposições legais; c) de levar ao conhecimento da autoridade competente as deficiências ou os abusos que não estão especificamente compreendidos nas disposições legais existentes.

Assim, é possível perceber que com o passar dos anos e da evolução histórica do mundo e principalmente do Direito do Trabalho dentro da esfera laboral, enfrentada toda a sua transformação desde o seu surgimento até o patamar atual.

Os direitos e garantias dos trabalhadores tiveram grandes mudanças, e não mais se considera o empregado apenas como aquele que realiza as tarefas para as quais foi contratado, abandonando-se a visão “coisificada” sobre o trabalhador, que agora é visto como um ser que possui direitos, que deve ter sua dignidade preservada, protegida e acima de tudo garantida, seja no ordenamento jurídico pátrio, na OIT, ou na Declaração Universal de Direito Humanos.

A Constituição Federal em seu artigo 1º, inciso III, traz como um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito a dignidade da pessoa humana. Para tanto, um dos princípios constitucionais é o princípio da dignidade humana, o mais importante de todos os princípios do Direito.

Para que se tenha direito a dignidade, basta apenas ser humano, pois esta, não prescinde da moral, do comportamento, tanto que uma pessoa por mais violenta que seja, e independentemente dos seus atos serem os mais cruéis, ainda assim ela terá direito à dignidade. Todos os seres humanos têm direito de serem tratados dignamente. (GURGEL, 2007, p. 38).

Pensando assim, a dignidade nas relações de trabalho é buscada no momento em que se proporciona locais adequados para a realização das atividades laborais, com a estipulação de carga-horária semanal, a concessão de férias, plano de saúde, transporte, alimentação, entre outros direitos à disposição do trabalhador, que protegem a sua dignidade uma vez que leva em consideração que o obreiro é um humano, tem limitações físicas, psicológicas, não podendo viver nas condições precárias e abusivas de quando iniciou-se o Direito do Trabalho.

O trabalhador, hipossuficiente em relação ao empregador, precisa que seus direitos sejam protegidos, garantidos e preservados. Os princípios do Direito do Trabalho visam estabelecer a igualdade de armas entre empregado e empregador na relação jurídica, e o princípio da dignidade humana visa fornecer ao empregado condições dignas de vida, de sustento de sua família, educação, desenvolvimento pessoal e intelectual, amparando o subjetivo do trabalhador.

Como forma de reconhecimento da importância da dignidade nas relações de trabalho, em 1998, depois da Guerra Fria, foi adotada a Declaração da OIT sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho e seu Seguimento, a qual declara que:

2. Declara que todos os Membros, ainda que não tenham ratificado as convenções aludidas, têm um compromisso derivado do fato de pertencer à Organização de respeitar, promover e tornar realidade, de boa fé e de conformidade com a Constituição, os princípios relativos aos direitos fundamentais que são objeto dessas convenções, isto é: a) a liberdade sindical e o reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva; b) a eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou obrigatório; c) a abolição efetiva do trabalho infantil; e d) a eliminação da discriminação em matéria de emprego e ocupação.

O artigo 1º, em seu inciso IV, também confere como fundamento do Estado Democrático de Direito o valor social do trabalho e da livre iniciativa; o artigo 7º elenca os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais para além de outros que visem a melhoria de sua condição social, e o artigo 170, todos da Constituição Federal, traz como fundamento da ordem econômica a valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, com fim de assegurar a existência digna, de acordo com os preceitos da justiça social.

A Carta Magna de 1988, também conhecida como Constituição-Cidadã reconhece e dá grande valor ao cidadão possuidor de Direitos Humanos, trazendo a dignidade da pessoa humana como fundamento do Estado Democrático de Direito, expressa a valorização da ética social e a importância do ser humano, agregando seu fundamento com o artigo 3º em que traz como objetivos, da República Federativa do Brasil, a erradicação da pobreza, a redução de desigualdades sociais, a construção de uma sociedade solidária, além da promoção do bem de todos, sem qualquer tipo de preconceito. (GURGEL, 2007, p. 204).

O princípio da dignidade humana, tido como o princípio dos princípios do ordenamento jurídico brasileiro, além de ampliar a tutela econômica tem a finalidade de transformá-la em tutela também da moral do trabalhador, impondo-se como o meio de valorização da pessoa humana que é o trabalhador.

A Declaração da Filadélfia, aprovada na 26ª reunião da Conferência Internacional do Trabalho (Filadélfia – 1944), referente aos fins e objetivos da OIT,

anexo da Constituição da OIT, no que diz respeito à dignidade nas relações de trabalho, dispõe que:

A Conferência, convencida de ter a experiência plenamente demonstrado a verdade da declaração contida na Constituição da Organização Internacional do Trabalho, que a paz, para ser duradoura, deve assentar sobre a justiça social, afirma que: a) todos os seres humano de qualquer raça, crença ou sexo, têm o direito de assegurar o bem-estar material e o desenvolvimento espiritual dentro da liberdade e da dignidade, da tranqüilidade econômica e com as mesmas possibilidades;. (Sic).

A presente declaração também reafirma os princípios fundamentais basilares da OIT, mencionando entre eles que “o trabalho não é uma mercadoria”, sustentando ainda mais a ideia de que o labor, por mais que seja necessário e impulsionado por motivos econômicos, deve ser digno, de modo a permitir o desenvolvimento do ser em todos os seus sentidos.

O homem como um ser social, naturalmente pede pela convivência, o que se torna possível através do trabalho, onde tem de aprender a dividir tarefas com o grupo, desempenhar suas funções, chegando a um nível de reconhecimento, tanto pessoal quanto social.

Neste sentido, às palavras de Gabriela Neves Delgado (2015, p. 23):

Especificamente quanto à identidade social desenvolvida por meio do trabalho, importa destacar que ela possibilita ao homem se identificar intensamente como ser humano consciente e capaz de participar da dinâmica da vida em sociedade. Possibilita-lhe, também, desenvolver a consciência de que deve cuidar de si mesmo, ou seja, preservando-se e exigindo que a dinâmica tutelada pelo Direito seja cumprida para que esteja materialmente protegido.

Portanto, em um Estado Democrático de Direito, a tutela ao direito fundamental do trabalho digno através do ordenamento jurídico, nada mais é do que um mecanismo de proteção social, para que o trabalhador se sinta realmente inserido e acolhido no meio social como sujeito com plena capacidade de seu potencial tanto em sua esfera individual, quanto no espaço coletivo.

2. FLEXIBILIZAÇÃO, TERCEIRIZAÇÃO E PRECARIZAÇÃO E O PRINCÍPIO DA

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