2.4.1 Direitos humanos e o assédio moral no trabalho
Segundo Dalmo Dallari em seu livro “Direitos humanos e cidadania (2013)” ensina que, ao término da Segunda Guerra Mundial, os líderes dos países vencedores perceberam a necessidade de instituir uma associação de países que advertisse firmemente ao mundo que nenhum objetivo e nenhuma ambição, de qualquer pessoa, de um grupo social ou de um país, justificam o desrespeito aos seres humanos. Desse modo foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU).
O autor deixa claro que essa Organização foi criada com o intuito de que fosse sempre relembrado e respeitado o valor da pessoa humana. A ONU delegou a um grupo de grande autoridade moral, composto por: filósofos, juristas, cientistas políticos, historiadores, com representantes de várias nações, a elaboração de um documento que anunciava os direitos humanos.
Preocupados não somente com a afirmação dos direitos, como também com sua aplicação prática, os autores da Declaração não se limitaram a fazer a enumeração desses direitos. Indicaram, com pormenores, algumas exigências que devem ser atendidas para que a dignidade humana seja respeitada, para que as pessoas convivam em harmonia, para que umas pessoas não sejam exploradas e humilhadas por outras, para que nas relações entre as pessoas exista justiça, sem a qual não poderá haver paz (DALLARI, 2013, p. 103).
Desse modo, criou-se a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU em 10 de dezembro de 1948, sendo esta composta por 30
artigos onde estão explicitados os direitos inerentes à pessoa humana e suas exigências, por abranger a toda humanidade foi chamada de universal.
Gurgel (2010) acrescenta que pela primeira vez na história da Humanidade uma Declaração foi confirmada por várias Nações, que acataram o ordenamento disciplinador de valores e princípios universais, tendo como alicerce a valoração do homem como núcleo da vida em sociedade.
A autora chama atenção de que os Direitos Humanos universais são mínimos e essenciais à vida humana e não são contra a cultura das nações. Seu grande pilar é o respeito às diferenças. Porém, não se pode aceitar a humilhação, a agressão física e moral, a escravidão ou discriminação contra qualquer ser humano em prol das diferenças culturais e aos costumes locais.
A Doutrinadora Flávia Piovesan afirma que:
A ética dos direitos humanos é a ética que vê no outro um ser merecedor de igual consideração e profundo respeito, dotado do direito de desenvolver as potencialidades humanas, de forma livre, autônoma e plena. É a ética orientada pela afirmação da dignidade e pela prevenção ao sofrimento humano (PIOVESAN, 2007, p.2).
Vale ressaltar que a condição humana é a única exigência para ter direito à dignidade, independente de raça, cor, nacionalidade, religião, identidade de gênero, estado civil ou condição social.
Entretanto, Guedes (2008) relata que apesar de ratificadas e corroboradas as normas internacionais no âmbito nacional, que asseguram proteção e respeito à integridade física e à dignidade da pessoa do trabalhador, esses direitos fundamentais têm encontrado entraves no mundo do trabalho, e acrescenta:
No trabalho, o desprezo pelo outro constitui um pressuposto para o assédio moral. O terror psicológico é o projeto de destruição individualizada da pessoa no ambiente de trabalho, que guarda estreita proximidade com o genocídio enquanto projeto destinado a descartar seres humanos. Essa constatação nos remete ao problema da vinculação dos entes privados aos direitos fundamentais, e a negação dessa responsabilidade conduz à própria negação da pessoa humana como valor-fonte da experiência ético- jurídica em prol da sacralização da liberdade individual (GUEDES, 2008, p. 114).
Villela (2014) aponta que “o assédio moral no trabalho é uma conduta abusiva que atenta contra a dignidade da pessoa humana, em violação aos Direitos Humanos”.
2.4.2 Assédio moral e aspectos legais
No ordenamento jurídico brasileiro o assédio moral ainda não foi tipificado como crime, embora se tenha várias leis municipais e estaduais que protegem o servidor público em alguns Estados. Entretanto o trabalhador não está desamparado.
Inúmeros tratados e recomendações de organismos internacionais garantidores da dignidade humana, reprovam e previnem a prática do assédio moral no local de trabalho. Nessa perspectiva, em um contexto global de proteção aos Direitos Humanos, a tutela à saúde psicofísica e à honra do trabalhador foi reforçada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, a qual garante à toda pessoa o direito a condições equitativas e satisfatórias de trabalho que garantam a dignidade humana (CAMPOS, 2012).
As convenções, pactos e tratados internacionais que foram ratificadas pelo Brasil trazem embasamento legal em defesa do Ser humano, pois antes de ser trabalhador o indivíduo é “Ser Humano”, sendo esse o principal argumento para coibir a prática de assédio moral.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) assevera que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direito (art. I) e toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego (art. XXIII 1).
O Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais afirma: As medidas que cada Estado Parte do presente Pacto tomará a fim de assegurar o pleno exercício desse direito deverão incluir a orientação e a formação técnica e profissional, a elaboração de programas, normas e técnicas apropriadas para assegurar um desenvolvimento econômico, social e cultural constante e o pleno emprego produtivo em condições que salvaguardem aos indivíduos o gozo das liberdades políticas e econômicas fundamentais (art.VI,2).
A Convenção Americana de Direitos Humanos (1969) (Pacto de San José da Costa Rica), no (art. 5º. 1,2) certifica que: 1. Toda pessoa tem direito a que se respeite sua integridade física, psíquica e moral. 2. Ninguém deve ser submetido a torturas, nem a penas ou tratos cruéis, desumanos ou degradantes. Toda pessoa privada de liberdade deve ser tratada com o respeito devido à dignidade inerente ao ser humano.
Convenção nº 111 da OIT (Organização Internacional do Trabalho): toda distinção, exclusão ou preferência fundada na raça, cor, sexo, religião, opinião política, ascendência nacional ou origem social, que tenha por efeito destruir ou alterar a igualdade de oportunidade ou de tratamento em matéria de emprego ou profissão.
Convenção nº 155 da OIT (art. 3º) o termo ‘saúde’, com relação ao trabalho, abrange não só a ausência de afecções ou de doenças, mas também os elementos físicos e mentais que afetam a saúde e estão diretamente relacionados com a segurança e a higiene no trabalho.
Percebe-se que diante os tratados internacionais ratificados pelo Brasil, não falta fundamento legal para coibir a prática do assédio moral nas relações de trabalho.
Já a constituição Federal de 1988 traz a proteção ao assédio moral nos seguintes artigos:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho.
Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: II - prevalência dos direitos humanos;
Art. 5º Todos são iguais perante a lei. X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.
A Consolidação da Leis Trabalhistas (CLT) é a responsável pelo pelas normas legislativas referentes ao Direito do Trabalho e do Direito Processual do Trabalho no Brasil. No artigo 483 há previsão de interrupção do vínculo trabalhista com direito as verbas rescisórias caso o empregado se sinta vítima dos casos determinados pela lei, muitos deles são casos de assédio (BRASIL, 2007).
Nascimento (2015) acrescenta que alguns países já possuem legislação específica sobre o assédio moral onde podemos elencar a Suécia, França, Noruega, Finlândia, Argentina e Austrália. Nos Estados Unidos, os casos de assédio são julgados de acordo com a legislação de dano moral (The Civel Right Act/1964). Há outros em que há apenas Projeto de Leis e são eles: Espanha, Itália, Japão, Portugal, Suíça, Bélgica, Uruguai e Brasil.