2.4 DIREITOS HUMANOS
2.4.1 Desafios para uma correta compreensão dos direitos humanos
2.4.1.3 Direitos humanos: salvaguardar e promover
Para Román Flecha, “o reconhecimento da pessoa como valor final e não mediado, como lugar axiológico autônomo e original, constitui o núcleo ético que desenvolve o processo de conscientização, que se plasma nas declarações de direitos humanos”.245 Nesse
viés, os direitos humanos assumem um caráter moral e ético, expressando seu aspecto de sociabilidade, fundado na insubordinação da pessoa, que não se reduz a objeto, mas sujeito de direitos e deveres.
Abordar os direitos humanos em perspectiva jusnaturalista não necessariamente implica em uma formulação abstrata e genérica, tampouco recai numa ditadura do eu ensimesmado, haja vista que o indivíduo se desenvolve em relação, ou seja, em sociedade. Porquanto, “as qualidades eminentes e próprias do ser humano – a razão, a capacidade de criação estética, o amor – são essencialmente comunicativas”.246 Por outro lado, é preciso
entender a sociabilidade não como uma espécie de supremacia da sociedade sobre a pessoa, o que nos levaria a justificar os Estados totalitários, mas como lugar existencial do desenvolvimento integral da pessoa humana.
Trata-se, igualmente, de compreender que essa abordagem se dá no interior da história e é situada no tempo, o que faz dos direitos humanos formulações que podem ser
243 COMPARATO, F. K. Fundamentos dos direitos humanos. In: MARCÍLIO, Maria Luiza; POZZOLI, Lafaiete
(Coord.). Cultura dos direitos humanos, p.65.
244 PONTIFÍCIO CONSELHO “JUSTIÇA E PAZ”. Compêndio da doutrina social da Igreja, n. 156.
245 “El reconocimiento de la persona como valor final y no mediato, como lugar axiológico autónomo y original,
constituye el núcleo ético que desarrolla el proceso de concienciación que se plasma en las declaraciones de derechos humanos”. ROMÁN FLECHA, J. Moral social: la vida en comunidad, p. 172.
246 COMPARATO, F. K. Fundamentos dos direitos humanos. In: MARCÍLIO, Maria Luiza; POZZOLI, Lafaiete
enriquecidas dada a relatividade da história. A dinâmica da história revela o devir humano, ou seja, um sujeito presente entre a memória do passado e os projetos do futuro. Um ser capaz de transcendência, que não se realiza fechando-se em si mesmo.
Ter a dignidade humana como fundamento dos direitos humanos faz destes direitos uma realidade intocável. Aqui se estabelece o limite dos poderes legisladores, que não podem positivar direitos ou mesmo deveres que se oponham à pessoa humana. Esse caráter irredutível é expresso por Emmanuel Levinas em termos da epifania de um-outro que, por sua presença, espera uma acolhida que não comporta manipulação, mas reconhecimento.
Esta epifania, diz Levinas, “comporta uma significação própria, independente desta significação recebida do mundo. O Outro não nos vem somente a partir do contexto, mas, sem esta mediação, significa por si mesmo”.247 Este caráter absoluto é que o leva a considerar o ser
humano “em sua dignidade substancial de pessoa, diante da qual as especificações individuais e grupais são sempre secundárias”248, e, mesmo assim, anteriores à lei positiva.
Mesmo sendo uma realidade fundada na própria pessoa humana, os direitos humanos não se impõem por evidência natural, senão por uma fundamentação, uma explicitação e uma conscientização salutares, do contrário não se veriam tantos abusos que negam os mesmos direitos. Faz-se necessária sua assimilação e incorporação ao cotidiano da vida social. Aqui ganha espaço a prudência da positivação em detrimento de um idealismo humanista que desconsidera a desumanidade do humano. Positivá-los, portanto, dá-lhes a função de valor- fonte, iluminando, com sua força moral, todo o sistema constitucional, e gerando vinculação.
Por isso, “considerados desde um ponto de vista positivo, os direitos humanos se fundamentam nos atos, mas do ponto de vista normativo se fundamentam na moralidade”.249
Por outro lado, eles “não são simples moralismos. Antes, reconhecê-los é condição de possibilidade de uma sociedade alternativa e sustentável, base de toda sociedade digna de ser mantida”.250 Assim, a positivação não é descabida, tampouco é suficiente, mas é um
reconhecimento importante, que, além de salvaguardar, desperta a consciência das pessoas para sua necessária implementação.
Portanto, os direitos humanos apontam para a dignidade humana como seu fundamento, que não é senão a afirmação de que o valor da pessoa está no fato de ser-pessoa;
247 LEVINAS, E. Humanismo do outro homem, p. 58.
248 COMPARATO, F. K. Fundamentos dos direitos humanos. In: MARCÍLIO, Maria Luiza; POZZOLI, Lafaiete
(Coord.). Cultura dos direitos humanos, p. 60.
249 “Considerados desde un punto de vista positivo, los derechos humanos se fundamentan en los hechos,
mientras que desde un punto de vista normativo se fundamentan en la moralidad”. ROMÁN FLECHA, J. Moral
social: la vida en comunidad, p. 156.
ou seja, como diz Fábio Comparato, “o fato sobre o qual se funda a titularidade dos direitos humanos é, pura e simplesmente, a existência do homem”251, pois “todo ser humano tem o
direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei”.252 Trata-se do
único ser cuja existência é um valor em si mesmo, dadas suas autoconsciência, historicidade, liberdade e unidade existencial.
É o que também é defendido no ensino social da Igreja, quando esta diz que “a raiz dos direitos do homem, com efeito, há de ser buscada na dignidade que pertence a cada ser humano”.253 A tradição cristã, embora veja no ser humano o fundamento dos direitos
humanos, pela própria dignidade humana é realista ao afirmar que este mesmo sujeito é capaz de usurpá-los, descaracterizando-os. Por isso, insiste que a fonte de tais direitos não está apenas na pessoa humana, mas em Deus, a quem professa criador e provedor desta mesma pessoa.254