4 OS CORREDORES ECOLOGICOS ENQUANTO INSTRUMENTOS DE
4.12 Direitos ou Deveres ou Direitos e Deveres
Alterar a forma de enfrentar a degradação ambiental é mais do que apenas cobrar providências do Estado, mas incutir na mentalidade de cada o dever de executar trabalhos de tutela e de melhoria da qualidade dos bens ambientais para proveito de todos os membros da coletividade368. Implica essa alteração de
entendimento num longo e lento caminhar (nem sempre a frente...), rumo ao uso mais inteligente dos recursos naturais, insubstituíveis e cruciais para a sobrevivência desta e de vindouras gerações369. Não se pode olvidar poder o ambiente impressionar a
nossa maneira de enxergar a vida, sentir e realizar. O ambiente expressa a nossa identidade. E o ambiente degradado não possibilita aprimorar uma identidade incorporada e satisfeita370.
Assim, no Brasil e no mundo, o que deve ser repensado é a posição dos Deveres Fundamentais na esfera dos Direitos Fundamentais. Missão a ser encabeçada pelos Estados. O escopo é estender a responsabilidade do indivíduo em particular e em grupo e colocar em relevo os princípios e direitos fundamentais nas relações privadas, a destacar os princípios, valores e obrigações de solidariedade371.
No atual Direito Internacional o Princípio da Solidariedade é lembrado no domínio de vários organismos internacionais e motiva o uso de um novo conceito singular de pacto entre os Estados, alicerçado em uma integração solidária para a salvaguarda de valores compartilhados372, dentre eles o ambiental.
Solidariedade, entretanto, não é tão somente um valor moral, mas um preceito componente da justiça, assim como a igualdade e a liberdade. Dessa forma o Estado
367 MACDONALD, 2013, p. 14. 368 GOMES, 2007, p. 47. 369 Ibid., p. 50-51. 370 FRANCISCUS, 2015, p. 90. 371 SARLET, FENSTERSEIFER, 2012, p. 139. 372 MENEZES, 2013, p. 210.
fomenta a igualdade entre os nacionais, a atentar para os mais desfavorecidos e dessa forma melhor compor essa paridade, a estimular a irmandade entre todos e postura incisiva em áreas a exigir obrigações coletivas. É a cidadania conscienciosa, respeitadora, a amparar as consequências de se levar a vida em comum. Quanto maior o conforto propiciado pelo Estado maior a necessidade de se firmar laços de adesão entre os homens para conquistar fins comuns, a solidariedade de destino, a
solidariedade em termos sociais373. A solidariedade torna o homem livre e sensato, a
constituir o alicerce de uma ordem constitucional com uma ordem simultânea e
necessariamente de liberdade e de responsabilidade, ou seja, uma ordem de liberdade limitada pela responsabilidade. Deve haver, necessariamente, primazia dos
direitos face aos deveres, mas nunca exclusividade. É um complexo em que os direitos fundamentais instituem a substância da liberdade e os deveres fundamentais o seu disciplinador374.
O dever de proteção do ambiente revela diversificadas formas de atuação, a também tornar dissemelhantes os níveis de comprometimento pessoal. E o mais inferior nível de deverosidade ambiental, o de não causar dano, é oriundo do princípio da solidariedade, em razão de cada indivíduo valer-se de parcela indivisa de um bem coletivo e por isso usá-lo de forma coerente. E cada particularidade do dever fundamental de proteção do ambiente, nos seus vários estágios de intensidade, estará necessariamente ligado às atividades do destinatário, seja o motorista de um automóvel ao escolher o combustível menos poluente ou o industrial a adotar cautelas para sua fábrica degradar com menos intensidade o ar e a água375.
É plenamente possível concordar com Carla Amado Gomes de não possuir o direito ao ambiente sentido jurídico típico, exatamente por não ter como indigitar-lhe conteúdo jurídico específico. Independente disso a convicção de que devem existir deveres de proteção ambiental como contraposto ao exercício de direitos, como o de dirigir automóveis, de propriedade etc376. Não obstante, a era dos direitos, fruto da
visão liberal do pós-guerra, tem ojeriza pelos deveres fundamentais. O temor de novos regimes totalitários – os quais nunca deixaram e deixarão de existir – aliado a textos constitucionais protetores de direitos e liberdades fundamentais cavaram profundas
373 GOMES, 2007, p. 139-140. 374 NABAIS, 2007, p. 31. 375 GOMES, 2007, p. 185-186. 376 Ibid., p. 186.
trincheiras contra qualquer possibilidade do retorno de um passado com deveres divorciados de direitos.
No século XX coroa-se o liberalismo extremado. A Itália e a Alemanha, após a segunda guerra, transformam-se em exemplos de liberalismo sem deveres, um liberalismo máximo, no qual está ausente a responsabilidade coletiva dos indivíduos377. Entrementes, não se pode imaginar uma comunidade internacional de
Direito em que aos cidadãos sejam atestadas supremas liberdades e ínfimas obrigações. O sentimento absoluto de humanidade de cada pessoa somente é cognoscível por meio da composição de seres moralmente responsáveis378. Um
antropocentrismo corrompido por inesgotáveis exigências gera um estilo de vida viciado. Um ser humano assoberbado de direitos, a dar importância demasiada aos seus interesses, muitas vezes efêmeros, faz com que tudo o mais se torne relativo379,
a incluir os direitos alheios e os bens ambientais. Sem mencionar serem deveras enfadonhos os palavrórios politicamente corretos para enaltecer incontáveis direitos e minimizar deveres, isso quando estes não são deliberadamente desconsiderados.
O Estado Liberal alicerça-se nessa mentalidade numa abstenção estadual, pois o Estado e sociedade não estariam mais apartados e a sociedade desenvolver- se-ia melhor e os indivíduos estariam mais seguros quanto menos se intrometessem os poderes públicos, a permitir a atuação da mão invisível. Nos direitos fundamentais de primeira geração constata-se um núcleo tão somente negativo, o dever de abstinência das entidades públicas, a ser inclusive tido como direitos de natureza incondicional380.
No Brasil a degustação de uma realidade sem deveres surge nos anos oitenta. O fim da Revolução Militar de 31 de março de 1964, depois de 21 anos, proporciona a criação de um texto constitucional extremamente liberal em 1988, mas ao mesmo tempo avançado, pois formula deveres de proteção estatais no plano ambiental, a sustentar ainda a responsabilidade dos particulares381.
Para Portugal a década de setenta marca o surgimento de um regime constitucional robusto, assim como na Espanha e Grécia382. Em todos esses textos,
377 NABAIS, 2002, p. 742. 378 GOMES, 2007, p. 48. 379 FRANCISCUS, 2015, p. 76. 380 SILVA, 2002, p. 86. 381 SARLET, FENSTERSEIFER, 2012, p. 132. 382 Ibid., p. 740.
bem como na maioria dos países do mundo ocidental, os direitos fundamentais são o grande motivador para as novas realidades políticas e sociais. Um exemplo é a queda do comunismo na Europa, a dar novo enfoque na construção do Estado constitucional de direito ou Estado Constitucional Democrático na chamada Cortina de Ferro. Para os alemães o termo dever é um tabu. A locução dever fundamental sequer é citada na Lei Fundamental de Bonn. Não se pode afirmar, todavia, existir deliberada abstenção da Lei Fundamental pelos deveres fundamentais, mas tão somente uma certa prudência por parte do legislador, até porque resultam as normas constitucionais relativas aos deveres fundamentais na legitimação para o poder público, por meio do estado social (artigos 20º, I, e 28º, I, da Lei Fundamental), intervir em certas esferas da autonomia das pessoas383.
A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e o Tratado de Maastricht omitem qualquer menção aos deveres dos cidadãos europeus. Na França sublinhou-se nos textos constitucionais de 1946 e 1958 a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão como norte para os direitos e liberdades fundamentais. Nessa declaração não foram aceitas sugestões de constar em seu texto deveres fundamentais384.
E a ausência sistemática dos deveres fundamentais não se relaciona apenas com textos constitucionais, mas com outros aspectos da vida, como a própria concepção de estado, de política, de sociedade. É o que Casalta Nabais denomina
discurso quantitativo dos direitos fundamentais385. Direitos fundamentais formam
assim uma carapaça instransponível contra qualquer alusão a obrigações que possam de alguma forma limitar a realidade jurídica das pessoas na presença dos poderes públicos reconhecidos na constituição386. E essa pouca atenção, desmemoriamento
ou ostracismo reflete-se nos textos constitucionais da generalidade dos países, os quais não dedicam aos deveres fundamentais uma abordagem minimamente semelhante ao outorgado aos direitos fundamentais387.
Carla Amado Gomes diz estar a agravar-se a destruição do meio natural no Brasil em razão, no seu predomínio, da cobiça e desleixo humanos388. Clama-se
383 NABAIS, 2007, p. 19. 384 SARLET, FENSTERSEIFER, 2012, p. 740-741. 385 NABAIS, 2002, p. 741. 386 ALEXANDRINO, 2011, p. 23. 387 NABAIS, 2007, p. 22-23. 388 GOMES, 2010, p. 34.
dessa forma pela responsabilidade comunitária dos indivíduos. É o dever de solidariedade social e aqui com maior realce na era ecológica, no confronto do meio ambiente com o direito de propriedade. Assim desvela-se o dever fundamental de proteger o ambiente, dever jurídico constitucional autônomo.
Embora implícito, é este o dever a obrigar as pessoas físicas e jurídicas a contribuírem com os seus esforços para cuidar das particularidades dos bens ambientais, em um raciocínio de cooperação nesta geração e nas futuras389. Carla
Amado Gomes chama a atenção assim para uma comunidade com responsabilidade
ambiental390. De fato a responsabilidade pelo ambiente não pode ficar apenas nas
costas do Estado e de entidades.
Todos, na realidade, tem a incumbência de zelar pelo ambiente. Mas significativa faixa da população deste país ainda é insensível aos riscos a que está exposto o ambiente como um todo. As grandes empresas também não sofrem maiores desassossegos se as matas, rios, oceanos, solos, fauna e flora estão a ser poluídos e dizimados, principalmente em razão de uma legislação boa, mas mal utilizada. Quase nunca se pode contar com uma ética empresarial.
Antes a natureza não fazia parte de um compromisso humano, em razão disso a ética não estava concatenada com o ambiente. Entretanto, hoje há uma imprescindibilidade fundamental de acercar a moralidade da inteligência, para que brote o compromisso, a obrigação391. Somente a aplicação mais rígida dessa mesma
legislação, combinada com medidas eficazes de preservação e recuperação ambiental, a estipular com firmeza o que cada um deve fazer em face do ambiente, é que dará fim a esse fado tropical392.
Não obstante, deixa-se claro não implicar a concepção de deveres fundamentais simplesmente em fincar barreiras a direitos, nem valer-se de contenções legislativas. Deveres fundamentais alicerçam-se numa escala de valores sociais esculpidos pela Constituição e na inserção do indivíduo em um Estado Social de Direito393. É impor ao nacional, na sua generalidade, e em diversas gradações,
389 GOMES, 2010, p. 45. 390 GOMES, 2010, p. 46. 391 MATA, 2016, p. 61. 392 GOMES, 2010, p. 47. 393 GOMES, 2007, p. 137.
condutas positivas ou negativas. A agir assim o Estado estará a contribuir para a integração social394.
No fim busca-se o equilíbrio. É do Direito a procura perene da harmonia entre interesses contrários. Não seria diferente entre no domínio ambiental. Tratam-se de escalas a que colocam-se os embates a que o Direito deve fazer frente395.
Afinal de contas, atrás das intimidações à sustentabilidade da vida na Terra há a barganha temerária de valores que nutriu o pedantismo, o imediatismo, o materialismo, a falta de ética, o analfabetismo ambiental, a ignorância e a cegueira
espiritual, da qual afloraram as pessoas encaminhadas por um padrão de evolução a
ter como divindades o mercado, o lucro, o consumo exagerado e como fonte de nutrição dessa metodologia, a total ausência de compreensão396.
Nessa perspectiva o nacional é convocado a agir com responsabilidade, a inserir-se numa dimensão de deveres para com o próximo e o ambiente, além de demonstrar participação madura no projeto político do país, a abandonar concepções infantis de que o Estado é o servidor e patrocinador de todo e qualquer devaneio individualista. Essa ideia não possui nada de novo. A Constituição de Weimar proporcionou os mais implacáveis debates em razão das novidades introduzidas, a submeter o individualismo a serviço da coletividade e a salvaguardar os direitos individuais na proporção que acolhem seu dever social397.