Disponibilidade, acessibilidade, aceitabilidade e qualidade da assistência sanitária a pessoas com HIV no marco do direito à vida e à integridade pessoal
Corte Interamericana de Direitos Humanos | Desenvolvimento jurisprudencial 71 atenção de saúde humana, e que a falta de atenção médica adequada pode levar à violação do artigo 5.1 da Convenção. Nesse sentido, a Corte afirmou que a proteção do direito à integridade pessoal pressupõe a regulamentação dos serviços de saúde no âmbito interno, bem como a implementação de uma série de mecanismos para tutelar a efetividade dessa regulamentação.55
A Corte observou que as pessoas que vivem com HIV requerem um enfoque integral que compreende uma sequência continua de prevenção, tratamento, atenção e apoio. Nesse sentido, o acesso limitado a medicamentos antirretrovirais e a outros medicamentos não cumpre as obrigações de prevenção, tratamento, atenção e apoio derivadas do direito ao mais alto nível possível de saúde. Estes aspectos sobre a qualidade da saúde estão relacionados à obrigação estatal de “cria[r] ambientes seguros, especialmente para as crianças, ampliando serviços de boa qualidade que ofereçam informação, educação sobre saúde e assessoramento de forma apropriada para os jovens, reforçando os programas de saúde sexual e de saúde reprodutiva e facilitando a participação, na medida do possível, das famílias e dos jovens no planejamento, execução e avaliação de programas de atenção e prevenção do HIV e da AIDS’’.56
Obrigações estatais inerentes ao direito à educação em relação às pessoas com HIV/AIDS
Existem três obrigações inerentes ao direito à educação em relação às pessoas que vivem com HIV/AIDS: i) o direito a dispor de informação oportuna e livre de preconceitos sobre o HIV/AIDS; ii) a proibição de impedir o acesso aos centros educativos às pessoas com HIV/AIDS, e iii) o direito a que a educação promova sua inclusão e não discriminação dentro do ambiente social.57
Vedação à discriminação de pessoas que vivem com HIV assegurada pela Convenção Americana e necessidade de um juízo estrito de proporcionalidade
No marco do corpus iuris na matéria, a Corte considerou que está vedada a discriminação de pessoas que vivem com HIV e que esta proibição está abarcada pelo termo “outra condição social”, estabelecido no artigo 1.1 da Convenção Americana”. Nesta proteção contra a discriminação sob “outra condição social”, encontra-se também a condição de pessoa com HIV como aspecto potencialmente gerador de deficiência naqueles casos nos quais, além dos danos orgânicos causados pelo HIV, existam barreiras econômicas, sociais ou de outra natureza, derivadas do HIV, que afetem seu desenvolvimento e participação na sociedade.58
A Corte ressaltou que o efeito jurídico direto de que uma condição ou característica de uma pessoa se enquadre dentro das categorias do artigo 1.1 da Convenção é que o escrutínio judicial deve ser mais estrito ao avaliar diferenças de tratamento baseadas nestas categorias. A capacidade de diferenciação das autoridades com base nestes critérios suspeitos se encontra limitada e, apenas em casos nos quais as autoridades demonstrem que se está em presença de necessidades imperativas e que recorrer a essa diferenciação é o único meio para alcançar essa necessidade imperativa, poderia eventualmente ser admitido o uso dessa categoria.59
Caso seja estipulada uma diferença de tratamento em razão da condição médica ou de enfermidade, esta diferença de tratamento deve ser feita com base em critérios médicos e na real condição de saúde, levando em consideração cada caso concreto, avaliando os danos ou riscos reais e provados, e não especulativos ou imaginários. Portanto, não podem ser admissíveis as especulações, presunções, estereótipos ou considerações generalizadas sobre as pessoas com HIV/AIDS ou qualquer outro tipo de
55 Cfr. Caso Gonzales Lluy e outros Vs. Equador. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 1º de setembro de 2015. Série C No. 298,
par. 171.
56 Cf. Caso Gonzales Lluy e outros Vs. Equador. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 1º de setembro de 2015. Série C Nº 298,
par. 197.
57 Cf. Caso Gonzales Lluy e outros Vs. Equador. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 1º de setembro de 2015. Série C Nº 298,
par.241.
58 Cf. Caso Gonzales Lluy e outros Vs. Equador. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 1º de setembro de 2015. Série C Nº 298,
par. 255.
59 Cf. Caso Gonzales Lluy e outros Vs. Equador. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 1º de setembro de 2015. Série C Nº 298,
Corte Interamericana de Direitos Humanos | Desenvolvimento jurisprudencial 72 enfermidade, mesmo que estes preconceitos se escondam em razões aparentemente legítimas como a proteção do direito à vida ou da saúde pública.60
O exame sobre se uma criança com HIV, por sua condição hematológica, deve ou não ser retirada de um centro educativo deve ser feita de maneira estrita e rigorosa, a fim de que esta diferenciação não se considere uma discriminação. É responsabilidade do Estado determinar que efetivamente existe uma causa razoável e objetiva para justificar a distinção. Nessa ordem de ideias, para estabelecer se uma diferença de tratamento se fundamentou em uma categoria suspeita e determinar se constituiu discriminação, é necessário analisar os argumentos expostos pelas autoridades nacionais, suas condutas, ou linguagem utilizada e o contexto em que foi tomada a decisão.61
A Corte ressaltou que a proteção de interesses imperativos ou importantes, como a integridade pessoal de pessoas, em face de supostos riscos em razão da situação de saúde de outras pessoas deve ser feita a partir da avaliação específica e concreta desta situação de saúde e dos riscos reais e provados, e não especulativos ou imaginários. Não podem ser admissíveis as especulações, presunções ou estereótipos sobre os riscos de certas enfermidades, particularmente quando reproduzem o estigma em relação às mesmas.62
O Tribunal concluiu que, apesar de o “interesse coletivo” e a “integridade e vida” das crianças serem fins legítimos em abstrato, a simples referência aos mesmos sem provar, concretamente, os riscos ou danos que poderiam representar na situação de saúde de uma criança que compartilha o colégio com outras crianças, não pode justificar a restrição do direito à educação de uma criança portadora de HIV, tampouco a limitação do exercício de todos os direitos humanos sem discriminação alguma em razão de sua condição médica. O interesse superior da criança não pode ser utilizado para amparar a discriminação contra uma criança por sua situação de saúde.63
Interseção entre a discriminação de uma criança portadora de HIV e em situação de pobreza
A Corte expôs que certos grupos de mulheres sofrem discriminação ao longo de suas vidas com base em mais de um fator combinado com o seu sexo, o que aumenta seu risco de sofrer atos de violência e outras violações de seus direitos humanos. No caso das mulheres com HIV/AIDS, a perspectiva de gênero exige entender a convivência com a enfermidade no marco dos papéis e das expectativas que afetam a vida das pessoas, suas opções e interações (sobretudo em relação à sua sexualidade, desejos e comportamentos).64
A Corte observou que, no caso particular de uma criança portadora de HIV, múltiplos fatores de vulnerabilidade e risco de discriminação associados à sua condição de criança, mulher, pessoa em situação de pobreza e pessoa com HIV confluíram de forma interligada. A discriminação vivida não foi causada apenas por múltiplos fatores, mas derivou de uma forma específica de discriminação resultante da interseção destes fatores, isto é, se um destes fatores não tivesse existido, a discriminação teria uma natureza diferente. Com efeito, a pobreza teve um impacto no acesso inicial à atenção de saúde que não foi de qualidade e que, pelo contrário, gerou o contágio com HIV. A situação de pobreza impactou também nas dificuldades para encontrar um melhor acesso ao sistema educativo e ter uma habitação digna. Posteriormente, sendo uma criança com HIV, os obstáculos sofridos no acesso à educação tiveram um impacto negativo para seu desenvolvimento integral, que é também um impacto diferenciado, tendo em consideração o papel da educação para superar os estereótipos de gênero. Como criança com HIV, ela necessitava de medidas positivas por parte do Estado para dar impulso ao seu projeto vida. Em
60 Cf. Caso Gonzales Lluy e outros Vs. Equador. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 1º de setembro de 2015. Série C Nº 298,
par. 258.
61 Cf. Caso Gonzales Lluy e outros Vs. Equador. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 1º de setembro de 2015. Série C Nº 298,
par. 260.
62 Cf. Caso Gonzales Lluy e outros Vs. Equador. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 1º de setembro de 2015. Série C Nº 298,
par. 264.
63 Cf. Caso Gonzales Lluy e outros Vs. Equador. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 1º de setembro de 2015. Série C Nº 298,
par. 265.
64 Cf. Caso Gonzales Lluy e outros Vs. Equador. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 1º de setembro de 2015. Série C Nº 298,
Corte Interamericana de Direitos Humanos | Desenvolvimento jurisprudencial 73 suma, o caso ilustra que a estigmatização relacionada ao HIV não afeta de forma homogênea todas as pessoas e que seus impactos são mais graves nos grupos que por si só são marginalizados.65