2. EDUCAÇÃO SUPERIOR E TURISMO
2.2. DIRETRIZES CURRICULARES DOS CURSOS DE TURISMO
As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) são normas obrigatórias para a educação, que orientam o planejamento curricular das instituições de ensino, visando à preparação dos futuros profissionais em cursos de graduação em nível superior, para qualquer área no Brasil. As DCNs têm origem na LDB de 1996.
Considerando a questão da sua autonomia, as universidades são incentivadas a organizar sua matriz curricular de acordo com os conteúdos que lhe parecem apropriados para a formação das competências que são exigidas nas diretrizes. (TOJAL, 2004).
A proposta para as diretrizes curriculares dos cursos de turismo foi aprovada em agosto de 2003 e o parecer homologado foi publicado no Diário Oficial da União em 12 de abril de 2004. O objetivo dessas diretrizes, instituídas pela Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (CES/CNE), é o de orientar as IES na definição do currículo e alguma possível reforma deste, para os cursos de graduação em Turismo, imprimindo a cada IES a responsabilidade de definir os elementos que compõem o curso, de acordo com suas particularidades, sua forma de conduzir e avaliar o aluno. (GOMES et al, 2008).
A CES/CNE estabelece ainda que os cursos de turismo devam incluir no currículo tanto a teoria quanto o desenvolvimento de habilidades práticas que podem ser iniciadas em projetos de extensão, monitoria, iniciação cientifica, seminários, congressos ou projetos de pesquisa, para que o aluno tenha uma visão ampla do que é o turismo.
As diretrizes funcionam como uma referência para que as instituições possam organizar seus programas de formação, permitindo certa flexibilidade e priorizando as áreas de conhecimento que as IES julguem aproximar-se mais das necessidades reais de uma formação acadêmica completa para o turismólogo. (GOMES et al, 2008).
A profissão de turismólogo compreende uma formação generalista e especializada ao mesmo tempo, pois o turismo abrange várias dimensões e pode gerar impactos na vida social, cultural, econômica e no meio ambiente. Assim, as diretrizes estabelecem que, nos curso de graduação em turismo, esta formação generalista se dê no sentido do conhecimento geral, das ciências humanas, sociais, políticas e econômicas, e a formação especializada tenha foco principalmente nas áreas culturais, históricas, ambientais, antropológicas, eventos e administração do fluxo turístico.
A esse respeito, Barretto, Tamanini e Silva (2004) argumentam em seu livro Discutindo o ensino universitário de turismo que as DCNs englobam uma série de competências e habilidades tão ampla e ambiciosa que não condiz com as reais possibilidades de formação. Observam que da forma como as DCNs estão estruturadas precisaria haver cursos dentro dos cursos para formar profissionais específicos que dominassem os conceitos envolvidos, como por exemplo, nas áreas de relações públicas, marketing, administração de empresas, entre outras, uma vez que a aquisição destes conceitos demanda cursos específicos de considerável
duração, o que conduz à constatação que do ponto de vista de seu cumprimento, as Diretrizes Nacionais Curriculares podem ser consideradas não realizáveis.
As diretrizes estabelecem que o egresso do curso de turismo deve apresentar algumas competências e habilidades básicas para o exercício da profissão. Porém compreender o significado de competências e habilidades no contexto educacional não é uma tarefa fácil, principalmente pela escassez de produção teórica a respeito. Para Valente, existem dois eixos interpretativos/conceituais, um que explicita o significado de competência como ação associada a uma série de atributos como conhecimentos, habilidades e aptidão e outro que diferencia competências de habilidades, conceituando-as separadamente, ou mencionando-as de forma distinta (VALENTE, 2002).
No presente estudo, o termo competência é abordado de acordo com o segundo eixo conceitual identificado por Valente (2002), entendendo conhecimentos (saber), habilidades (saber fazer) e atitudes (querer fazer) como o conjunto formador da competência, que possibilita desempenhar determinada função na busca de resultados concretos, ou seja, ser competente é ter a capacidade para usar, ao mesmo tempo, os conhecimentos adquiridos e as habilidades aprendidas, empregando atitudes adequadas à realização de tarefas (URBANAVICIUS et al., 2011)
A figura 1 sintetiza os conhecimentos e habilidades descritos nas diretrizes curriculares para os cursos de turismo (BRASIL, 2011).
Diretrizes Curriculares
Conhecimentos
Compreensão das políticas nacionais e regionais sobre turismo.
Domínio de técnicas de planejamento e operacionalização do Inventário Turístico, detectando áreas de novos negócios, de novos campos turísticos e de permutas culturais.
Domínio e técnicas de planejamento e operacionalização de estudos de viabilidade econômico-financeira para os empreendimentos e projetos turísticos.
Classificação de estabelecimentos prestadores de serviços turísticos como meios de hospedagens, transportadoras, agências de turismo, empresas promotoras de eventos e outras áreas.
Domínios de técnicas de seleção e avaliação de informações geográficas, históricas, artísticas, esportivas, recreativas e de entretenimento, folclóricas, artesanais, gastronômicas, religiosas, políticas e outros traços culturais, como diversas formas de manifestação da comunidade humana.
Domínio de métodos e técnicas para o estudo dos diferentes mercados turísticos, identificando os prioritários, inclusive para efeito de oferta adequada a cada perfil do turista.
Domínio de diferentes idiomas que ensejem a satisfação do turista em sua intervenção nos traços culturais de uma comunidade ainda não conhecida;
Compreensão da complexidade do mundo globalizado e das sociedades pós-industriais, onde os setores de turismo e entretenimento encontram ambientes propícios para se desenvolverem.
Profunda vivência e conhecimento das relações humanas, de relações públicas, das articulações interpessoais, com posturas estratégicas para o êxito de qualquer evento turístico.
Habilidades
Utilização de metodologia adequada ao planejamento das ações turísticas, abrangendo projetos, planos e programas, com os eventos locais, regionais, nacionais e internacionais.
Positiva contribuição na elaboração dos planos municipais e estaduais de turismo.
Adequada aplicação da legislação pertinente.
Planejamento e execução de projetos e programas estratégicos relacionados com empreendimentos turísticos e seu gerenciamento.
Intervenção positiva no mercado turístico com sua inserção em espaços novos, emergentes ou inventariados.
Comunicação interpessoal, intercultural e expressão correta sobre aspectos técnicos específicos das organizações e dos traços culturais de cada comunidade ou segmento social.
Utilização de recursos turísticos como forma de educar, orientar, assessorar, planejar e administrar a satisfação das necessidades dos turistas e das empresas, instituições públicas ou privadas, e dos demais segmentos populacionais.
Habilidade no manejo com a informática e com outros recursos tecnológicos.
Integração nas ações de equipes interdisciplinares e multidisciplinares, interagindo criativamente face aos diferentes contextos organizacionais e sociais.
Adequado desempenho técnico-profissional, com humanismo, simplicidade, segurança, empatia e ética.
Figura 1. Diretrizes Curriculares do Curso de Turismo
Fonte: Elaboração própria a partir de BRASIL, 2011.
Pressupõe-se que a aquisição de conhecimentos e habilidades preconizados nas diretrizes seja acompanhada pela formação de atitudes, entendidas como o comportamento apresentado diante de situações e de tarefas a serem desenvolvidas no dia-a-dia (URBANAVICIUS et al., 2011) A atitude é, pois, o reflexo de tudo que foi apreendido e trabalhado no decorrer do curso e que terá continuidade ao longo da vida pessoal e profissional.
Conhecimentos, habilidades e atitudes estão explicita ou implicitamente especificados no projeto pedagógico que é o instrumento de organização do ensino, a ser elaborado e executado por cada instituição com base nas DCNs, sempre respeitando as características regionais, locais, culturais e econômicas da sociedade na qual a instituição esteja inserida. Os projetos pedagógicos dos cursos de graduação em Turismo devem contemplar conteúdos interligados, classificados entre básicos, específicos e teórico-práticos. Sendo que os conteúdos básicos incluem estudos relacionados com os aspectos sociológicos, antropológicos,
históricos, filosóficos, geográficos, culturais e artísticos, que conformam as sociedades e suas diferentes culturas. Os conteúdos específicos são estudos relacionados com a Teoria Geral do Turismo, Teoria da Informação e da Comunicação, estabelecendo ainda as relações do turismo com a administração, o direito, a economia, a estatística e a contabilidade, além do domínio de, pelo menos, uma língua estrangeira. Os conteúdos teórico-práticos são aqueles estudos localizados nos respectivos espaços de fluxo turístico, compreendendo visitas técnicas, inventário turístico, laboratórios de aprendizagem e de estágios (BRASIL, 2011).
Conforme preconizado nas Diretrizes Curriculares, o Estágio Curricular Supervisionado é um componente curricular obrigatório, cabendo ao Projeto Pedagógico definir suas diferentes modalidades de operacionalização. Uma de suas funções é avaliar o desempenho profissional do aluno antes da conclusão do curso, observando a sua capacidade de aplicação dos conteúdos aprendidos em sala de aula, propiciando ao estudante traçar um perfil realista de seu desempenho no estágio, para então que, caso necessário, haja re-orientação teórico-prática para a melhoria do exercício profissional (BRASIL, 2011).
As atividades complementares devem possibilitar o reconhecimento de habilidades e competências do aluno, inclusive adquiridas fora do ambiente escolar, assim, o aluno poderá complementar o seu currículo com experiências e vivências acadêmicas, dentro do curso ou fora dele. As atividades complementares podem incluir a participação em projetos de pesquisa, monitoria, iniciação científica, projetos de extensão, seminários, simpósios, congressos, conferências, além de cursos de férias, palestras ou disciplinas oferecidas por outras instituições de ensino. As atividades complementares constituem componentes curriculares enriquecedores que ajudam a desenvolver o perfil do formando, porém não se pode substituí-las ou confundi-las com o Estágio Curricular Supervisionado (BRASIL, 2011).
Assim como o estágio supervisionado, a Monografia ou Trabalho de Conclusão de Curso - TCC é opcional para a instituição, que deve definir, no momento da formulação do projeto pedagógico do curso, se a entrega será ou não obrigatória para efeito de avaliação final do aluno e para a obtenção do título de bacharel em turismo. Se a instituição optar por incluir no currículo do curso de graduação em Turismo o TCC, deverá emitir regulamentação própria, aprovada pelo seu Conselho Superior Acadêmico, contendo, obrigatoriamente, critérios,
procedimentos e mecanismos de avaliação, além das diretrizes técnicas relacionadas com a sua elaboração (BRASIL, 2011).
Quanto à avaliação do desempenho escolar, as IES deverão adotar formas específicas e alternativas, envolvendo todas aquelas contidas no processo do curso, observados os aspectos considerados fundamentais para a identificação do perfil do formando. Além disso, os alunos deverão ter acesso aos planos de ensino contendo os conteúdos, as atividades, a metodologia do processo de ensino-aprendizagem, os critérios de avaliação a que serão submetidos e a bibliografia básica antes do início do período letivo (BRASIL, 2011).
As Diretrizes Curriculares para os cursos de turismo encontram dificuldade ao tentar definir um perfil para o turismólogo, em função da diversidade de habilidades e competências sugeridas. O caráter generalista da formação faz com que seja necessário que o egresso busque cursos de especialização e invista permanente no seu aperfeiçoamento cultural e profissional.