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CAPÍTULO I ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1.1 A Construção da Identidade Profissional Docente: um olhar reflexivo para a

1.1.6 Disciplina e Indisciplina: repensando o papel dos docentes

A indisciplina foi uma das maiores dificuldades que enfrentei durante a intervenção pedagógica, sobretudo, na valência do 1.º CEB. Segundo Parrat-Dayan (2008), os conflitos na sala de aula caraterizam-se pelo descumprimento de ordens e pela falta de limites, que no caso específico são: falar o tempo todo, ficar de pé, interromper o professor, andar pela sala, jogar borrachas para os colegas, entre outras atitudes que impede o desenvolvimento de aulas com qualidade.

Diante deste contexto, tive necessidade de pesquisar alternativas de intervenção para que pudesse enfrentar estes conflitos, com o intuito de haver mudanças a este nível. Assim, é importante ter presente o que é a indisciplina. Aquino (1996) destaca que a indisciplina está fixa no quotidiano escolar e como um problema escolar assegura que a função dessa instituição é ensinar a disciplina como se fosse um outro conteúdo.

Também Piaget (1994) refere que deve-se ensinar a disciplina, visando à construção desse mesmo comportamento. Por outro lado, para além do ambiente escolar, o meio familiar influencia o comportamento do indivíduo (Aquino, 1996).

Aquino (1996) fornece-nos uma definição do conceito de indisciplina mais completa, sendo que o seu conceito “não é estático, uniforme, nem tampouco universal. Ele se relaciona com o conjunto de valores e expectativas que variam ao longo da história, entre as diferentes culturas e numa mesma sociedade (…)”(p. 84). Nesta perspetiva, não creio que os professores que tragam para a sala regras utilizadas há muito tempo, provenientes de pedagogias tradicionais, onde o poder é centrado no professor, tenham resultado nos dias de hoje, na medida em que esta disciplina, muitas vezes é imposta. A disciplina alcançada através da imposição retira aos alunos o direito de participar nas tomadas de decisões, bem como a desenvolver-se como um ser social, que atua conscientemente na sociedade. Sobre este assunto, Devries e Zan (1998) explicam que o objetivo do envolvimento dos alunos nas tomadas de decisões e no estabelecimento de regras contribui para uma atmosfera de respeito mútuo, cooperando ente si e é uma das formas de cumprimento das mesmas.

Em consonância com Vasconcellos (2006), as regras, quando estabelecidas, necessitam de serem combinadas e elaboradas em conjunto, como também exigem ser assumidas por todos. As regras devem ficar afixadas na sala e registadas no caderno para uma eventual revisão sempre que seja necessário. Para o mesmo autor, as regras devem, em qualquer contexto, fomentar o respeito por si próprio e pelo outro, cujos docentes devem compreender que estas ajudam na construção de um ambiente de interação.

Os problemas disciplinares não ocorrem quando um aluno não realiza as atividades, mas a partir do momento em que não faz a tarefa ou não se envolve, nem se implica nas atividades e projetos e interfere no desenvolvimento da aula. Assim, este prejudica-se e desestabiliza o processo de aprendizagem de si e dos demais alunos, desrespeitando-se a si e ao outro. De acordo com Parrat-Dayan (2008) “(...) é mais eficaz se aproximar calmamente de um aluno e pedir para retomar seu trabalho que chamar a sua atenção em voz alta na frente de todos.” (p. 64), permitindo ao mesmo tempo uma maior aproximação e uma melhor relação professor-aluno.

É de salientar que obrigar o aluno a respeitar os outros não resulta, até porque a imposição de respeito ou outros valores, não conduzem à construção de atitudes morais, mas segundo Piaget (1994) apenas a cooperação progressiva, levará os alunos a

compreender o valor das regras no estabelecimento das relações. Para tal, as regras devem ser negociadas com clareza e fidelidade entre os alunos e o docente, como também deve existir flexibilidade para mudanças.

Por outro lado, “Ligando-se directamente à autoridade do professor, os fenómenos de disciplina e indisciplina na aula remetem directamente para o campo da relação pedagógica de que constituem aspectos relevantes.” (Estrela, 1994a, p. 20). Assim sendo, na época em que o docente era um depositário quase exclusivo do saber transmitido na escola, a autoridade dele era fundada nesse mesmo saber, que conferia àquele que o detinha um carisma especial. Esta relação pedagógica fechada refletia-se numa distância entre o docente e o aluno. Contudo, na atualidade o estabelecimento de relações abertas prevê um novo perfil de docente dinâmico e inventor, no qual nada se compadece com o perfil do docente rotineiro e acomodado, em que a função e utilidade da transmissão do saber era, muitas vezes, posta em causa (Estrela, 1994a).

Segundo a mesma autora, seria correto utilizar o puerocentrismo, em que a disciplina é entendida como autocontrole e autogoverno, por meio da participação permanente na produção e preservação das regras, com vista a formar cidadãos responsáveis e participantes, no qual o docente é um organizador de contextos de aprendizagens, que além dos conteúdos, devem promover igualmente os valores.

Rogers (1974) citado por Estrela (1994a) salienta que torna-se relevante que haja a autogestão, uma vez que esta beneficia a formação do grupo mediante a troca livre, em que o indivíduo se desenvolve, reconhece-se e se afirma na relação com os outros. Este mesmo autor crê que a indisciplina transitória pode ser uma etapa para a conquista da ordem e, como tal, compete ao docente a tarefa de organizar e facilitar as aprendizagens. Ainda acrescenta que a vida das crianças é delimitada pelos valores, pelo que a escola deve orientar neste sentido, pois a indisciplina tem origem na ausência e na indefinição de valores.

Nesta linha de ideias, Benette e Costa (2008) referem que a mudança só ocorrerá por meio de uma revisão nas estruturas da escola. Com efeito, Freinet refere que deve-se mudar a pedagogia da saliva para a pedagogia do trabalho, pois a criança só é indisciplinada sempre que o trabalho não faz sentido para ela. Assim, parece-me que a disciplina acontece quando se mantem uma tarefa coletiva de trabalho e relações humanas, no decorrer de uma atividade ou projeto, por meio da regulação cooperativa das crianças, sendo que estes são os passos primordiais para a autonomia com liberdade e responsabilidade. Também Benette e Costa (2008) mencionam que o trabalho coletivo

é a principal ferramenta para a transformação desta realidade e é o meio de viabilização destas ações, visto que o diálogo e a cooperação proporcionam o caminho na procura de uma disciplina, onde o respeito é a condição fundamental nas relações existentes. Deste modo, pretendeu-se promover o trabalho cooperativo de forma a atenuar e colmatar os problemas de indisciplina.

O saber é a condição de ação e relação pedagógica, em que o progresso científico e técnico pode incentivar a criação e recriação do saber. Isto implica que o professor estabeleça um mudança no seu perfil, (de transmissor para mediador da aprendizagem), valorizando os saberes que a criança trás de fora da escola e é através destes que se conduz a uma reflexão crítica, que irá intermediar e esclarecer as diferentes formas culturais, conduzindo a uma conceção de que não há imposição unilateral do saber.

Perante o exposto, verifica-se que para compreender os fenómenos de (in)disciplina há que perceber a relação triangular docente-criança-saber, cujas variáveis políticas, sociológicas, psicológicas, pedagógicas podem-na influenciar. Neste sentido, importa perceber o modo como os docentes e alunos atribuem significação às atividades, uma vez que as suas respostas espelham o seu comportamento. Com efeito, quando não há uma relação positiva com o saber, a relação pedagógica que se estabelece pode ficar distanciada para o plano de uma afetividade difusa, positiva ou negativa e, nesta era das novas tecnologias, de livre acesso ao saber, a escola possui um desafio maior, devendo ser capaz de redefinir a relação com o saber, de forma a não acentuar as desigualdades sociais, por meio de novas formas relacionais, no qual essa construção inevitavelmente gerará.

Por conseguinte, considera-se ainda que a indisciplina está diretamente relacionada com a falta de motivação por parte dos alunos no decorrer de algumas atividades e também pelo facto de estas nem sempre serem entendidas pelos mesmos, pois consideram os conteúdos inúteis. Neste sentido, parece que quando os alunos se sentem motivados para aprender é visto como um dos passos para a prevenção da indisciplina. No entanto, esta motivação não é sinonimo de um aluno passivo e silencioso o tempo todo, uma vez que o silencio não garante a aprendizagem, pois o aluno aprende quando participa ativamente nas atividades e também na interação com os outros intervenientes, ouvindo as diversas opiniões dos demais, assim como tendo a oportunidade de argumentar as suas ideias. Logo, esta participação ativa reflete muito bem a energia e entusiasmo, fruto de uma aprendizagem significativa (Neri, 1992).

Por outro lado, para trabalhar a indisciplina, a escola não é a única instituição a desempenhar tal tarefa. De acordo com Aquino (1996), é na família que se começa o processo de ensino/aprendizagem de todo o ser humano, em que a criança está sujeita a ser influenciada indubitavelmente de forma positiva ou negativa. Nestas circunstâncias, é exequível que a família possa colaborar de forma a colmatar o problema da indisciplina na escola, participando na vida escolar dos seus educandos, a fim de saber as suas angústias, as suas conquistas, como também as suas expetativas e possibilidades de realização em relação ao futuro.

Com base neste pressupostos, para enfrentar a indisciplina são inúmeras as dúvidas que surgem, pelo que é necessário uma contínua discussão e procura de soluções para este problema. Estas soluções podem estar na quebra de determinados paradigmas, tendo um olhar diferente para este acontecimento, bem como admitir o problema como forma de procurar possibilidades de intervenções, mediante reflexão, estudos e trocas de experiências que tragam contribuições efetivas. Na verdade, os alunos que apresentam comportamentos de indisciplina requerem uma atenção especial do docente, de modo a levantar a sua autoestima e, como tal, este necessita conquistá- los, trabalhando os valores morais, a fim de dar credibilidade para participar e se integrar na turma.

O docente assim deve planear, tendo em consideração o conhecimento prévio do aluno, pois assim a didática é construída com o conhecimento de ambos, numa cumplicidade na qual a opinião do aluno é fundamental. Neste processo, há que existir motivação por parte dos alunos, pois sem ela a educação não alcança os objetivos a que se propõe, ou seja, se as crianças não estiverem motivadas para o que se pretende, então o alcance dos objetivos e das aprendizagens será mais difícil de se atingir.

Em síntese, não existe fórmulas prontas para o problema da indisciplina, pois o conflito existirá sempre, visto que os valores, o contexto e as pessoas estão em constante mudança. Portanto, a principal função de um docente é criar mecanismos e ações que proporcionem o processo de ensino/aprendizagem. Para tal, deve existir uma partilha de responsabilidades nas decisões, como também relações interpessoais entre os envolvidos no processo escolar e familiar.