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3.1. Vida interna no Seminário de Nossa Senhora da Boa Morte

3.1.4. A disciplina como poder

Como este tópico trata da disciplina como poder nos seminários, especificamente no de Mariana, será utilizada como base teórica a concepção foucaultiana de poder, sob a qual este não é analisado no interior dos grandes aparelhos de Estado, e sim em outros níveis, como por exemplo, nas instituições mais locais e regionais. Nestas, a disciplina constitui uma técnica de um poder que faz dos indivíduos objetos e instrumentos de seu exercício.

Antes do século XVI, os processos disciplinares já faziam parte da vida nos exércitos, no conventos e na oficinas da França, mas, a partir do supracitado século e ao longo do seguinte, no interior da concepção do corpo como objeto e alvo de poder, a disciplina passou a constituir forma de dominação, de sujeição, de controle das operações do corpo, visando torná-lo dócil. Trata-se: “(...) de um domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que se operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina (...).”337

A propósito, no Seminário de Mariana, principalmente pelos Estatutos de 1821, e depois pelo Regulamento de 1845, foi observado um certo controle sobre o corpo, no tocante a determinação do vestuário dos alunos. Nesse compasso, verifica-se tal controle em um seminário do interior paulista, no século XX: “ (...) Determinava sobre o cabelo e o vestuário, sobre a colcha da cama e a cor do sapato e da meia (...) As mãos deviam ficar sempre fora

dos bolsos e, a noite, na cama, fora dos cobertores, mesmo durante o inverno (...).”338 A disciplina, em sua multiplicidade de processos, começou a funcionar em algumas instituições européias, como nos colégios e nas escolas primárias; depois nos hospitais, no exército e nas oficinas. E, embora não se mencione os seminários, a disciplina nestas instituições pode ser estudada de acordo com alguns aspectos analisados por Foucault: a arte das distribuições e o controle da atividade.

No que se refere à distribuição dos indivíduos no espaço, Foucault aponta primeiramente duas formas: a “cerca” (um local heterogêneo aos outros e fechado em si); e a “clausura” (cada indivíduo no seu lugar; e cada local, um indivíduo). Nos seminários, como nos colégios, o internato representa uma maneira discreta de “encarceramento”; e, no caso específico do Seminário de Mariana, os cubículos funcionavam como uma espécie de claustro, onde se procurava evitar a pluralidade confusa ou fugidia. Exemplo disto, é a mencionada proibição, pelos Estatutos de 1760, da entrada de pessoas de fora nos cubículos, e mesmo dos próprios seminaristas nos cubículos alheios. Além das duas mencionadas formas, o supracitado autor se refere a uma terceira: as localizações funcionais, ou seja: “ (...) Lugares determinados se definem para satisfazer não só a necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também de criar um espaço útil (...).”339

Exemplos dessas localizações podem ser verificadas no Seminário de Mariana, especificamente sob o Regulamento de D. Viçoso, no qual o dormitório era passível de vigilância; local onde se procurava evitar as comunicações. Também nessa época, definiu-se os espaços, de acordo com suas funcionalidades: o colégio (destinado aos alunos que não desejavam o estado eclesiástico); e o seminário propriamente dito (reservado aos candidatos ao sacerdócio).

Organizando os espaços, a disciplina pode ser vista como um poder que transforma

338TOMELIN, Victor. Pedagogia do silêncio. O tamanho do medo. Campinas: Papirus, 1986, p. 62. 339FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 123.

multidões confusas em multiplicidade organizada: “ (...) Trata-se de organizar o múltiplo, de se obter um instrumento para percorrê-lo e dominá-lo; trata-se de lhe impor ‘uma ordem’ (...).”340No que tange ao controle da atividade, destaca-se o horário, por intermédio de seus três processos: “ (...) estabelecer as cesuras, obrigar a ocupações determinadas, regulamentar os ciclos de repetição (...).”341 A regularização temporal das atividades diárias já fazia parte da vida dos mosteiros medievais e, mais tarde, dos seminários, como o de Mariana, entre os séculos XVIII e XIX:

Tabela da rotina diária do Seminário de Mariana, elaborada com base nos horários estabelecidos pelos Estatutos de D. Frei Manuel da Cruz

Horário Atividades Ao romper do dia

(horário não especificado)

Estudos nos cubículos

Não especificado Missa. Estudos nos cubículos

8:00 Aulas. Repouso

Não especificado Oração à Nossa Senhora. Estudos nos cubículos

15:00 Aulas. Recreação

Não especificado Ave Marias. Terço da Virgem Nossa Senhora Não especificado Estudos nos cubículos. Ladainha

Não especificado Ceia

Ordem nos dias de aula sob os Estatutos de D. Frei José da Santíssima Trindade

Horário Atividades 5:00 – 5:30 Adoração à Santíssima Trindade. Meditação. Missa

7:30 Almoço 8:00 Aulas (Latim; Filosofia)

12:00 Jantar. Obrigação de silêncio por duas horas 14:00 Vesperas para os ordenados in sacris

15:00 Aulas (Latim; Filosofia)

16:00 Matinas e laudes para os ordenados in sacris

16: 30 Recreação

19:00 Coroa da Mãe de Deus. Leitura do ponto de meditação para o dia seguinte 21:00 Ceia.

340FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 127. 341FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 128.

Ordem nos dias de aula sob o Regulamento de D. Viçoso

Horário Atividades 5:45 Atos da manhã em salões, ajoelhando-se no meio, um atrás do outro

6:00 Estudo com silêncio rigoroso

7:00 Missa. Almoço

8:00 Estudo com silêncio rigoroso

9:30 Aula por duas horas

11:45 Jantar. Recreação

15:30 Aulas por duas horas

17:30 Canto-chão para os eclesiásticos e recreação para os demais 18:00 Terço e lição espiritual por meia hora

18:30 Estudo com silêncio rigoroso

19:00 Ceia. Recreação

20:30 Exame. Recolhimento

22:00 Horário máximo permitido para o estudo.

Comparando-se as três tabelas, observa-se que, embora alguns horários determinados para certas atividades não sejam especificados na rotina diária prescrita pelos Estatutos de 1760, a divisão do tempo torna-se esmiuçante, na Ordem do Dia estabelecida pelo Regulamento de 1845: passa-se a contar por quartos de hora e as atividades aumentam.

Aproximadamente cem anos depois, tomando-se como exemplo o relato de Tomelin como interno do Seminário de Rodeio, o tempo disciplinar se fragmenta ainda mais: “(...) O almoço era precedido por uma visita de quinze minutos ao Santíssimo Sacramento. Após a refeição, voltávamos à capela para outra “visita” de cinco minutos, para agradecer (...).”342

Além da distribuição dos indivíduos no espaço e do controle das atividades, os instrumentos utilizados pelo poder disciplinar, entre os quais: a vigilância hierárquica e a sanção normalizadora serão abordados a partir de agora, tendo como referência o Seminário de Nossa Senhora da Boa Morte.

Na parte em que se tratou da história desse estabelecimento, entre a segunda metade do século XVIII e a primeira metade do século XIX, verificou-se o deplorável estado espiritual do estabelecimento fundado por D. Frei Manuel da Cruz, no período de Sede

vacante de D. Frei José da Santíssima Trindade. Talvez esse quadro tenha justificado a atitude de D. Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana, de repartir o seminário em seis grandes dormitórios: “ (...) os quais prestavam maior vigilância do que a divisão por cubículos.”343

Essa reforma, porém não atendeu apenas a melhoria da vigilância, mas também aumentou a capacidade do estabelecimento, para receber mais de cento e cinqüenta seminaristas. Mas, considerando o poder de atuar sobre aqueles que abriga, dominar seu comportamento, pode se afirmar que tal arquitetura: “(...) não é mais feita para ser vista (fausto dos palácios), ou para vigiar o espaço exterior (geometria das fortalezas), mas para permitir um controle interior (...) tornar visíveis os que nela se encontram (...).”344

Segundo PIMENTA (1920, pp.108-109), cada um desses seis dormitórios tinha um inspetor, o qual vigiava dia e noite sobre sua porção. E, esses seminaristas que eram incumbidos de vigiar seus colegas, certamente eram os que tinham melhor procedimento e já haviam interiorizado as regras do seminário. Essa vigilância constitui um instrumento de poder, o qual se baseia em uma hierarquia, pois parte de um “chefe”, o reitor , e se distribui entre os inspetores, que colaboram para a estabilidade institucional. Nesse sentido, as instituições totais procuram fazer com que os internados cooperem e aceitem o que lhes foi imposto: são os chamados ajustamentos primários. Esse termo criado por Goffman, diz respeito àquele interno que se tornou o colaborador da instituição, e que: “(...) deve ser não mais ou menos do que aquilo para o qual foi preparado, e é obrigado a viver num mundo que, na realidade lhe é afim – indivíduo com ajustamentos primários à organização.”345

No tocante à sanção normalizadora, funcionam nas instituições totais, de modo geral, vários tipos de micropenalidades, aplicáveis nos casos de: desobediência, tagarelice, sujeira, indecência, entre outras infrações. E, a punição consiste em: “ (...) toda uma série de

343CAMELO, Maurílio José de Oliveira. Dom Antônio Ferreira Viçoso e a reforma do clero em Minas Gerais

no século XIX. São Paulo: FFLCH/USP, 1986. Tese de Doutorado, p. 314.

344FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 144. 345GOFFMAN, Erwin. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo, Perspectiva, 1987, p. 160.

processos sutis, que vão do castigo físico leve a privações ligeiras e a pequenas humilhações (...).”346

No Seminário de Mariana, por exemplo, de acordo com os Estatutos de 1760, a desobediência é passível de severo castigo. Mas, como foi visto, tal castigo não é especificado, ao contrário dos Estatutos de 1821, nos quais são prescritas algumas micropenalidades, entre as quais, reclusão no cubículo por alguns dias. Pelo Regulamento de 1845, a indecência, expressa pela ofensa à castidade, constitui motivo de grave castigo. Os sistemas disciplinares das instituições totais representam um pequeno mecanismo penal, que possui suas formas peculiares de sanção e de julgamento: “ (...) As disciplinas (...) quadriculam um espaço deixado vazio pelas leis; qualificam e reprimem um conjunto de comportamentos que escapava aos grandes sistemas de castigo por sua relativa indiferença.”347

No interior da abordagem do sistema disciplinar enquanto um tipo de poder, no interior de instituições conhecidas como casas de educação, a exemplo do Seminário de Nossa Senhora da Boa Morte, verifica-se que a disciplina neste estabelecimento se manifesta por intermédio de imposições e de coações. E, tal fato, não deixa de conferir ao processo educativo um caráter autoritário.