Panorama Internacional
DISCIPLINAS HANDS-ON EM CURSOS DE ENGENHARIA
Luis Carlos Scavarda do Carmo *
A profissão de engenheiro tem evoluído com as contínuas mudanças que os
processos produtivos tem sofrido, principalmente ao longo do século 20 e os primeiros anos do século 21. Como conseqüência, as escolas de engenharia têm sido chamadas, com freqüência, a modificar a sua visão quanto à formação do engenheiro, bem como as metodologias educacionais envolvidas.
Após a segunda guerra mundial, as escolas de engenharia sofreram ao menos três grandes modificações:
1. A da formação científica do engenheiro, em face do contínuo uso de novas tecnologias baseadas em avanços científicos.
2. A da formação gerencial, em face da necessidade que engenheiros ocupem cargos administrativos.
3. A da formação de competências do tipo soft skills (habilidades não técnicas), em face do desenvolvimento do ambiente empreendedor das pequenas e médias empresas e de novas formas produtivas envolvendo várias empresas, muitas vezes de países diversos, portanto implicando, freqüentemente, comunicações de escopo inter cultural.
A formação científica do engenheiro levou à extensão das disciplinas de matemática, física, química e, mais recentemente, computação. Estas disciplinas básicas, ainda que essenciais, ocuparam fortemente os dois primeiros anos do curso de engenharia e distanciaram os estudantes iniciantes das práticas profissionais.
A formação gerencial e o desenvolvimento de habilidades não técnicas, também passíveis de serem adquiridos em disciplinas teóricas, são, entretanto, mais facilmente desenvolvidos em atividades práticas onde o aluno é protagonista e tem autonomia.
Estes soft skills envolvem:
facilidade de comunicação escrita e oral;
capacidade de trabalhar em grupo, muitas vezes com profissionais não engenheiros
freqüentemente vindos de outras culturas;
visão de mercado;
bom senso e avaliação de parâmetros como tempo e custo nos projetos;
comportamento empreendedor.
Recentemente a National Association of Colleges and Employers – NACE realizou
uma pesquisa de opinião nos Estados Unidos a respeito da visão atual de professores, industriais e estudantes sobre a educação em engenharia. A pesquisa foi encomendada pelo grupo que gerou o programa Learning Factory envolvido em disciplinas hands-on.4
A visão dos professores quanto aos estudantes (bastante negativa nesta pesquisa) e quanto a eles mesmos resume-se como:
4 O Learning Factory é um método educacional concebido pela Universidade de Washington, a Universidade do Estado da Pensilvânia e a Universidade de Porto Rico. Este grupo acaba de receber o Gordon Award em Educação em Engenharia, o mais alto prêmio oferecido pela Academia Americana de Engenharia (NAE), por seu sucesso em integrar o setor produtivo na escola de engenharia e oferecer um outro ambiente de formação além do da sala de aula.
Os estudantes nos anos finais do curso perderam curiosidade e criatividade;
Os estudantes esquecem os temas tratados em aulas teóricas do semestre anterior;
Experimentos hands-on exigem equipamentos que não possuímos;
Os professores devem ensinar teorias e conceitos básicos, enquanto as questões de cunho técnico devem ser aprendidas “na prática do trabalho”;
Os professores são premiados pela qualidade da pesquisa que fazem, pelos projetos que trazem para a universidade e não por suas atividades como educadores;
Professores não têm treino formal em pedagogia;
Professores raramente trabalharam antes na indústria.
A visão da indústria quanto às qualidades que o jovem profissional (recém formado) deve possuir resume-se a:
Habilidades de comunicação;
Honestidade;
Habilidades inter pessoais;
Motivação e iniciativa;
Ética no trabalho;
Habilidades para trabalho em grupo;
Habilidades analíticas;
Flexibilidade e adaptabilidade.
Um resumo da visão dos estudantes pode ser descrito como: Os estudantes não têm mais motivação por aulas puramente teóricas;
Os estudantes necessitam um ambiente onde possam complementar o aprendizado puramente teórico com um esforço de síntese e não de análise.
As disciplinas hands-on são projetadas para suprir as necessidades da formação moderna dos engenheiros e responder a algumas das críticas acima. Algumas características destas disciplinas, entretanto, são essenciais para seu sucesso:
A disciplina deve ser baseada em um objetivo, ou tema, que tenha uma clara relação com a realidade externa ao mundo universitário;
Deve existir um ambiente de interação entre a universidade e o setor produtivo;
O tema deve ser proposto pelo setor produtivo;
É necessária a integração de aspectos de projeto, de manufatura e da realidade de negócios no ambiente da disciplina;
Todo o sistema educacional precisa estar mais conectado com o aprender do que com o ensinar e os professores devem estar conscientes de sua missão de orientadores;
As soluções para os temas devem ser alcançadas por grupos de alunos que se habituem a trabalhar como equipe;
As equipes de alunos e os professores – orientadores envolvidos devem originar-se de departamentos distintos para que equipes multidisciplinares sejam forjadas. Vale comentar que os problemas reais dificilmente são resolvidos com visão disciplinar.
A formação dos engenheiros carece hoje de maior visão do mundo externo aos muros universitários. Os estudantes estão sujeitos a um grande acúmulo de aulas teóricas e mesmo os laboratórios oferecidos tratam de apresentar teorias e não problemas. As disciplinas hands-on correspondem a uma forma educacional conhecida como Project Driven Education e oferecem uma oportunidade importante de que problemas sejam apresentados aos alunos antes que o conhecimento específico esteja completamente dominado, situação que corresponde à realidade da vida profissional. Esta forma just in
time de aprender não substitui a educação seqüencial que forma a base da educação tradicional, mas a complementa adicionando questões do mundo real para o ambiente puramente acadêmico da Universidade.