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CAPÍTULO 3 – A DISCRICIONARIEDADE DO INTÉRPRETE E O PROBLEMA DA

3.2 A DISCRICIONARIEDADE DO ATO DECISÓRIO

Não é objetivo deste trabalho, até porque estaria cometendo enorme

impropriedade teórica, e até mesmo grande injustiça, acusar o pensamento

entabulado por Hans Kelsen, em sua matriz positivista (neopositivista), como o

único responsável (se é que isso é possível) pela discricionariedade dos

julgadores nos atos decisórios. O fato é que, após constatar que Kelsen advertiu

sobre a “armadilha” de a decisão consistir em ato de vontade criador (intérprete

autêntico), foram construídas, como já foi lembrado, diversas “respostas”

(“contestações”) teóricas ao seu modelo (mal compreendido na maioria das

vezes). Estas teorias denominadas de pós-positivistas, por sua vez, como

resposta à discricionariedade criaram mais discricionariedade.

Por uma questão didática, para não confundir, serão separadas em duas

partes a análise da discricionariedade do ato decisório: 1) na matriz teórica

kelseniana e 2) nas matrizes teóricas pós-positivistas.

3.2.1 Discricionariedade e neopositivismo (Hans Kelsen):

Dentre as heranças do pensamento kantiano sobre o de Hans Kelsen,

que influenciam na compreensão da concepção deste acerca do ato decisório,

está no fato daquele, em sua teoria crítica, promover a “cola do transcendental no

sujeito, e, nesse momento, ele passa a ser o lugar último e fundamento da

verdade”

388

.

Quando o mestre de Viena asseverou ser o ato de decisão um ato de

vontade, atribuindo ao sujeito (intérprete autêntico) através do seu “sentimento”

389

a capacidade de decidir, resta demonstrado, neste contexto, que “‘filosofia da

consciência’ e ‘discricionariedade judicial’ são faces da mesma moeda, (...)

388 STRECK, ob. cit., 2010, p. 18.

389 A expressão “sentença”, deriva do latim “sentire”, compreendido como “sentimento”. Isso até

hoje é professado por muitos processualistas, principalmente aqueles que ainda sustentam o “livre convencimento motivado do juiz”: e viva a discricionariedade!

reconstruindo-se, assim, o discricionarismo/decisionismo sustentado por Kelsen

na sua Teoria Pura do Direito”

390

.

Em análise sobre a questão da discricionariedade (neo)positivista, Lenio

Streck afirma o seguinte:

“Fica claro que a histórica aposta na discricionariedade, com origem bem definida em Kelsen e Hart, tinha o objetivo, ao mesmo tempo, de “resolver” um problema considerado insolúvel, representado pela razão prática “eivada de solipcismo” (afinal, o sujeito da modernidade sempre se apresentou conscinete-de-si-e-de-sua-certeza-pensante), e de reafirmar o modelo de regras do positivismo, no interior do qual os princípios (gerais do direito) – equiparados a “valores” – mostravam-se como instrumentos para a confirmação desse “fechamento”.391

“A essência da decisão discricionária reside na liberdade quanto a

vinculação jurídica, e como tal seria justamente o contrário, lógico e metodológico,

da decisão jurídica, da <<aplicação do direito>>”

392

. De sorte, que a

discricionariedade consiste no ato que se dissocia do direito em sua aplicação,

quando o julgador faz-se valer de sua “consciência”, como se a verdade estivesse

inserida apenas em seu universo, subjetivamente, capaz de construir, assim, o

“verdadeiro direito”.

O juiz coloca-se como alguém que apenas contempla o problema, como

se este não fizesse parte de sua realidade, na clássica cisão sujeito/objeto

393

,

típica da filosofia da consciência, e, portanto, a fundamentar a discricionariedade

do ato decisório. Acerca deste problema é precisa a análise de Carlos Cossio, ao

afirmar que:

“(...) la creación judicial de la sentencia por parte del juez hace ver com evidencia que este no es um ente extraño y separado del Derecho, que

390 STRECK, ob. cit., 2010, p.34. 391 Idem. Ibidem, p.89.

392 CASTANHEIRA NEVES, A. Digesta: escritos acerca do Direito, do Pensamento Jurídico,

da sua Metodologia e outros – volume 1º. Coimbra: Coimbra Editora, 2010, p.532.

393 “É justamente dessa relação que se originam os dois pontos de vista centrais da filosofia,

realismo e idealismo, assim como suas modalidades e mediações. (...) justamente o problema da relação sujeito-objeto com todas as suas variantes é o indício de que não se foi além do velho ponto de partida da Antiguidade e de que ainda não se tocou o problema central. Esse problema só pode ser formulado depois que se tiver compreendido que a questão da relação sujeito-objeto e, com maior razão, toda “teoria do conhecimento” repousam sobre o problema da verdade e não – como reza a opinião usual – o inverso”. (HEIDEGGER, Martin. Introdução à Filosofia. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p.65)

estuviera fuera del Derecho mirándolo e conociéndolo desde cierta distancia, cual si el Derecho fuera uma cosa conclusa y fija que pudiera tomar a voluntad para aplicar cuando llegare el caso, como quien asienta el sello sobre el lacre”394.

Ao se colocar “distante” do problema o juiz, sob uma perspectiva

(neo)positivista, enquanto sujeito que apenas observa o objeto, assenhora-se

deste para lhe “conferir” significado, propiciando-lhe criar o seu próprio objeto de

“conhecimento”.

Esta “postura” positivista, todavia, é passível a severas críticas, como a

formulada por Lenio Streck, ao considerar que:

“(...) há um ponto que marca definitivamente o equívoco cometido por todo o positivismo ao apostar em certo arbítrio (eufemisticamente epitetado como “discricionariedade”) do julgador no momento de determinar sua decisão: sendo o ato jurisdicional um ato de vontade, ele representa uma manifestação da razão prática, ficando fora das possibilidades de conhecimento teórico. Isso ainda não foi devidamente entendido pela(s) teoria(s) do direito”395.

Era necessário formular uma “resposta”, uma “contestação”, a este

“standard” teórico, característico do(s) positivismo(s). Não foram poucas estas

teorias, como já enunciado, todavia a formatação de um conjunto de proposições

teóricas, consignadas em torno da necessária reaproximação entre a moral e o

direito, denominada(s) de pós-positivismo chama a atenção.

3.2.2 A discricionariedade do(s) pós-positivismo(s)

A reaproximação entre o direito e a moral promovida pelas teorias pós-

positivistas,

entre

outras

consequências,

em

solo

denominado

neoconstitucional

396

, promove a reestruturação do conceito de norma jurídica,

394 COSSIO, ob. cit., 1964, p. 115. 395 STRECK, 2009, op. cit., p.420.

396 Sob uma perspectiva teórica e seu significado para Teoria do Direito, “El neoconstitucionalismo,

como teoría del Derecho, aspira a describir los logros de La constitucionalizácion, es decir, de esse processo que há comportado uma modificación de los grandes sistemas jurídicos contemporâneos respecto a los existentes antes del despliegue integral del processo mismo. El modelo de sistema jurídico que emerge de la reconstrucción del neoconstitucionalismo está caracterizado, además de por uma Constitución <invasora>, por la positivización de um catálogo de derechos fundamentales, por la omnipresencia em la Constitución de prncipios y reglas, y por algunas peculiaridades de la interpretación y a la aplicación de la ley.” (COMANDUCCI, Paolo. Formas de (Neo)Constitucionalismo: Um Análisis Metateórico. In CARBONELL, Miguel.

cindida em duas espécies: regras e princípios. Esta última responsável pela

(re)introdução da “moral” no “universo” da(s) teoria(s) do direito.

Eis o segundo “ovo da serpente”; a má compreensão do papel dos

princípios na teoria do direito! Esta pseudo “confusão” vai permitir a manutenção

da postura discricionária (arbitrária) do intérprete, agora repaginada, ou seja, sob

base argumentativa distinta, mas filosificamente mantendo a mesma postura

metafísica típica da filosofia da consciência, com a relação sujeito/objeto, entre o

juiz e a aplicação, cindindo esta da interpretação, como se atos distintos fossem

(primeiro interpreto, depois aplico, como se fosse possível interpretar se não for

para aplicar, vez que fazem parte de uma mesma dimensão).

Neste particular, sobressai a existência das teorias argumentativas,

destacando-se, entre outros, no Brasil, autores como Chäim Perelman, Klaus

Günther, Jürgen Habermas e, principalmente, Robert Alexy; que, embora

estrangeiros, têm suas obras traduzidas para português, angariando cada vez

mais adeptos.

Não será possível, até porque incompatível com o objeto central deste

trabalho, analisar as variáveis sugeridas por todos estes pensadores

contemporâneos, mas serão analisados os aspectos gerais que transitam entre as

teorias destes pensadores. É, porém, válido, neste ponto, transcrever a distinção

basilar formulada por Jürgen Habermas sobre regras e princípios, por ser

bastante ilustrativa acerca do papel assumido pela norma, para esses teóricos, ao

sustentar que:

“Regras e princípios também servem como argumentos na fundamentação de decisões, porém o seu valor posicional na lógica da argumentação é diferente. Pois regras contêm sempre um componente “se”, que especifica condições de aplicação típicas da situação, ao passo que princípios, ou surgem com uma pretensão de validade não-

Neoconstitucionalismo(s). Madrid: Editorial Trotta, 2003, p.83.). Ainda sobre a definição deste novel instituto, pode-se consignar que “(...) La expresión <neoconstitucionalismo> o <constitucionalismo avanzado> o <constitucionalismo de derechos> para designal el nuevo modelo jurídico que representa el Estado constitucional de Derecho que existe em algunos países europeos, como por ejemplo Italia, Alemania y Espanã. (...) estas constituciones <representam el intento de recomponer la gran fractura entre democracia y constitucionalismo> (...).” (ARIZA, Santiago Sastre. La Ciencia Jurídica ante el Neoconstitucionalismo. In CARBONELL, Miguel. Neoconstitucionalismo(s). Madrid: Editorial Trotta, 2003, p.239.)

específica, ou são limitados em sua esfera de aplicação através de condições muito gerais, em todo o caso carentes de uma interpretação”.397

Consigna-se, então, que independente da “perspectiva ou bandeira

teórica adotada, o problema persistirá, na medida em que não for superado o

esquema sujeito-objeto”

398

. A questão central, dessa forma, seta nitidamente

acentuada, independente da matriz teorética, nas condições pelas quais se dá a

atribuição de sentido no ato interpretativo-aplicativo

399

.

Como crítica última ao “exagero” multifacetado professado em torno dos

princípios, manifesta-se Lenio Streck, nos seguintes termos:

““Positivaram-se os valores”: assim se costuma anunciar os princípios constitucionais, circunstância que facilita a “criação” (sic), em um segundo momento, de todo tipo de “princípio” (sic), como se o paradigma do Estado Democrático de Direito fosse a “pedra filosofal da legitimidade principiológica”, da qual pudessem ser retirados tantos princípios quantos necessários para solvermos os casos difíceis ou “corrigir” (sic) as incertezas da linguagem”.400

Diante deste quadro, para entabulação de uma teoria da decisão, é

necessário perguntar-se: todas as respostas, então, são possíveis no Direito?

Existiriam respostas corretas? Qual o papel da argumentação jurídica na busca

pelas respostas corretas?

A partir destas incertezas analisadas, e do estágio de complexidade

colocado pela pós-modernidade, e com o escopo precípuo de desenvolver na

Teoria do Direito uma “verdadeira” teoria da decisão, nos próximos tópicos

buscar-se-á compreender os pontos fulcrais acerca das teorias argumentativas e

a proposta que Ronald Dworkin vai apresentar para a “procura” pelas respostas

corretas no Direito.

397 HABERMAS, 1997, op. cit., p.258. 398 STRECK, ob. cit., 2009, p.475. 399 Idem. Ibidem, p. 475.

3.3. TEORIAS DA ARGUMENTAÇÃO JURÍDICA, DISCRICIONARIEDADE E A