37 Cf Anexo b Reportagens afins – item I.
Capítulo 3 Estigma e percepção
3.1 Discriminação e poder
Agregando-se a isso, pensamos no fator que talvez seja o mais importante em relação às preocupações sobre substâncias psicoativas, que é o fato inquestionável de que elas produzem efeitos perceptivos, para além das reações neurofisiológicas, agindo sobre estados de ânimo e manifestações psíquicas de quem as consome. A depender da substância utilizada, o indivíduo ou o grupo de usuários pode constituir uma ameaça localizada ao bem-estar social e familiar, pode caracterizar uma emergência clínica particular, ou ainda, simplesmente, representar uma dissidência ideológica no terreno dos conflitos de ordem moral ou de identidade grupal. Por esses aspectos, a abordagem de Elias [ 2000] sobre a figuração estabelecidos-outsiders 50 é pertinente para analisar as diferentes situações que envolvem a aceitação ou a rejeição de usuários
50 A peça central dessa figuração é um equilíbrio instável de poder, com as tensões que lhe são inerentes. [...]
Um grupo só pode estigmatizar outro com eficácia quando está bem instalado em posições de poder das quais o grupo estigmatizado é excluído.
ELIAS, Norbert & SCOTSON, John L. Os estabelecidos e os outsiders. Sociologia das relações de poder a
de substâncias psicoativas. Reportemo-nos aos espetáculos de rock e música pop realizados em estádios e casas noturnas, e os baseados 51 podem fazer parte dos hábitos cotidianos de grupos estabelecidos; porém, em qualquer estádio brasileiro, durante um jogo de futebol, os mesmos cigarros de maconha estarão do lado dos outsiders.
Em dias de jogos de futebol, grande parte do público esportivo bebe considerável quantidade de cerveja nos bares, restaurantes e arredores, além do consumo de bebidas destiladas, configurando uma prática cultural legítima e amplamente difundida no Brasil. Ainda que a embriaguez alcoólica seja determinante em um número excessivo de casos de violência, em conflitos domésticos e em acidentes automobilísticos, esse hábito se reproduz como uma regra cultural aceitável. Podemos identificar aqui um tipo específico de figuração estabelecidos-outsiders, onde o cruzamento de elementos histórico-culturais em torno da legalidade do cânhamo e da cerveja se sobrepõe parcialmente aos interesses de grupo, principalmente em situações específicas de entretenimento e lazer. Nessas ocasiões, de um modo geral, o meio social tolera parcialmente a maconha e absolve totalmente a bebida alcoólica por razões não muito explícitas. I sso não ocorre em qualquer situação, como seria de se esperar, pois nas escolas e setores produtivos da sociedade, o repúdio ao consumo de maconha ou de bebida alcoólica é extremamente rigoroso.
Notavelmente, podemos situar esses hábitos de consumo, então, um pouco à margem dos mecanismos produtivos e dos valores intelectuais de organização dos grupos. As substâncias psicoativas anelam-se a uma dimensão que provoca estranheza junto ao regular funcionamento social, cujos cuidados e parâmetros nos remetem à sanidade ou higiene mental da população. Entretanto, não são totalmente menosprezadas por isso, pois se conjugam com disposições afetivas, propósitos estéticos, interesses espirituais e divertimento. Em vista dessa característica plural, podem ocupar um lugar privilegiado na identidade de grupos heterogêneos. Seu paradoxo reside nas construções interpretativas, nos estereótipos que se criam em torno de sua utilização, promovendo certa equivalência entre sujeitos usuários que consomem e a substância consumida, cristalizando estigmas sobre determinadas práticas ou provocando atitudes desafiadoras.
A estigmatização, como um aspecto da relação entre estabelecidos e outsiders, associa-se muitas vezes a um tipo específico de fantasia coletiva criada pelo grupo estabelecido. Ela reflete e, ao mesmo tempo, justifica a aversão – o preconceito – que seus membros sentem perante os que compõem o grupo outsider. [ ...] I sso ilustra muito vividamente a operação e a função das crenças do establishment a respeito de seus grupos outsiders: o estigma social
que seus membros atribuem ao grupo dos outsiders transforma-se, em sua imaginação, num estigma material – é coisificado 52.
O uso das substâncias ilícitas, assim como o abuso das substâncias lícitas, nas sociedades modernas, está basicamente associado à marginalidade, à doença, à falta de higiene e disciplina, e remete os distribuidores e usuários à degradação moral do ponto de vista do establishment. Elas tomam forma de estigmas no imaginário coletivo de um modo geral e constituem critério para exclusão em diferentes situações de grupo, sendo nomeadas como droga, um termo que adquiriu caráter nebuloso e pejorativo. De uma instigante designação para as substâncias que apresentam dupla face, seu aspecto de remédio ou de medicamento inevitavelmente associado ao de veneno ou de tóxico, o termo droga na atualidade é utilizado para apontar coisas ruins ou maléficas, ganhando com isso uma tarja preta de produto tóxico e proibido, sob o prisma da justiça, das disposições morais e medicinais. Os ditos drogados são equiparados às drogas, caindo rapidamente no descrédito dos grupos sociais, e submetendo-se a todo tipo de exclusão ou isolamento, seja por opção ou por diferentes graus de dependência às substâncias. Em outras palavras, o estigma passa tanto por um nível ideológico e moral, relacionado aos modos de consumo e seus meios, independentes da noção de inclusão e produtividade, quanto por um enquadre mórbido, que ganha forma na doença e está sujeito às várias possibilidades de tratamento clínico e disciplinar.
As substâncias são produto e objeto de consumo como qualquer outro do ponto de vista das regras de mercado. No entanto, a partir das atribuições deletérias sobre seus efeitos, prestam-se para gerar repugnância e coisificar os sujeitos e grupos que delas fazem uso. É bem evidente que aquela parcela da população que faz uso de medicamentos psicotrópicos, ainda que sob prescrição médica, pelo estigma próprio às doenças de ordem mental, sofre quase o mesmo tipo de rejeição social que os usuários de cocaína. A questão da higiene mental e do senso comum sobre os hábitos cotidianos prevalece acima de tudo como forma de manutenção do status social. Sobrepõe-se a isso outra forma de exclusão, nos casos em que ocorre cruzamento de elementos étnicos e raciais junto aos hábitos, como se observa nas comunidades hispânicas ou de origem africana em certos países da América, quando de suas associações arbitrárias com a produção e consumo de cocaína e maconha.
Ao compararmos aspectos econômicos e políticos de organização social, desde os primórdios da era moderna até a atualidade, observamos que muitas das condições elementares de
distribuição de riquezas e poder entre os povos permanecem as mesmas, assim como os problemas de discriminação entre grupos étnicos e raciais, apesar dos esforços no sentido do estabelecimento de regimes democráticos e das magnas cartas pela igualdade dos direitos humanos. Bauman [ 1998] expõe a faceta perversa da desigualdade social na pós-modernidade, tocando justamente em um dos possíveis lugares que o consumo das substâncias psicoativas pode ocupar.
Convertidos nos proscritos de uma florescente sociedade de consumidores seduzidos, transformados em uma classe baixa sem um lugar atual ou em perspectiva na sociedade, e privados dos meios legalmente reconhecidos de acesso aos bens saudados como os valores supremos da vida agradável, os pobres tendem a lançar mão das drogas, esses sucedâneos (ilegais) do pobre para os instrumentos do êxtase consumidor do rico 53.
Localizamos um consumo marginal ou libertino nessa afirmação, associado normalmente à criminalidade e à organização de estados paralelos, porque ainda hoje podemos escutar o efeito da exclusão da loucura atrelada à miséria e à discriminação de grupos humanos. De certo modo, as sociedades pagam o preço pelo abandono dos menos favorecidos, ainda que procurem novas formas de inclusão. Porém, será que não lhes é destinado precisamente satisfazer- se dessa maneira, como forma de manter a figuração estabelecidos-outsiders, observada por Elias, por um tempo não determinado? Na atual conjuntura, grandes corporações, grupos hegemônicos e países que apresentam maior tradição e coesão interna administram a economia e a política internacional, monopolizando recursos e veículos de comunicação, e destinando aos demais algumas regras e crenças que zelam pela ordem estabelecida.
Se o comércio e o consumo de substâncias psicoativas ilícitas, ou drogas, estão inseridos mais comumente no âmbito da miséria e precariedade de grupos outsiders [ guetos, favelas, subúrbios] , fica reforçada a tese de que essa forma de loucura não deve ter, a princípio, relação nenhuma com as classes dominantes. Por essa razão, as substâncias ilícitas e as políticas proibicionistas que as recobrem estão imbuídas de uma utilidade moralista dentro dos sistemas econômicos no panorama mundial. Além disso, ocupam o lugar das substâncias maléficas ou vilãs dentre as diferentes psicoativas, uma vez que a hegemonia do saber sobre os medicamentos e similares pertence a categorias solventes ao sistema capitalista.