O que seria o princípio da vedação ao retrocesso? RESPOSTA
Também denominado “efeito cliquet”, "proibição de contrarrevolução social", "proibição de evolução reacionária", "eficácia vedativa/impeditiva de retrocesso" e "não retorno da concretização", o princípio da vedação ao retrocesso proíbe a redução injustificada do grau de concretização alcançado por um direito fundamental prestacional. Costuma ser invocado tanto como limite extrajurídico oponível ao Poder Constituinte originário, quanto como limite jurídico imposto aos poderes públicos encarregados da concretização dos direitos fundamentais de caráter prestacional. Nesse sentido, teria por finalidade impedir a extinção ou redução injustificada de medidas legislativas ou de políticas públicas adotadas para conferir efetividade às normas jusfundamentais.
A doutrina e a jurisprudência elencam atualmente 4 vertentes (ou dimensões) do princípio da proibição do retrocesso. Vejamos:
1) Vedação do retrocesso social: Segundo o voto do Min. Celso de Mello no MS 24.875, a vedação do retrocesso social pode ser encarada como “o postulado da proibição do retrocesso social, cuja eficácia impede – considera a sua própria razão de ser – sejam desconstituídas as conquistas já alcançadas pelo cidadão, que não pode ser despojado, por isso mesmo, em matéria de direitos sociais, no plano das liberdades reais, dos níveis positivos de concretização por ele já atingidos”.
2) Vedação do retrocesso político: O princípio da vedação do retrocesso político foi mencionado pela Min. Cármen Lúcia ao julgar a medida cautelar na ADI 4.543 que dispunha sobre a volta do “voto impresso”. Para a Ministra do Supremo Tribunal Federal, “a proibição de retrocesso político-constitucional impede que direitos conquistados como o da garantia do voto secreto pela urna eletrônica retrocedam para dar lugar ao modelo superado do voto impresso” (STF, ADI 4.543-MC, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgamento em 19/10/2011, Plenário; grifo nosso). 3) Vedação do retrocesso civil: Ao julgar, no ano de 2017, a (in)constitucionalidade da desigualdade sucessória conferida pelas Leis 8.971/94 e 9.287/96 em cotejo com o Código Civil de 2002, o Ministro Luis Roberto Barroso reconheceu que “O Código Civil foi anacrônico e representou um retrocesso vedado pela Constituição na proteção legal das famílias constituídas pela União Estável” (STF, RE 878.694/MG, Voto do Min. Luis Roberto Barroso). Neste julgamento o STF fixou a seguinte tese: “é inconstitucional a distinção de regimes sucessórios entre cônjuges e companheiros prevista no art. 1.790 do Código Civil de 2002, devendo ser aplicado, tanto nas hipóteses de casamento quanto nas de união estável, o regime do artigo 1.829 do CC/2002”. 4) Vedação do retrocesso ecológico: Ao se deparar com diversos julgamentos, como por exemplo as ações diretas de inconstitucionalidade sobre o Novo Código Florestal, a doutrina e até mesmo os tribunais superiores reconhecem a existência da proibição do retrocesso em sua vertente ambiental, qual seja, a vedação ao retrocesso ecológico (termo utilizado pelo doutrinador ambientalista Paulo Leme Machado).
#DISCURSIVA - Diretos Difusos - Há algum conceito normativo para a população
em situação de rua? O que seria grupo heterogêneo de pessoas? Há serviços
socioassistenciais específicos para pessoas em situação de rua? (nov 2019)
RESPOSTA
Sim. Esse conceito é previsto no Decreto Federal 7.053/09, que, no seu art. 1º, Parágrafo Único dispõe “para fins deste Decreto, considera-se população em situação de rua o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória.”
Grupo heterogêneo seria um grupo de pessoas que veem de diferentes realidades, dotadas de diferentes características, possuindo diversas necessidades distintas, pessoas dos mais variados gêneros, idades e que estão em situação de rua por diversas razões. Vale pontuar que apesar de todas essas pessoas ter uma característica que os une, qual seja, a situação de rua vivenciada, suas realidades são demasiadamente distintas, o que não pode ser desconsiderado.
De acordo com o a Política Nacional para a População em Situação de Rua, estabelecida por um decreto federal, à qual podem aderir Estados e Municípios, os entes federativos devem implementar serviços socioassistenciais específicos, a exemplo de centros de referência especializados para atendimento da referida população, programas de qualificação profissional e serviços de acolhimento temporário.
No âmbito do Estado de São Paulo, a Lei Estadual 16.544 de 2017 institui a Política Estadual de atenção específica para população em situação de rua de forma bastante similar à já estabelecida no decreto federal, elencando ainda como ações assistenciais o apoio e sustentação aos programas de habitação social que atendam à população em situação de rua, com o acompanhamento social desenvolvido por equipe multidisciplinar, nos períodos anterior e posterior à ida para o imóvel. Além disso, a política estadual ressalta a descentralização e articulação com os municípios para a oferta de serviços assistenciais, bem como estabelece a possibilidade de convênios com entidades públicas e privadas para execução de projetos que beneficiem a população em situação de rua.
Os serviços socioassistenciais voltados para as pessoas em situação de rua são também definidos pela Resolução n. 109, de 11 de novembro de 2009, do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), e podem ser assim elencados: A) Serviço especializado em abordagem social; B) Serviço especializado para pessoas em situação de rua; C) Serviço de acolhimento institucional; e D) Serviço de acolhimento em república.
PARECER
#Parecer (nov 2019)
Foi elaborada consulta pela associação de bares e restaurantes locais do Município solicitando o fim do horário limite para funcionamento de bares e restaurantes, previsto em Lei Municipal, bem como a impossibilidade de fiscalização com guardas municipais armados, visto que ilegal tal possibilidade em razão do Município ter população de apenas 400 mil habitantes.
Como Procurador, redija um parecer sobre o tema.
Sobre o tópico 1, mister salientar que é competência sim do Município, que está atuando dentro da sua esfera de competência, por se tratar de assunto estritamente local. Vejamos o que dispõe a Carta Magna sobre o tema: Art. 30. Compete aos Municípios: I - legislar sobre assuntos de interesse local.
O Supremo Tribunal Federal possui firme jurisprudência reconhecendo a constitucionalidade de tais legislações, in verbis: É competente o Município para fixar o horário de funcionamento de estabelecimento comercial.
Por se tratar de súmula vinculante, o Poder Judiciário é obrigado a cumprir tal decisão, sob pena de reclamação ao STF. Vejamos o que dispõe a Lei 11.417: "O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, editar enunciado de súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma prevista nesta Lei".
Sobre o tópico 2, existe a possibilidade de armamento por parte da guarda municipal. Vejamos o que dispõe o Estatuto Nacional: "Art. 16. Aos guardas municipais é autorizado o porte de arma de fogo, conforme previsto em lei".
No entanto, o estatuto do desarmamento veda que municípios com menos de 500 mil habitantes tenham a guarda municipal com armas.
Foi proposta uma ADI (5948) sobre o tema, existindo atualmente uma medida cautelar. Vejamos o teor: " Diante do exposto, nos termos dos arts. 10, § 3º, da Lei 9.868/99 e 21, V, do RISTF, CONCEDO A MEDIDA CAUTELAR PLEITEADA, ad referendum do Plenário, DETERMINANDO A IMEDIATA SUSPENSÃO DA EFICÁCIA das expressões das capitais dos Estados e com mais de 500.000 (quinhentos mil) habitantes, no inciso III, bem como o inciso IV, ambos do art. 6º da Lei Federal nº 10.826/2003".
Desta forma, a limitação por população foi afastada. Obs.: tanto a AGU como a PGR se manifestaram no sentido de considerar legítima a proibição prevista no estatuto do desarmamento, mas a ADI ainda não foi definitivamente julgada.
Bons Estudos! Equipe CTPGE