1 REFERENCIAL TEÓRICO
1.3 DISCURSIVIDADE, RESPONSIVIDADE E DIALOGISMO
A produção e a compreensão de enunciados nas diversas interações são relações dialógicas, ou seja, os enunciados se constituem e funcionam por meio das diferentes relações intersubjetivas e dialógicas que os configuram e determinam seu funcionamento nas diferentes esferas sociais de comunicação. O enunciado como unidade real da comunicação não é uma unidade objetiva e convencional, mas discursiva e intersubjetiva, posto que os limites dos enunciados são determinados pela alteridade. Nas interações sociais, os enunciados funcionam como “um elo da cadeia muito complexa de outros enunciados” (BAKHTIN, 2003 p. 291). Dessa forma, compreender o dialogismo26 bakhtiniano é buscar desconstruir as inter-relações enunciativas
que se constroem interativamente, já que nossos enunciados mantêm relação dialógica com outros enunciados já ditos e ainda com enunciados convocados a se constituírem, isto é, os enunciados estão em constante inter-relação com enunciados outros.
26 “O dialogismo se faz presente nas obras do Círculo de 3 maneiras distintas: (a) como
princípio geral do agir [...]; (b) como princípio da produção dos enunciados/discursos [...] e (c) como forma específica de composição de enunciados/discursos, opondo-se à forma de composição monológica [...]”. (SOBRAL, 2007, p. 106).
Com isso, os enunciados se articulam como formas sociais de comunicação, que, quando relativamente tipificadas, se organizam como gêneros do discurso.
A compreensão dos enunciados é inseparável de sua situação de interação, ou seja, significações enunciativas não são fixas, impermeáveis ou abstratas, mas são essencialmente situadas socialmente. Significação e interação funcionam conjuntamente na produção de sentidos dos enunciados. Para Bakhtin (2006, p. 135-136),
A multiplicidade das significações é o índice que faz de uma palavra uma palavra [...]. Sua significação é inseparável da situação concreta em que se realiza. Sua significação é diferente a cada vez, de acordo com a situação. [...] A significação é o estágio inferior da capacidade de significar. A significação não quer dizer nada em si mesma, ela é apenas um potencial, uma possibilidade de significar [...]. Compreender a enunciação de outrem significa orientar-se em relação a ela, encontrar o seu lugar adequado no contexto correspondente. A cada palavra da enunciação que estamos em processo de compreender, fazemos corresponder uma série de palavras novas, formando uma réplica. Quanto mais numerosas e substanciais forem, mais profunda e real é a nossa compreensão. [...] na verdade, a significação pertence a uma palavra enquanto traço de união entre os interlocutores, isto é, ela só se realiza no processo de compreensão ativa e responsiva. A significação não está na palavra nem na alma do falante, assim como também não está na alma do interlocutor. Ela é o efeito da interação do locutor e do receptor [...].
Em O Problema do Texto na Lingüística, Filologia e Outras Ciências Humanas, Bakhtin (2003, p.323) revisita o aspecto dialogizante do discurso, discutindo que as relações dialógicas do discurso são apenas possíveis a partir de enunciados integrais de determinados sujeitos desse discurso. São relações que não estão reduzidas às relações lógicas (sintático-composicionais). Onde não há discurso não há relações dialógicas, ao passo que estas não podem ser constituídas por meio de objetos ou grandezas lógicas.
É sob essa perspectiva que Bakhtin apresenta aspectos sobre autoria e discursividade bivocalizada. O discurso bivocal é introduzido pelo autor sob o ângulo da comunicação dialógica, isto é, sob o plano do discurso, especificando que o discurso bivocal orienta-se para o objeto do discurso como também para o discurso do outro.
Essa dupla orientação do discurso materializa-se nos enunciados e, por conseguinte, pressupõe uma autoria enunciativo-discursiva. “A palavra como ato [...]. A sensação de si mesmo e do outro na palavra” (BAKHTIN, 2003, p. 320). Segundo pressupostos de Bakhtin (2002; 2003; 2006), todo sujeito se constitui a partir da interação que estabelece com o outro, isto é, é a interação que se processa entre o eu e o outro que define o eu como sujeito. O autor argumenta que é a partir do discurso do outro que o sujeito se constitui na sociedade. Além disso, Bakhtin (2002; 2003; 2006) afirma que a tomada de consciência do sujeito quanto ao seu discurso e seu papel também se dá a partir dessa interação dialógica intersubjetiva do eu com o outro.
Para Bakhtin (2003)
[...] avaliamos a nós mesmos do ponto de vista dos outros, através do outro procuramos compreender e levar em conta os momentos transgredientes à nossa própria consciência: desse modo, levamos em conta o valor da nossa imagem externa do ponto de vista da possível impressão que ela venha a causar no outro – para nós mesmos esse valor não existe imediatamente [...]. Consideramos o fundo às nossas costas, isto é, tudo o que nos rodeia, o que não enxergamos imediatamente, não conhecemos e não tem para nós importância axiológica direta, mas, pelo visto, é significativo e conhecido aos outros, o que vem a ser uma espécie de fundo em que os outros nos percebem axiologicamente, no qual nos manifestamos para eles [...]. (p. 13-14).
Dessa forma, o discurso implica dialogismo e responsividade27, visto que “a palavra é interindividual” (BAKHTIN, 2003, p. 327) e todo discurso pressupõe audibilidade. O discurso materializado na forma de enunciados é compreendido dialogicamente, isto é, a compreensão dos enunciados se dá a partir de suas relações dialógicas com outros enunciados e da relação de responsividade do locutor frente aos enunciados que produz e compreende. Para Bakhtin (2003), “a compreensão28 responsiva do sentido do conjunto discursivo é sempre de índole dialógica” (p. 332). Em suma, a compreensão dos enunciados e das relações entre eles é dialógica e demanda responsividade, posto que “a compreensão do enunciado pleno é sempre dialógica” (BAKHTIN, 2003, p. 331).
Após a breve discussão acerca dos conceitos basilares que sustentam a pesquisa, partimos para a seção a qual se apresentam (a) considerações acerca da apresentação da proposta do método sociológico de Bakhtin e a (b) a contextualização dos jornais cujas notícias constituem nossos dados de pesquisa.
27 “O Círculo não aceita que as categorias de percepção e/ou de pensamento possam existir
fora da situação concreta dos sujeitos que percebem e/ou pensam ou que existam em sua consciência entendida como instância a-social e a-histórica”. (SOBRAL, 2007, p. 106).
28 “A busca da compreensão das formas de produção do sentido, da significação, e as
diferentes maneiras de surpreender o funcionamento discursivo impeliram Bakhtin na direção de uma estética e de uma ética da linguagem que, mesmo tendo nos estudos a respeito de Rebelais e Dostoiévski um elevado grau de sistematização e, no gênero romance, o ápice da elaboração, não deixaram de examinar também a sistematicidade do discurso cotidiano, contribuindo, portanto, para uma nova perspectiva a respeito da linguagem humana e de seus estudos. Se os termos sentido e significação têm, para os estudos lingüísticos em geral, diversas possibilidades de enfoque, no quadro da produção de Bakhtin, tanto nas obras que são por ele assinadas quanto nas que lhe são atribuídas apesar das várias assinaturas, a dificuldade de situar esses conceitos é bastante grande, levando-se em conta o fato de Bakhtin ter diante do mundo e particularmente diante da linguagem uma postura que articula estética, ética e diferentes pressupostos filosóficos, não permitindo que suas reflexões sobre o sentido sejam sistematizadas unicamente sob uma perspectiva lingüística ou mesmo lingüístico- literária” (BRAIT, 2005, p. 87-88).
A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua (BAKHTIN, 2006, p. 127).
II METODOLOGIA
Este capítulo apresenta o percurso metodológico da pesquisa e organiza- se a partir de duas seções (a) discussão acerca do o método sociológico de Bakhtin que subsidia essa pesquisa e (b) contextualizações sobre os jornais que foram selecionados os enunciados do gênero para investigação. Assim, a partir da inserção desta pesquisa no grupo de pesquisa “Os gêneros do discurso: práticas pedagógicas e análise de gêneros” que se integra a duas linhas de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Lingüística da UFSC, a nomear, “Texto e Ensino” e “Corpora e Gênero: Análises e Aplicações”, este trabalho tem como objetivo geral apresentar uma análise descritivo- interpretativa do gênero notícia, visando à compreensão de seu funcionamento e constituição na esfera social do jornalismo impresso.
Com base nesse objetivo, a pesquisa do gênero notícia seguiu os referenciais metodológicos da Análise Dialógica do Discurso (ADD) propostas por Bakhtin e ancoradas em sua concepção dialógica da linguagem. Objetivamos, dessa forma, uma análise sociológica das formas da língua, partindo de sua dimensão social para se chegar à dimensão lingüística, posto que “as formas e os tipos de interação verbal [estão] em ligação com as condições concretas em que se realizam” (BAKHTIN, 2006, p. 126).
Em síntese, para proceder à análise dos dados, procuramos seguir um estudo de gêneros do discurso de cunho dialógico, analisando seus enunciados a partir de um panorama discursivo, valorativo e ideológico.
2.1 O MÉTODO SOCIOLÓGICO DO CÍRCULO DE BAKHTIN – POSTURA