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4.1 Percalços da política ambiental brasileira e o golpe de 2016

4.1.1 Discursividade sobre a mudança estrutural

Os políticos e os integrantes do setor econômico, através de empresas e de indústrias bem como suas entidades de classe, que foram fonte no período sob análise utilizaram a expressão “crise” ao referenciar a situação econômica estadual ou de país. A seguir (QUADRO C), estão os fragmentos que abordam a questão nacional:

QUADRO C: A reprodução da crise em nível nacional no discurso do CP

Setor econômico Agenda econômica está no debate. “A presidente Dilma Rousseff precisa de nova agenda econômica e fazer um reordenamento político para tirar o país da crise,” afirmou ontem o cientista político [...] em evento promovido pela Braskem no British Club, na capital. [...]. (CP, 30 jan. 2016).

Fiergs pede fim do impasse. A Federação das Indústrias do RS (Fiergs) exige solução imediata para a crise política do país. Segundo a entidade, a “economia não pode esperar”. [...]. Também a Federasul e a Associação Comercial de Porto Alegre divulgaram notas comentando a gravidade do momento e dizendo que a situação

106 Partido Social Liberal.

107 Disponível em: <https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/pol%C3%ADtica/bolsonaro-enfatiza-

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brasileira está colocando a economia em xeque. [...]. A entidade afirma que “é com um Judiciário forte que se faz uma nação forte”. [...]. (CP, 19 mar. 2016).

Com o afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República, a Confederação Nacional da Industria (CNI), divulgou comunicado ontem dizendo que o aumento da participação privada, já sinalizada por integrantes da equipe de Michel Temer, abrirá caminho para a modernização da infraestrutura brasileira. [...]. (CP, 13 mai. 2016). [...]. A expectativa da Firjan [Federação das Indústrias do Rio de Janeiro] é que o Congresso seja convocado a dar sua contribuição por meio da aprovação de “projetos que recoloquem o Brasil no caminho do desenvolvimento econômico e social”. A entidade destacou a fixação de metas para a dívida pública e um amplo programa de venda de ativos públicos. (CP, 13 mai. 2016).

O primeiro ato do presidente [...] foi assinar a medida provisória (MP) que cria um Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) para cuidar da execução de projetos de infraestrutura considerados prioritários para o país. [...]. (CP, 13 mai. 2016). Correio do Povo [...]. Enquanto os governantes não melhorarem a qualidade do gasto público, com um

planejamento estratégico e não apenas de custeio imediato da máquina administrativa, o país continuará à margem do seu grande potencial econômico. (CP, 23 mar. 2016, editorial).

Sob nova gestão. [...]. Dilma Rousseff, de acordo com a decisão do Senado Federal, foi afastada por 55 votos contra 22. Michel Temer (PMDB) assume sob a expectativa de que possa empreender novos rumos para o país. [...]. A promessa de cortar gastos não relacionados com a atividade-fim do poder público estabelece uma expectativa que, se frustrada, poderá provocar o afastamento entre governo e sociedade, que não tolera mais pagar altos tributos e não ter o retorno condizente em matéria de serviços. [...]. O Brasil não tem mais tempo a perder. (CP, 13 mai. 2016, editorial).

Políticos Na expectativa pela queda da presidente Dilma Rousseff, a cúpula do PMDB, partido do vice, Michel Temer, tem prontas e divulga em todos os diretórios regionais as propostas que pretende implementar para enfrentar a crise, caso Temer se torne o presidente. [...]. O modelo Temer aponta na necessidade de reformas na Constituição [...]. No quesito desenvolvimento, a aposta do partido é pela execução de uma política centrada na iniciativa privada, [...]. [...]. O deputado federal Alceu Moreira (PMDB) [...]. [...]. “[...]. Então, por exemplo, vai ser preciso reduzir o tamanho do estado e acabar com o atual modelo de ‘vagabundização’ remunerada que gera direito social sem obrigação de produção. Agora, quanto à taxa de juros, não se reduz por decreto, não.”. (CP, 27, mar. 2016).

[...] o ex-ministro Eliseu Padilha (PMDB) é claro quando fala sobre a montagem do eventual futuro governo peemedebista. [...]. Sobre o número de ministérios, Padilha diz que Temer gostaria de realizar um corte que mantivesse apenas 19 pastas [de 31]. “Era o ideal. É o número de prédios da Esplanada dos Ministérios, mas não é bem assim, partidos iam ficar de fora. Muitos interesses foram importantes, agora, no impeachment. Então, interesses estão sendo considerados. Vai subir (número de ministérios). Não sabemos quanto, mas vai subir.” [...]. (CP, 1 mai. 2016).

FONTE: a autora.

No Rio Grande do Sul, o CP fez circular a agenda do governo Sartori (PMDB, 2015- 2018) nas notícias, nas opiniões/editoriais bem como nos “apedidos” sobre as tidas como urgentes mudanças a serem implantadas. Na sequência (QUADRO D), estão os fragmentos que abordam a questão estadual:

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QUADRO D: A reprodução da crise em nível estadual no discurso do CP

Governo Patrimônio à venda. Governo quer faturar R$ 100 milhões. [...]. Em tempos de crise, qualquer corte de despesa e entrada de dinheiro no caixa é bem-vindo. Por isso, uma das prioridades do governo do Estado é concluir o levantamento do patrimônio para diferenciar o que é útil do que pode ser vendido. A previsão é de leiloar 200 imóveis [...]. [...]. (CP, 26 dez. 2015).

Base de Sartori levanta bandeira da privatização. [...]. A defesa aberta da redução do papel do Estado foi feita por deputados da base em entrevistas e na tribuna da Assembleia. Eles argumentam que a venda de estatais resolveria os problemas de caixa do Estado, além de tornar os serviços mais eficientes sob a administração da iniciativa privada. [...]. (CP, 14 fev. 2016).

O RS amanheceu ontem com a decretação de estado de calamidade financeira na administração estadual. Assinado pelo governador José Ivo Sartori [...] tem como principal ponto o artigo 2º., que estabelece que secretários e dirigentes de órgãos e entidades da administração podem “adotar as medidas excepcionais necessárias à racionalização de todos os serviços públicos, salvo os considerados essenciais, mediante a edição de atos normativos”. [...]. O principal, contudo, na avaliação de [um professor] é que o decreto pode propiciar a suspensão de providências contra o gestor, previstas na lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) caso haja descumprimento de limites referentes a despesas e prazos. “Sem dúvida, a medida tem um efeito psicológico sobre a população.” [...]. (CP, 23 nov. 2016).

Empresas O ex-ministro do Desenvolvimento (2003-2007) e presidente do Lide Internacional, Luiz Fernando Furlan, afirmou [...] que o empresariado brasileiro está otimista com eventual mudança na Presidência da República. [...]. O Lide é um grupo que reúne empresas e líderes de diversos segmentos da economia, sendo considerado importante fórum empresarial. [...]. Sobre o possível governo de Temer, Furlan defendeu a adoção de medidas fortes, com austeridade e reformas como no sistema previdenciário. [...]. [...] a Lide promete ter posição propositiva em relação ao atual momento econômico e financeiro do país e do Estado. [...]. (CP, 7 mai. 2016).

Na história da Federação das Associações Comerciais e de Serviços do RS (Federasul) a empresária Simone Leite é a primeira mulher a chegar ao topo do comando da entidade criada e 28 de outubro de 1927. [...]. Do governo do Rio Grande do Sul, Simone Leite espera reforma da previdência e redução da carga tributária para tornar o Estado competitivo em relação aos demais na guerra fiscal [...]. [...]. Michel Temer, avalia [...], tem inclinação mais pró-mercado que Dilma Rousseff. Isso sugere menor intervenção do governo no setor privado, maior agenda de concessões na infraestrutura, alianças comerciais [...] e fortalecimento das agências reguladoras. O Estado, afirma Simone, passará a ter papel de indutor do crescimento, e não mais planejador, organizador e definidor da aplicação de recursos da economia. [...]. (CP, 15 mai. 2016).

[...]. Para o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) [...]. [...] defende menos burocracia, mais abertura para parcerias público-privadas, investimentos na área da logística, redução da máquina estatal, modernização da legislação previdenciária [...] e atualização das leis trabalhistas. [...]. [...] também pede bom senso do governo quanto às exigências que são feitas ao setor industrial. Ele exemplifica que as empresas tiveram que dar conta de executar planos de prevenção contra incêndio, programas de acessibilidade, exigências ambientais e normas reguladoras do Ministério do Trabalho. “A indústria não tem mais como atender isso na velocidade que as coisas são estabelecidas. [...] precisamos de prazo para viabilizar. [...].” (CP, 25 mai. 2016).

Entidades que representam o empresariado se pronunciaram favoráveis ao pacote de medidas apresentado pelo governador José Ivo Sartori (PMDB). A Federação das Indústrias (Fiergs) considerou as ações como um “esforço de enxugamento da máquina estatal que se faz necessário”. O presidente da entidade [...], apontou que “a falência das finanças públicas estaduais já estava prevista desde 1989, quando a Fiergs lançou o

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estudo que ficou conhecido como Relatório Sayad”, [...]. A Federasul, por nota, declarou apoio [...]. O texto fala em “sacrifícios necessários” para que o Estado saia da situação de dificuldade financeira. [...]. (CP, 23 nov. 2016).

Correio do Povo Não é de hoje que a sociedade discute a qualidade do gasto público. Quando ele é realizado apenas para manter a máquina administrativa diz-se que foi aportado para a atividade-meio. Se ele é destinado para serviços importantes para a população, como nas áreas de saúde, educação, saneamento, segurança pública e inovação, temo-lo como carreado para a atividade-fim. [...] há que se remunerar o trabalho dos servidores, por exemplo, mas ele deve ficar restrito ao necessário. Assim, há que se gerir verbas orçamentárias com probidade e eficiência para que elas possam ser empregadas de forma eficaz em atividades que se revelem benéficas para a economia. (CP, 15 mai. 2016, editorial).

Legislativo A Assembleia Legislativa concentra [...] as pressões a respeito da votação do pacote de medidas lançado pelo governo do Estado. As assessorias técnicas [...] estão debruçadas sobre o conteúdo das sete Propostas de Emenda Constitucional (PEC’s), 11 projetos de Lei (PL’s) e quatro Projetos de Lei Complementar (PLC’s) que promovem fusões de secretarias, extinção de fundações, privatizações de companhias, desligamento de servidores, aumento da alíquota previdenciária, adiamento no pagamento de salários, corte de benefícios e alteração nos repasses de valores a outros poderes. O grande questionamento no Legislativo é sobre os motivos que levaram o Executivo a enviar um pacote recheado de medidas que podem ser questionadas juridicamente e sobre as quais não há consenso nem na base aliada. A ele se juntam as críticas sobre a falta de discussões anteriores para elaborar as propostas e a suposta pouca transparência a respeito dos dados que embasaram o conjunto. [...]. (CP, 27 nov. 2016).

A Assembleia Legislativa aprovou na madrugada e na manhã de ontem a extinção de oito fundações públicas do Rio Grande do Sul, na mais profunda e polêmica alteração na estrutura do Estado desde a venda da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) em 1998, durante o então governo Antônio Brito (PMDB). Às 3h58min da madrugada, após 13 horas de discussões e polêmicas no plenário e em torno do Legislativo, por 30 votos a 23, deixavam de existir as fundações Zoobotânica, de Ciência e Tecnologia, (Cientec), de Economia e Estatística (FEE), a Televisão Educativa (TVE)108, a Fundação estadual de Planejamento Metropolitano e Regional

(Metroplan) e a Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos. Pouco depois, já às 8h da manhã, por 29 votos a 23, os deputados da base aliada de Sartori decidiram também pela extinção da Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF) e da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro). Agora, os bens das fundações extintas reverterão ao patrimônio do Estado e podem ser alienados. Os servidores celetistas serão demitidos e os servidores terceirizados e os Cargos em Comissão também serão dispensados ou absorvidos pela administração direta. Segundo o governo, 1,2 mil servidores devem perder seus cargos. [...]. (CP, 22 dez. 2016). Na votação mais rápida desta semana, a Assembleia Legislativa aprovou [...] o projeto 244/16 que extingue a Companhia Riograndense de Artes Gráficas (Corag). [...] o texto integra o projeto de austeridade do governador José Ivo Sartori [...]. [...] a Corag proporciona lucros ao Estado. Em 2015, o balanço positivo foi de R$ 7,7 milhões. [...]. (CP, 22 dez. 2016).

Servidores estaduais

A pedido. Nota oficial do Sindicato dos Servidores Efetivos e Estáveis da Assembleia Legislativa – SINFEEAL, do Sindicato dos Servidores da Justiça – SINDJUS, do Sindicato dos Auditores Externos do TCERS – CEAPE/SINDICATO, da Associação dos Servidores da Justiça – ASJ, da Associação dos Contadores, Escrivães e Distribuidores da Justiça – ACEDIJUS e da Associação dos Servidores do Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul – ASTC sobre o “pacote de projetos” do Poder Executivo. Entidades clamam pela união dos servidores para discutir, de forma transparente e

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consciente [...] e a conscientizar os Senhores Parlamentares a não aprovarem os projetos, [...].

[...].

A crise no nosso Estado, decorrente da sonegação e das isenções fiscais, que já vinha ocorrendo há tempo [...].

[...].

Sem sombra de dúvida, tal iniciativa, constitui-se em um avassalador retrocesso nos direitos dos servidores e o consequente desmonte total da administração pública do nosso Estado, com reflexos negativos na prestação dos serviços públicos devidos à sociedade rio-grandense. [...]. (CP, 29 nov. 2016, a pedido).

Magistrados A extinção da Fundação Zoobotânica, proposta pelo governo Sartori e aprovada pela Assembleia ontem, foi repudiada por juízes ambientais de 11 estados. [...]. “Extinguir a FZB significa um incomensurável retrocesso em matéria ambiental, é um acinte à Constituição de 1988,” sustentam os 25 magistrados signatários da nota [...]. “Proteger o meio ambiente não é tarefa delegável à iniciativa privada. É atribuição do Estado. Está na Constituição e deve ser prestada com eficiência. É lamentável que ideologia do Estado mínimo interfira no dever de proteção do meio ambiente equilibrado para as presentes e futuras gerações,” afirmam os magistrados, aludindo ao artigo 225 da Constituição. [...]. (CP, 22 dez. 2016).

FONTE: a autora.

Como vimos foi um ano de robustas manifestações, preenchidas por conceitos do neoliberalismo ainda que sem nominá-lo. Os editoriais do Correio do Povo acompanharam este ritmo em diversas datas, ora abordando a questão nacional ora a estadual. As fontes pertencentes às entidades patronais e dominantes na economia gaúcha assim como grandes empresas difundiram e exigiram (também diretamente aos seus públicos em ações de comunicação) uma outra receita ao governo Dilma, de “crescimento de bolos” como antigamente se dizia. Ao mesmo tempo, o espaço cedido para uma crítica do desmonte da administração pública do Rio Grande do Sul foi representado por um “apedido” de servidores públicos e críticas de especialistas e de membros da magistratura diante da tentativa (em 2015) e da subsequente conquista (2016) da extinção de fundações científicas estaduais. Permeou o discurso em favor desse desmonte, caracterizado pela extinção e pela venda do patrimônio público, enunciados de menosprezo ou insignificância sobre o que é público ao pôr em questão a sua real qualidade e utilidade para a manutenção contrapondo a uma certeza diante da capacidade e competência do que é privado em sua substituição.

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