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Entendemos o discurso como a forma de expressão do sujeito a partir de um processo que é social, cultural e histórico – que atravessa a si e ao outro em uma inter-relação. Em sua etimologia, a palavra discurso carrega os sentidos de curso, percurso e movimento, sendo o discurso portanto a palavra em movimento58. Como enfatiza Helena Brandão, é o “o ponto de articulação dos processos ideológicos e dos fenômenos linguísticos”59.

Na contramão dos estudos da linguística estrutural, que adotou o pensamento de que a língua é objeto/instituição e a fala é individual, se desenvolveu toda uma corrente teórica de abordagem crítica que redireciona o objeto da fala ao texto, mais precisamente ao discurso, e entende o homem como um ser produtor de discursos ao apontar que a língua é viva e se dá no contexto – ela não é um sistema abstrato, mas sim um sistema em relação com o mundo. Assim, a fala do indivíduo não pode ser dissociada de seu sentido histórico dentro da língua, e por isso ambas podem ser assumidas como instituições sociais.

A fala, enquanto uma atividade do corpo humano é a exteriorização do discurso. Segundo Fiorin, ela “é o ato concreto, momentâneo e individual de manifestação da linguagem.”60. Dá-se aqui especial relevância ao discurso, que é “a materialização das formações ideológicas”61, o local onde claramente se expressa o trajeto histórico e material da linguagem.

57 ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. [2.ed. 10.reimpr.

rev. e ampl.] São Paulo: Boitempo, 2009, p.12.

58 ORLANDI, E. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 4. ed. Campinas: Pontes, 2002.

59 BRANDÃO, H. Introdução à análise do discurso. 2ª ed. rev. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004, p.11. 60 FIORIN, J. L. Linguagem e ideologia. 6. ed. São Paulo: Editora Ática, 1998, p.12.

A aprendizagem linguística, que é a aprendizagem de um discurso, cria uma consciência verbal, que une cada indivíduo aos membros de seu grupo social. Por isso, a aprendizagem linguística está estreitamente vinculada à produção de uma identidade ideológica, que é o papel que o indivíduo exerce no interior de uma formação social.62

Surge assim, nos anos de 1960, a análise do discurso (AD) como campo que renova, adapta e ressignifica as trajetórias da linguística, do materialismo histórico e da psicanálise em uma união que, “reunindo estrutura e acontecimento a forma material é vista como o acontecimento do significante (a língua) em um sujeito afetado pela história”63. A análise revela que a formação discursiva se fabrica como parte de determinado discurso, processo no qual também forma o próprio agente do discurso em um efeito cíclico. Para Fiorin, “se, do ponto de vista genético, as formações ideológicas materializadas nas formações discursivas é que determinam o discurso, do ponto de vista da análise, é o discurso que vai revelar quem é o sujeito, qual é sua visão de mundo”64.

Apoiamo-nos na obra de Volóchinov que, apesar de anterior ao surgimento das teorias do campo da análise do discurso, mostrou-se precursora para este debate, oferecendo as bases para as discussões sobre fala, enunciação e discurso. Para o autor, todo signo é ideológico e tudo o que é ideológico possui um significado que remete a algo fora de si65, elementos incorporados no processo de aquisição da consciência e que inserem a linguagem dentro de um contexto de discursividade que é social e histórica. Dessa abordagem parte a concepção de que a materialidade da ideologia está no discurso e se revela na língua, em uma tríade língua- discurso-ideologia.

O significado de uma palavra e as escolhas por trás da composição de uma frase nunca existem por si mesmo, elas são reveladoras de sentidos externos ao próprio enunciador – “na medida em que o homem é suporte de formações discursivas, não fala, mas é falado por um discurso.”66

Apontamos que os discursos são determinados com base em suas condições de produção – conceito elaborado a partir de Marx, e considerados segundo Eni Orlandi em seu sentido imediato (as circunstâncias da enunciação), e em seu sentido amplo (as circunstâncias sócio- históricas)67. Tais condições são imbricadas por fatores considerados pela autora, a partir das

62 FIORIN, J. L. Linguagem e ideologia. 6. ed. São Paulo: Editora Ática, 1998, p.44.

63 ORLANDI, E. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 4. ed. Campinas: Pontes, 2002, p.19. 64 FIORIN, J. L. Linguagem e ideologia. 6. ed. São Paulo: Editora Ática, 1998, p.49.

65 VOLOCHINOV, V. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Editora 34, 2017. 66 FIORIN, J. L. Linguagem e ideologia...., op. cit., p.44.

percepções de Pêcheux, como os mecanismos do discurso que compõem as formações imaginárias: 1) as relações de sentidos, que revelam que os discursos são sempre parte de um discurso maior, mais amplo e contínuo; 2) o mecanismo de antecipação, circunscrito na capacidade do sujeito de guiar sua argumentação de acordo com o efeito que produz no interlocutor; e 3) as relações de força, que expressam a conformidade do discurso ao posicionamento que o sujeito ocupa no ambiente.

Estariam instituídas nos mecanismos das formações sociais as expressões de projeção situadas na relação entre o contexto do discurso e as posições dos diferentes enunciadores. As formações imaginárias dizem respeito, portanto, à capacidade da condição de produção ser determinada pela localização do sujeito na estrutura social.

Assumimos que a AD se expressa como instrumento relevante para a investigação da comunicação em contextos organizacionais, objetivando perfurar a aparente superficialidade dos enunciados – seja partindo das instituições ou dos trabalhadores – e entender “que imagem esse locutor projeta de si mesmo, o que o autoriza a falar como fala, de que lugar ele fala, que imagem ele proteja de seu destinatário, que tipo de relação se pretende estabelecer com eles”68, como defende Brandão. A leitura do objeto, com base nas formações imaginárias de Pêcheux, nos ajuda a pensar a análise entendendo a fala do sujeito como reflexo de um contexto e também como parte da posição que ocupa naquele ambiente.