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4.3 Etapa III – Lideranças femininas rurais: ocorrências e narrativas sobre as violências por

4.3.2 Etapa III-2 – Lideranças femininas rurais e discursos de violências contra as

4.3.2.1 Discussão da Etapa III-2

4.3.2.1.5 Discurso do sujeito coletivo 5

IC5: A Lei Maria da Penha existe, mas a aplicação dela parece que não

Os discursos relacionados à aplicabilidade da Lei Maria da Penha referem-se à decisão política de proteger de fato as mulheres. Estão pautados em uma consciência da cidadania limitada pelas dificuldades de acesso aos serviços de atendimento e proteção e no exercício dos mecanismos legais para o enfrentamento das violências por parceiro íntimo, o que se observa nas narrativas a seguir:

[...] Se uma mulher for violentada na minha comunidade não dá tempo de ela fazer nenhuma denúncia porque até ela ir denunciar, o marido encontrou a mulher e já matou, porque nós não temos tempo hábil. Mas, hoje a estrutura de aplicabilidade da lei que está fragilizada, é muito frágil hoje. É difícil de aplicar e até da gente falar da Lei, porque eu nessa época de política fui muito na base, fui muito na comunidade e quando a gente fala um pouco da lei, os homens dizem que as mulheres estão sendo mais agredidas por isso. Não estão, antes era muito invisível, o que acontecia e com a lei se tornou visível e tudo o que vem

para a visibilidade, que começa a aparecer parece que é novo mais não é. É difícil para nós a questão da Lei Maria da Penha, ainda é uma questão complicada na Região Norte pelo fato da dificuldade, para nós ela é importante, se chegasse e a gente conseguisse aplicar aos poucos, não sei de que forma, mas a gente vai encontrar uma metodologia para aplicar essa lei lá. Na área rural temos esse problema, porque nós não temos ninguém preparado para atender a mulher vítima de violência quando ela chega naquele primeiro momento, na área da saúde, nós não temos em nenhuma área na zona rural, mas a área da saúde eu acho que seria a primeira, seria o primeiro passo porque se a mulher precisar fazer um corpo delito, um laudo médico de que ela sofreu uma violência, como é que ela vai chegar e provar na delegacia da mulher na capital que ela sofreu uma violência, doze horas depois tira uma marca, e também dezoito horas até ela chegar nessa delegacia. Na zona rural é muito ruim ainda, mas nas cidades, assim, mais atrasadas não tem, não tem esse apoio para a mulher. Eu acredito que se não tiver a delegacia da mulher, que ela vá a uma delegacia, que ela não fique sem buscar ajuda, porque se ela não for buscar ajuda só vai piorar, se não encontrar uma delegacia, que vá num hospital, ela busque uma ocorrência, que ela seja encaminhada pra algum lugar, para ele, assim, ficar impune, não é certo. Eu gostaria que o movimento sindical rural discutisse melhor a questão da violência contra as mulheres e pensasse em mecanismos, educação mesmo, dos companheiros de trabalho, que eles se sensibilizassem mesmo com a questão da violência. A Lei Maria da Penha é uma lei que veio, para inclusive coibir a questão da violência, agora o que eu acho que falta é uma política de conscientização da importância de denunciar, das mulheres se sentirem amadas, primeiro se amar e denunciar essas agressões que elas sofrem, e assim, ter a frente, também, criar mais delegacias da mulher [...].

A ideia central 5 denota o conhecimento existente sobre a Lei Maria da Penha. As líderes reconhecem a importância da lei, mas observam ausência de estrutura governamental para implantação de serviços especializados, previstos na lei, indisponíveis no meio rural. Concorrem para isso as longas distâncias existentes entre o campo e as cidades, a falta de locais como hospitais, casas abrigo e delegacias para registrar a ocorrência, a escassez de profissionais capacitados para o atendimento dessas mulheres, inclusive profissionais da área da saúde. Como dizem, a “Lei Maria da Penha, ainda é uma questão complicada na Região

Norte pelo fato da dificuldade, para nós ela é importante se chegasse e a gente conseguisse aplicar aos poucos”. As lideres do movimento sindicalista rural manifestam a ideia de um

expressão “se chegasse” representa esperança para concretização da rede de apoio e de

serviços de proteção a direitos conquistados.

No DSC n.5, referente à aplicabilidade da Lei Maria da Penha, as líderes rurais argumentaram a importância da lei e da decisão política de proteger as mulheres mesmo que existam dificuldades no acesso aos serviços ou aos mecanismos protetivos. A mobilização política no país voltada para a redução dos altos índices de violências contra as mulheres em suas múltiplas facetas deixa claro que há um longo caminho a ser percorrido para sua efetivação. A violência é um fenômeno complexo para o campo da saúde, a partir da constatação que interfere na saúde individual e coletiva das mulheres e e seus familiares (SANTI; NAKANO; LETTIERE, 2010; HESLER et al., 2013; BRASIL/MS, 2013). Os serviços de saúde deveriam estar preparados e articulados em rede para proporcionar a atenção que as vítimas de violência necessitam. Isso implica na capacitação de profissionais de saúde para reconhecer sinais e sintomas presentes na pessoa que sofre violência, atendendo-a em suas singularidades (SANTI; NAKANO; LETTIERE, 2010; HESLER et al., 2013; BRASIL/MS, 2013).

As principais evidências deste estudo apontam para o fato de que as lideranças femininas rurais foram capazes de: identificar episódios de violências perpetrados por parceiros íntimos; defender que as mulheres precisam procurar auxílio quando sofrem violências; reconhecer a existência de várias causas para violências contra as mulheres; explicar que algumas mulheres respondem à violência por meio de atos violentos; e perceber que existe descontinuidade nos mecanismos para o enfrentamento e proteção da mulher que sofreu a violência por parceiro íntimo no meio rural.

As violências contra as mulheres encontram-se ancoradas nas relações hierárquicas e de gênero existentes entre homens e mulheres, histórica e socialmente construídas e que estão presentes nas múltiplas dimensões da vida, sob diferentes formas e inúmeras circunstâncias (CORTEZ; SOUZA; QUEIRÓZ, 2010; SANTI; NAKANO; LETTIERE, 2010; GUEDES; FONSECA, 2011). Fundamentam-se em desigualdades sociofamiliares advindas da divisão sexual do trabalho rural, onde os determinantes sociais de saúde e os gradientes sociais são vivenciados em interação com as estruturas de poder, o que expõe as mulheres a diversos agravos sociais que afetam sua qualidade de vida (MORAIS; MONTEIRO; ROCHA, 2010). Esse quadro de relações mediadas pela violência requer o fortalecimento do aparelho estatal, de movimentos sociais, além da capacitação dos profissionais inseridos no SUS, considerando-se a necessidade de melhorar o acesso aos serviços de saúde, com qualidade, visando atender as especificidades dessas populações (BRASIL/MS, 2013).

No entanto, um resultado inesperado que emergiu da fala das mulheres foi o fato de o parceiro não ter sido ouvido, de suas percepções e narrativas sobre a violência não terem sido analisadas, o que limita a descrição do fenômeno, uma vez que as relações de gênero não se expressam por uma única via (MOURA et al., 2011; MOURA L; LEFEVRÉ; MOURA V, 2012; SOARES, 2012).

O estudo revelou – tanto na Etapa II quanto na Etapa III-1 – elevada predominância de Violências por Parceiros Íntimos. Nas narrativas das entrevistadas, da Etapa III-2, foi confirmada a existência de episódios de VPI. As trabalhadoras rurais identificaram que a Violência Psicológica (VP) foi mais prevalente e muito frequente, seguida da Violência Sexual (VS) e da Violência Física (VF) – moderada ou grave, separadamente. Quanto às líderes rurais, o resultado, também apontou que VP foi a mais prevalente seguida da VF grave. E quanto à frequência de episódios, a VS foi apontada como muito frequente, seguida da VP e da VF. A VF – moderada foi considerada pouco frequente. A pesquisa apontou, ainda, que os episódios de VPI tendem a se agravar, quer seja por recorrência ou por sobreposição, isto é, a ocorrência de qualquer um dos tipos de violências (psicológica, física ou sexual) pode ser associada ou precedida por um ou, sequencialmente, por todos os outros tipos de VPI.

Não foram analisadas outras características que poderiam desencadear as VPI, apesar das narrativas das líderes rurais terem apontado, em alguns momentos, fatores como a pressão do trabalho, a insegurança, a perda de controle da situação e que não sabem lidar com isso. Permanece a lacuna sobre o processo de como irrompem as violências nas relações íntimo- afetivas na área rural, o que suscita a necessidade de maior atenção em estudos futuros.

4.4 COMPLEMENTARIDADE PARA UM DIÁLOGO POSSÍVEL NO CAMPO DA