1 PARADOXOS E AMBIGUIDADES DA ESTRANHA NOÇÃO DE HOMEM NA
1.5 Discurso e performance como criadores de subjetividades sexuadas
O processo para que tal norma heterossexual tenha se estabelecido foi baseado em uma cadeia de positividades: em primeiro lugar foi necessário criar uma ordem histórica de naturalidade que determinou a criação de dois sexos definidos pela corporalidade e não pela cultura (LAQUEUR, 2001), logo após foi preciso produzir e incitar a uma concepção de sujeito que englobasse, classificasse, examinasse, esquadrinhasse, disciplinasse, e abrangesse a todos (FOUCAULT, 2010) para assim firmar uma norma que define a sexualidade socialmente sancionada, e simultaneamente detrata as demais à abjeção (BUTLER, 2010). Por fim, resta saber como foi possível articular e imbricar essas concepções de corpo, natureza e sexualidade. Quer dizer, por quais processos a sexualidade foi materializada nos corpos das pessoas? Quais são as bases para toda essa produção sexuada de corpos e sujeitos? Para pensar nisso, o conceito de discurso em Foucault e de performatividade em Butler são bastante esclarecedores quanto ao processo em que o sexo cria o corpo e a verdade do sujeito moderno.
A concepção de discurso para Foucault tem íntima relação com a ordem de saberes e de conhecimentos que se estabelecem em determinada época. Ao comentar Foucault, Mills nos apresenta um definição onde: “Discourse does not simply translate reality into language;
rather discourse should be seen as a system which structures the way that we perceive
29 Compreendemos biopoder enquanto gestão estatisticamente calculada da vida dentro de um corpo social.
Segundo Duarte, “o sexo se tornou alvo de toda uma disputa política a partir do século XIX: ele se tornou o foco do disciplinamento do corpo individual e dos fenômenos vitais da população, permitindo o acesso dos poderes à vida da espécie humana” (DUARTE, 2010: 222-223).
reality”30 (MILLS, 2003: 55). Um discurso é uma ordem de enunciados que através da significação e simbolização tem o poder de ação e de intervenção na realidade de uma sociedade, uma vez que determina suas visões de mundo. Foucault define a própria ideia de épistémè a partir das formas possíveis e impossíveis de se formular e organizar alguma sentença enquanto discurso, trata-se do que o filósofo chama de uma ordem do discurso, ou seja, é o conjunto e a ordem das enunciações que definem a forma com que uma determinada sociedade constrói suas percepções de mundo e diferencia o possível do impossível, o pensável do impensável, o dizível do indizível, assim, “the regularities which we perceive in reality should be seen as the result of the anonymous regularities of discourse which we impose on reality. Foucault argues that, in fact, discourse should be seen as something which constrains our perceptions31” (MILLS, 2003: 55). Os discursos passam a ser a forma com que construímos nossa percepção de realidade, não só em relação às ideias e aos objetos imateriais, mas antes, a absolutamente tudo que existe:
there is no non-discursive realm, that everything is constructed and apprehended through discourse. For example, the body, while it is clearly a material object – our body feels pain, it is subject to gravity, it can be harmed in accidents – nevertheless, the body can be apprehended only through discursive mediation, that is, our understanding of our body occurs only through discourse – we judge the size of our body through discourses which delineate a perfect form, we interpret feelings of tiredness as indicative of stress because of discourses concerning the relation between mental and physical well-being, and so on. [...] we can only think about and experience material objects and the world as a whole through discourse and the structures it imposes on our thinking. In the process of thinking about the world, we categorise and interpret experience and events according to the structures available to us (MILLS, 2003: 55-56)32.
O exemplo apontado por Mills é justamente o processo pelo qual a linguagem constrói aquilo que compreendemos por corpo. Ora, se é por via discursiva que ordenamos e organizamos nossa forma de ver o mundo – e com isso criamos o próprio mundo – então as categorias de organização do mundo como o sexo, a classe e a raça são fundamentalmente
30 “Discurso não é simplesmente traduzir a realidade em linguagem; além disso o discurso pode ser visto como um sistema que estrutura a forma pela qual nós percebemos a realidade” (T. do A.)
31 “as regularidades que nós percebemos na realidade podem ser vistas como o resultado das regularidades anônimas do discurso que nós impomos à realidade. Foucault argumenta que, de fato, o discurso deve ser visto como algo que restringe nossas percepções” (T. do A.)
32 “Não existe um domínio do não discursivo, absolutamente tudo é construído e apreendido pelo discurso. Por exemplo, o corpo, enquanto é claramente um objeto material – nosso corpo sofre, é afetado pela gravidade, pode ser machucado em acidentes – não obstante, o corpo pode ser compreendido apenas por meditação discursiva, isso é, a compreensão de nosso corpo ocorre apenas pelo discurso – nós julgamos o tamanho de nosso corpo pelos discursos que delineiam a forma perfeita, nós interpretamos o cansaço como indicativo de stress por causa dos discursos que relacionam o bem estar físico e o mental, e assim por diante. [...] nós apenas podemos pensar e viver objetos materiais e o mundo como um todo através do discurso e as estruturas que ele impõe em nosso pensamento. No processo de pensar sobre o mundo, nós categorizamos e interpretamos a experiência e os eventos de acordo com as estruturas disponíveis para nós” (T. do A.).
questões pertinentes ao campo linguístico e discursivo. O corpo é exatamente a superfície onde os discursos irão se concentrar para criarem seus efeitos de realidade, tais efeitos estão intimamente conectados aos saberes e aos poderes particulares à época em que são proferidos.
Nessa via de construção linguística, Butler irá buscar suas ferramentas teóricas em Jacques Derrida (1991) e John Austin (1955) para criar seu diagnóstico da produção dos sexos enquanto performatividade.
O filósofo Austin fez uma grande mudança no campo dos estudos linguísticos na década de 1950 ao propor que as orações ao serem pronunciadas podem ser consideradas ações. Em seu livro Como Hacer Cosas con Palabras Austin delimita uma série de sentenças que ele considera performativas justamente porque além de expressar coisas são, em si próprias, atos de fala [speech acts]:
emitir la expresión es realizar una acción y que ésta no se concibe normalmente como el mero decir algo. [...] expresar las palabras es, sin duda, por lo común, un episodio principal, si no el episodio principal, en la realización del acto (de apostar o de lo que sea), cuya realización es también la finalidad que persigue la expresión33 (AUSTIN, 1955: 06-08).
Para o filósofo, pronunciar algo já produz o efeito linguístico de um ato, isso é semelhante às formulações de Derrida quando anuncia que “escrever [e enunciar] é produzir uma marca que constituirá uma espécie de máquina, produtora” (DERRIDA, 1991: 20).
Trata-se do ato de escrever ou citar algo e de reiterar essa citação como a instituição do próprio ato, que para o filósofo não é fruto de uma vontade individual, mas é derivativo da linguagem: “Nesta tipologia a categoria de intenção não desaparecerá, ela terá seu lugar, mas a partir deste lugar, não poderá mais comandar todo o sistema e toda a cena de enunciação”
(DERRIDA apud BUTLER, 2010: 167). Nessas formulações, Austin, Derrida e Foucault não definem um sujeito mentor destes atos de linguagem, mas, pelo contrário, uma linguagem mentora do sujeito que fala. Não que sua decisão não seja efetiva, mas este sujeito não possui o total domínio de sua enunciação frente à ordem discursiva na qual enuncia, tal sujeito já está previamente inserido nela, nas condições do que pode e do que não pode ser dito ou aceito.
A partir destas premissas Butler demonstra que “o discurso adquire a autoridade para produzir o que nomeia através da citação das convenções e da autoridade” (2010: 176). A partir de seus estudos sobre o psicanalista Jacques Lacan, a autora nos demonstra que o poder
33 “Emitir a expressão é realizar uma ação, e esta não se concebe normalmente como um mero dizer algo. [...]
expressar as palavras é, sem dúvida, comumente, um episódio principal, se não for o episódio principal, na realização do ato (de apostar ou do que seja), cuja realização é também a finalidade que persegue a expressão”
(T. do A.).
das normas se relaciona diretamente com a citação da lei que a institui performaticamente como um ato de fala. Esse é um círculo vicioso uma vez que “a lei não é mais dada em uma forma fixa, anteriormente à sua citação, mas é produzida através da citação, como aquilo que precede e excede as aproximações [...] efetuadas pelo sujeito” (BUTLER, 2010: 169). Em outras palavras, a própria norma que institui a heterossexualidade, enquanto heteronormatividade, é dada através de um processo linguístico e discursivo de citação, nomeação ou mesmo enunciação. É assim que, para Butler o sexo e o gênero são construídos:
a partir de um ato de fala ou de uma performatividade, entendida como “a prática reiterativa e citacional pela qual o discurso produz os efeitos que ele nomeia” (2010: 154). Tal ação se torna política e criadora a partir do momento que “as normas regulatórias do ‘sexo’ trabalham de uma forma performativa para construir a materialidade dos corpos e, mais especificamente, para materializar a diferença sexual a serviço da consolidação do imperativo heterossexual”
(BUTLER, 2010: 154).
Nesse contexto de performatividade, a noção de natureza perde sua posição de verdade ou de ser pré-discursiva, já que “o social atua unilateralmente sobre o natural e o investe com seus parâmetros e seus significados” (BUTLER, 2010: 154). Assim é implodida a diferenciação entre o campo natural e o campo social/cultural, especialmente se tratarmos das concepções hierárquicas e sexuais na sociedade moderna. Em outras palavras, pensar a natureza como uma parte construída da cultura significa que a própria dicotomia entre gênero (como a diferença dos sexos produzida de forma social/cultural) e sexo (como a diferença dos sexos produzida de forma natural) perde toda sua validade, uma vez que o primeiro absorve o segundo e demonstra sua inconsistência enquanto verdade universal:
Quando a distinção sexo/gênero se junta a um construcionismo linguístico radical [...] o “sexo” [...] será ele mesmo uma postulação, uma construção, oferecida no interior da linguagem, anterior à construção. Mas esse sexo colocado como anterior à construção torna-se, em virtude de ser assim colocado, o efeito daquela mesma colocação: a construção da construção. Se o gênero é a construção social do sexo e se não existe nenhum acesso a esse “sexo” exceto por meio de sua construção, então parece não apenas que o sexo é absorvido pelo gênero, mas que o “sexo” torna-se algo como uma ficção, talvez uma fantasia, retroativamente instalado em um local pré-linguístico ao qual não existe nenhum acesso direto (BUTLER, 2010, 158).
A partir do momento em que a distinção sexo/gênero, natureza/cultura são abolidos, então eles podem ser usados quase como imbricações, ambos podem ser compreendidos como uma formulação performativa que produz as diferenças sexuais na modernidade.
Essa compreensão possui uma contraface política de grande relevância para nosso estudo, a saber: a partir o momento que suspendemos a predominância verdadeira dos polos
sexo e natureza em oposição aos polos gênero e cultura, passamos a perceber como são artificialmente construídas as normas e as leis da heterossexualidade. Compreendemos que tais normas são construídas a partir de um imperativo linguístico, ou seja, de estruturas discursivas, científicas e epistemológicas que induzem o sujeito/sujeitado a se compreender como um Homem ou uma Mulher. Tal indução se dá a partir do momento em que a ideia de natureza do corpo – e consequentemente do sexo – são assimilados pelo sujeito/sujeitado que a partir desse material teórico e discursivo irá construir sua subjetividade, ou melhor, sua própria condição de sujeito. Nas palavras de Butler:
O regime da heterossexualidade atua para circunscrever e contornar a
“materialidade” do sexo e essa “materialidade” é formada e sustentada através de – e como – uma materialização de normas regulatórias que são, em parte, aquelas da hegemonia sexual [...] a materialização de normas exige aqueles processos identificatórios pelos quais as normas são assumidas ou apropriadas, e essas identificações precedem e possibilitam a formação de um sujeito (BUTLER, 2010, 170).
Com isso, Butler afasta as teorias biologicistas ou essencialistas de um homem ou uma mulher que sejam universais e anteriores aos discursos que os/as constituíram. Por tal procedimento a modernidade ocidental produziu e estimulou um regime da heterossexualidade e fez surgir e se opor – junto das figuras aberrantes da sexualidade – duas subjetividades e práticas, consideradas socialmente ideais: o homem e a masculinidade; e a mulher e a feminilidade. É essa primeira figura, tão estranha e singular, que passamos estudar a partir de agora.