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2 POLÍTICAS LINGUÍSTICAS E EDUCACIONAIS NA TRAMA

2.2 DISCURSO COMO PRÁTICA SOCIAL

2.1.2 Discurso e Poder

Na perspectiva da Análise de Discurso Crítica, os ordenamentos semióticos em uma dada configuração das ordens do discurso, a manutenção de certas convenções e sua mudança através do tempo refletem os movimentos de manutenção/deslocamento das relações de poder no nível das instituições sociais ou da sociedade.

O poder opera nas ordens do discurso a partir de ideologias, entendidas como sentidos e construções da realidade que configuram o estabelecimento e a manutenção de relações sociais de poder, dominação e exploração. As ideologias perpassam os modos de uso da linguagem, convencionalizados nas interações cotidianas e habituais pelas quais se produz e reproduz relações sociais de poder; e, por meio delas, relações sociais e diferenças de poder são legitimadas a partir da recorrência de modos de comportamentos familiares e ordinários que tomam essas relações e diferenças de poder como dadas (FAIRCLOUGH, 1989).

As ideologias situam-se na conjunção entre as estruturas e os eventos sociais, de maneira a abrigar as convenções de eventos passados e as condições para os eventos atuais. Nos eventos, situam as condições para manter ou modificar as condicionantes advindas dessas estruturas por meio das lutas ideológicas travadas nos eventos discursivos (FAIRCLOUGH, 1992). Nessa perspectiva, as ideologias configuram-se em normas e convenções acumuladas e naturalizadas, ao longo do tempo, as quais são sujeitas a movimentos que operam para a sua naturalização e desnaturalização no contexto das práticas sociais.

Thompson (1984) sugere que, entre inúmeras formas pelas quais as ideologias operam, destacam-se os mecanismos de legitimação, dissimulação e reificação, os quais servem para sustentar relações de poder. Legitimação diz respeito aos mecanismos pelos quais as relações de dominação são apresentadas como legítimas, isso ancorados em uma suposta racionalidade, tradição ou valores carismáticos. As ideologias operam também a partir da negação das relações assimétricas de poder ou de uma abordagem conciliatória delas, apresentando-as de modo diferente de como são (dissimulação). Os mecanismos de reificação servem às relações de dominação, apresentando, por conseguinte, relações de poder que se estabelecem em uma dada conjuntura, a partir de dadas relações, conjunturalmente situadas como atemporais, permanentes e naturais. O autor aponta que esses mecanismos não são os únicos e não são mutualmente excludentes na maneira como operam no estabelecimento de ideologias.

A linguagem constitui-se importante meio pelo qual as ideologias e seus mecanismos de legitimação, dissimulação e reificação operam a partir dos sentidos/significados que servem para sustentar as relações de dominação. Thompson (1994, p. 35) sinaliza que o estudo da ideologia é fundamentalmente orientado para questões de linguagem, uma vez que “é principalmente na linguagem que sentidos são mobilizados na defesa da dominação”.

Ao mesmo tempo em que se situa, na linguagem, o potencial de preservação de sentidos historicamente estabelecidos, que servem para a manutenção de relações assimétricas de poder; nela, também se encontra o potencial para que esses sentidos sejam desafiados e deslocados. Assim, a linguagem constitui-se em instrumento pelo qual movimentos de naturalização e desnaturalização se estabelecem, como espaço fecundo para o desenvolvimento de lutas hegemônicas.

Segundo Fairclough (1992), as ideologias operam de modo mais efetivo quando se apresentam como naturalizadas e se assentam como consensuais, servindo para o estabelecimento da hegemonia. Chouliaraki e Fairclough (1999), ancorados em uma concepção de hegemonia a partir de Gramsci, enfatizam-na como relações de poder que são estabelecidas a partir do consenso ou mesmo do consentimento mais do que do uso da coerção ou da força.

A fim de se situarem como tal, as ideologias servem ao estabelecimento da hegemonia a partir da naturalização das práticas, das relações sociais e das relações entre práticas.

As práticas discursivas de instituições e organizações constituem-se em meios que contribuem grandemente para o estabelecimento das hegemonias e lutas hegemônicas. Para Fairclough (1995), as práticas discursivas exercem um duplo papel na constituição de hegemonias. A priori, elas tomam forma a partir de convenções no uso da linguagem que carregam consigo modos naturalizados de se relacionar, entre eles, aqueles ideologicamente carregados, convencionalizando e institucionalizando relações assimétricas de poder e dominação.

As convenções que regulam as práticas discursivas (tais como uma consulta médica, o ensino em uma sala de aula ou a publicação de um decreto presidencial) estão imbuídas de modos particulares de representar o mundo, de posicionar os participantes desse evento e de gerir os seus relacionamentos (doutor-paciente, professor-aluno, presidente-sociedade civil). A instituição da hegemonia passa pela naturalização dessas convenções e, com elas, a naturalização de determinadas formas de representar o mundo, agir nele e identificar as pessoas, constituindo-se em um importante meio de naturalização das ideologias. Essas convenções estabelecem-se em relativas permanências, uma vez que podem ser quebradas, transgredidas e substituídas por outras na condição das lutas hegemônicas.

Um segundo aspecto que coloca o discurso na centralidade do estabelecimento da hegemonia e da luta hegemônica diz respeito à hegemonia cultural, maneira pela qual modos particulares de representar o mundo são apresentados como universais. O discurso desempenha papel central no estabelecimento da relação hegemônica entre determinadas classes ou grupos sociais, já que a projeção de suas visões particulares do mundo como universais depende fortemente da sua capacidade de moldar as práticas discursivas e as ordens do discurso (FAIRCLOUGH, 1995). Esse processo é inerentemente instável, uma vez que essas visões são também confrontadas e deslocadas nas práticas discursivas, o que confere à hegemonia um equilíbrio relativo, pois seu estabelecimento está permanentemente aberto à reestruturação e à reformulação no curso das lutas hegemônicas.

A instabilidade das hegemonias é explorada por Laclau e Mouffe (1985), os quais ressignificam a noção de hegemonia elaborada por Gramsci ao proporem que as lutas hegemônicas são estabelecidas em movimentos de articulação, desarticulação e rearticulação das práticas. Nessa perspectiva, a luta hegemônica prescinde da existência de forças antagônicas e da instabilidade das fronteiras que as separam. Para os autores,

apenas a presença de uma vasta área de elementos flutuantes à possibilidade de sua articulação a campos opostos – o que implica uma constante redefinição dos últimos – constitui o terreno que nos permite definir uma prática como hegemônica. (LACLAU; MOUFFE, 1985, p. 136).

As práticas discursivas constituem-se em contextos materiais por meio dos quais esses movimentos de articulação e luta hegemônica são estabelecidos. Para Chouliaraki e Fairclough (1999), lutas hegemônicas são antagonismos que tomam forma de lutas em torno da articulação das práticas discursivas. O conceito de ordens do discurso é apresentado por Fairclough (1992, p. 93) como “a faceta discursiva do equilíbrio instável e contraditório que constitui uma hegemonia, e a articulação e rearticulação das ordens do discurso correspondem a uma estaca na luta hegemônica”. Nessa perspectiva, os processos que circunscrevem tanto os textos quanto a sua produção, distribuição e consumo estão situados em lutas hegemônicas, de modo a servirem em diferentes graus para a preservação e/ou a transformação das convenções e normas existentes que moldam tanto as ordens do discurso quanto as relações sociais de poder que há.