2.1 ABORDAGEM CRÍTICA DO DISCURSO
2.1.2 Discurso e Texto
Conforme a Análise de Discurso Crítica, os discursos são práticas sociais complexas criadoras e recriadoras da realidade, inscritas em contextos particulares que as condicionam, sendo o resultado de uma construção social e conformadores da sociedade na medida em que ajudam a reproduzir as ideologias socialmente compartilhadas e também a transformá -las (TABOADA, 2011). Discurso como prática social reconhece a relação dialética que se estabelece entre um evento discursivo e a situação, a instituição e a estrutura social que o configuram, pois esses marcos formam o evento discursivo como o evento os influi (FAIRGLOUGH; WODAK, 1997; FAIRCLOUGH, 1995).
Busco a Análise de Discurso Crítica (FAIRCLOUGH, 1992; TABOADA, 2011) como prática tridimensional que aborda o discurso nas seguintes dimensões:
a. como texto, como produto de uma ação discursiva;
b. como prática discursiva, inserida em uma situação social determinada;
c. como prática social que não só expressa as entidades, as práticas, as relações, como as constitui e as conforma.
Quanto ao texto, Wodak (2003) e Taboada (2011) concebem-no como produtos materialmente duráveis das ações linguísticas e portadores de imagens ideologizadas da sociedade, resultados das escolhas feitas por um sujeito no universo discursivo, no contexto das representações que possui e compartilha com um grupo social determinado. Tais escolhas sustentam-se nas representações que as pessoas possuem da realidade, da situação em que se produz o discurso de si mesmos e de outros envolvidos na comunicação, logo, necessariamente são ideológicas.
Fairclough (2006b) apresenta-nos um sumário dos principais traços de textos, que divido em dois grupos:
85
Quadro nº 4 - Traços dos textos (FAIRCLOUGH, 2006b) Intertextualidade e hibridade
interdiscursiva dos textos
Traços linguísticos
Gêneros, discursos e estilos Argumentação, gêneros argumentativos, argumentos falaciosos
Hibridade interdiscursiva – mistura de gêneros, discursos ou estilos
Hipóteses, pressuposições e implicações
Gêneros encadeados Contradições
Discursos nodais e outros discursos Dialogicalidade e polêmica
Temas associados Endereçado às audiências
Intertextualidade Avaliações em textos e hipóteses de
valores, interferência Metáfora e modalidades
Narrativas e formas particulares de narrativa
Voz passiva e nominalização Pronomes
Vocabulário, trocas de vocabulário, padrões de colocação, significado de palavras chave
Jogo de palavras
Retórica e traços persuasivos dos textos
Fonte: Autoria da autora
Ainda abordando o conceito de texto, trazemos ainda a contribuição de Watson (1997). Para ele, há uma lista da extraordinária diversidade do trabalho feito pelos textos - compromisso contratual, ratificação e facilitação do trabalho, manutenção de registros de trabalho, persuasivo, identidade, estabelecimento de trabalho, e assim por diante. Dessa maneira, pode-se dizer que todas as atividades reconhecíveis em nossa sociedade têm seu aspecto textual, que envolvem e incorporam pessoas ou outros “signos” textuais e dão sentido a ela. Ele possui uma característica única: opera com o mais ou menos despercebido e inexpressivo meio para um fim, sendo colocado à serviço da examinação do “outro” como um recurso de acesso desse fenômeno.
Há uma importante perspectiva na Análise de Discurso Crítica: um texto raramente é obra de uma pessoa qualquer, pois, os textos e as diferenças discursivas negociam-se por estarem regidas por diferenças de poder que se encontram parcialmente codificadas no discurso e determinadas por ele e pela variedade discursiva. Daí, a atenção às lutas pelo/com poder e pelo/com controle, com detalhada atenção à intertextualidade e à recontextualização dos discursos (WODAK, 2003a).
86
E nessas lutas, estão presentes as representações. Busca-se, portanto, a Teoria das Representações Sociais, que possibilita a compreensão do modo em que se articulam o contexto, a ideologia e o discurso (VAN DIJK, 1999). Trago a contribuição de alguns autores quanto ao conceito de Representação Social, cerne do meu trabalho, no Capítulo 3 - Identidade, Representação, Racismo. Segundo Taboada (2011, p. 135), as representações sociais são marcos coletivos de percepção em comunicações entre diferentes atores sociais, que atuam como nexos entre o sistema social e o sistema cognitivo individual.
Na minha pesquisa, o texto é o mediador em um processo de comunicação complexo que envolve imagens ideologizadas da realidade. Com a ênfase na comunicação e na sua articulação com as novas tecnologias da informação, o discurso passou a ser o foco de análises com o fim de desvelar o seu papel na construção e na reprodução da realidade em uma sociedade saturada de símbolos e de conflitos de identidade.
Celis (2011) ressalta o desenvolvimento e o fortalecimento do estudo do discurso que se tem desenvolvido e fortalecido como campo acadêmico interdisciplinar com os propósitos de fazer controle político e acadêmico aos discursos públicos aspirantes de se tornarem referentes coletivos de interação e de consolidar processos democráticos. E como não há de se negar a incidência dos meios massivos de comunicação nas formas de organização e de construção coletiva, tem-se posicionado o tema comunicação e discurso midiático na agenda acadêmica.
Assim, passo à reflexão do papel da imprensa escrita na construção da identidade e do sujeito, pois, devido à sua vasta circulação, possui maior poder na constituição de sentimentos de identidade, produzida ou construída socialmente por quem detém o maior poder e tem a autoridade legitimada para dizer a verdade sobre os fatos, o povo, o indivíduo, que, “internalizada, garante a possibilidade de o ser humano constituir-se como sujeito do discurso, atravessado por ela, e, assim, atravessado pelo(s) outro(s), mas escondido(s) na opacidade do esquecimento” (CORACINI, 2007, p. 60).
Tais discursos, repetidos e transformados em narrativas, transformam-se na memória discursiva de um povo e constroem nações e identidades. Para Coracini (2007), uma pessoa se diz pelo olhar e pela voz do outro, portanto, a identidade é naturalizada por meio de processos inconscientes e nunca se completa, sempre em formação. Trago suas palavras sobre o tema:
O sujeito é, assim, fruto de múltiplas identificações – imaginárias e/ou simbólicas – com traços do outro que, como fios que se tecem e se entrecruzam para formar outros fios, vão se entrelaçando e construindo a rede complexa e híbrida do inconsciente e, portanto da subjetividade. Rede essa que resulta da falta constitutiva do sujeito que, em vão, deseja preenchê-la, supri-la ao longo da vida, supri-la com o outro, objeto do seu desejo. (CORACINI, 2007, p. 61)
87
Dessa forma, a identidade se constrói nos e pelos discursos, sendo os de maior poder os da ciência, do colonizado e da mídia. Sabemos que uma das características fundamentais do discurso jornalístico é atuar tanto na institucionalização social de sentidos, contribuindo para a cristalização da memória do passado, bem como na construção da memória do futuro por meio da sua imagem de veiculadora de verdades, sustentando o mito da informatividade para poder dizer/relatar o que interessa a alguns. Assim, comprometido com a verdade dos fatos, finge não contribuir para a construção das evidências, mas, sim, retrata e torna compreensível o imaginário ao leitor; camufla seu caráter ideológico e colabora na construção do imaginário do leitor que expõe ou opina sobre determinado fato ou sujeito, no meu caso, criando representações sobre a imigração japonesa e o imigrante japonês (CORACINI, 2007; WODAK, 2003).
Ribeiro e Sacramento (2010) classificam a abordagem da crítica ideológica no entendimento da mídia, da sociedade e das suas relações na terceira fase da história dos estudos da comunicação, em que os efeitos da mídia não são mais vistos de forma direta, mas mediados por muitos outros processos sociais, assim, a mídia é vista como “produtora de consentimento”. Temos o poder não sendo exercido somente, “nem prioritariamente, pela coerção, mas sim pelo consenso, pelo compartilhamento de valores, visões de mundo, conceitos éticos e morais e padrões comportamentais e que, por isso, é essencial estudar os fenômenos socioculturais” (RIBEIRO; SACRAMENTO, 2010, p. 28).