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Discurso, Interdiscurso e Heterogeneidade discursiva: algumas breves discussões

No documento Download/Open (páginas 80-83)

O conceito de interdiscurso e de heterogeneidade discursiva não prescinde de um entendimento anterior sobre discurso. Assim, vejamos o que nos afirmam alguns teóricos.

Para Brandão (2004), o discurso “é o efeito de sentido construído no processo de interlocução, enquanto parte do funcionamento social” (p.89). Para Guimarães (2013), o discurso é percebido como “entidade histórica (ideológica) que se elabora socialmente, através de sua materialidade específica, que é a língua manifestada no texto” (p.89). Brait (2014), baseando-se nas perspectivas bakhtinianas, preceitua que o discurso é “ a língua em sua integridade concreta e viva(...) é um fenômeno concreto, muito complexo e multifacético” (p.11). Na conceituação de Foucault (2008), o discurso “é o conjunto de enunciados, na medida em que se apoiem na mesma formação discursiva; ele é constituído de um número limitado de enunciados, para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência” (p.132).

Das considerações desses quatro autores, nota-se, pois, que o discurso se configura como um ponto de confluência entre fenômenos linguísticos e processos ideológicos, tendo ambos, características diversas (históricas, sociais, etc.). Ele é veiculado pelos os textos escritos e orais, relacionando situações diversas (críticas, ironias, elogios, concepções políticas, religiosas, científicas). Assim, os valores ideológicos de uma percepção científica, social, religiosa ou política, por exemplo, estão veiculados no discurso, e os aspectos linguísticos estão a serviço do discurso, por assim dizer, para materializar esses valores, ou seja, é a língua ao dispor do sentido. Dessa diversidade ideológica escoada pelo discurso, pode-se usar o termo discursos, uma vez que há muitas ideias e percepções sobre um mesmo objeto. Desses vários discursos, emergiria outro conceito: o interdiscurso.

A princípio, Orlandi (1999) preceitua que um discurso se faz apoiado em outros discursos já produzidos em diferentes tempos (memória) e espaços (situação), ou seja, um discurso se produz, também, através do princípio da

interdiscursividade. Nessa perspectiva, o discurso retoma outro que reflete uma sucessão de outros discursos, regulamentados pelas formações ideológicas para as quais a memória discursiva representa condição de existência.

E a memória discursiva, por sua vez, tem suas influências e marcas significativas quando pensada em relação ao discurso. Por isso, quando se fala em interdiscurso, há uma remissão à ideia memória discursiva. Assim, para Orlandi (op.cit), o interdiscurso

é aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente; ou seja, é o que chamamos memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré- construído, o já-dito que está na base do dizível, histórica e linguisticamente, sustentando cada tomada da palavra. (p.31) Logo, a interdiscursividade/memória discursiva se estabelece na relação de um discurso com outros discursos, estes já ditos em outros tempos e instâncias, mas que determinam e se atualizam naquele; ela é propriedade constitutiva da existência do discurso. O interdiscurso congrega conhecimentos, valores e crenças sobre o mundo e se revela nos momentos de enunciação de um novo discurso, evidenciando as posições do sujeito discursivo. Como explicitado, ele é fruto da influência do entrecruzamento dos distintos discursos, que carregam marcas linguísticas, ideológicas, sociais e históricas. Assim, o interdiscurso possibilita a retomada de discursos já-ditos, modernizando-os e alinhando-os às novas situações discursivas.

Maingueneau (2008) salienta que o termo interdiscurso é apresentado com um duplo sentido: um sentido restrito (conjunto de discursos de um mesmo campo e que mantêm relações de delimitação mútua uns com os outros); e um sentido amplo (conjunto das unidades discursivas com as quais um discurso entra em relação explícita ou implícita). Sob essa ótica, a interdiscursidade/memória discursiva também considera os aspectos linguísticos, sociais, ideológicos e históricos. Assim, para o autor, ao se construir um discurso, o discurso ‘do outro’, em um ou outro sentido, fará parte dele, inevitavelmente. As ideias de Maingueneau se ligam a duas formas para apresentar o (s) discurso (s) do outro: a heterogeneidade mostrada e a heterogeneidade constitutiva.

A heterogeneidade mostrada é marcada linguisticamente, deixa marcas visíveis no texto (aspas, citações, etc.) ao passo que a heterogeneidade constitutiva obriga a repensar a distinção natural entre o interior e o exterior de um discurso, e só o interdiscurso ajuda a defini-la, já que ele é parte inseparável da constituição do próprio discurso (MAINGUENEAU, 1997).

O autor assevera que os fenômenos decorrentes da heterogeneidade mostrada são diversos e podem vir marcados concretamente por meio de vários indicadores explícitos nos enunciados que o compõem. Mencionamos aqui o discurso relatado (discurso direto, indireto, indireto livre), as citações entre aspas, a negação, a ironia, dentre outros.

Authier-Revuz (1990) também divide os contornos da heterogeneidade mostrada em três formas: a) o discurso relatado no qual o locutor utiliza suas próprias palavras para expressar o discurso de outro, ou o discurso direto em que cita as palavras do outro, valendo-se de um recorte; b) a forma pela qual o locutor inscreve palavras do outro em seu próprio discurso, ora pelo uso de aspas, de itálico de uma alusão a outro discurso sem que o fio discursivo seja partido; c) e a forma pela qual a presença do outro é mostrada no espaço do implícito, como no discurso indireto livre.

Sobre a heterogeneidade constitutiva, Maingueneau (1997) pontua que

mesmo na ausência de qualquer marca de heterogeneidade mostrada, toda unidade de sentido, qualquer que seja seu tipo, pode estar inscrita em uma relação essencial com uma outra, aquela do ou dos discursos em relação aos quais o discurso de que ela deriva define a sua identidade (p.120).

É nessa perspectiva que esse tipo de heterogeneidade se funda e sobre a qual Authier-Revuz (1990,2004) também traça importantes observações. A autora explica a heterogeneidade constitutiva tomando por base os pressupostos teóricos de Bakhtin, sobre o dialogismo, e de Pêcheux, sobre discurso como produção do interdiscurso, e explicita que

O dialogismo do círculo de Bakhtin faz da interação com o discurso do outro a lei constitutiva de qualquer discurso. Duas modalidades de interação às quais remetemos, aliás em termos de interdiscursividade, inscrevem constitutivamente a presença das “palavras dos outros no discurso: 1) a língua só se realiza

atravessada pelas variedades do discurso que se relativizam umas às outras em um jogo inevitável de fronteiras e interferências; 2) nenhuma vem neutra do dicionário, elas são todas “habitadas” pelos discursos em que viveram “ sua vida de palavras”, e o discurso se constitui, pois, por um encaminhamento dialógico, feito de acordos, recusas, conflitos, compromissos... pelo “meio dos outros discursos (AUTHIER- REVUZ,2004,p.68).

Assim, a autora assume a noção da heterogeneidade constitutiva como condição sine qua non para a existência do discurso. Esse tipo de heterogeneidade não se manifesta por meio de marcas linguísticas explícitas, mas é traspassada pelo interdiscurso e pela orientação dialógica de todo discurso.

Por fim, pode-se dizer que o sujeito está inserido em um determinado lugar e tempo e esta inserção – que não é materialmente marcada- só é percebida pelos mecanismos ideológicos veiculados pelo discurso, que, por seu turno, é entrecortado pelos interdiscursos, constitutivamente. O dizer do sujeito sempre é determinado por outros dizeres e são percebidos porque também ecoam na memória discursiva do leitor ou do ouvinte. Os ecos dos muito discursos seriam os fatores auxiliares na percepção da heterogeneidade constitutiva.

Na seção seguinte, apresentamos o percurso metodológico desta pesquisa.

4.Metodologia

Nesta seção, caracterizaremos o tipo de pesquisa realizada, a escola, a professora e a formadora observadas, os instrumentos que serão utilizados para a coleta de dados e a maneira como se encaminhou a investigação. Desse modo, partimos da premissa de que a pesquisa científica é voltada para uma investigação minuciosa, que requer do pesquisador uma postura ética e neutra com relação aos aspectos encontrados.

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