CAPÍTULO IV – A VIRADA CULTURAL COMO INSTRUMENTO DE REQUALIFICAÇÃO DO CENTRO
4.4. O DISCURSO DA V IRADA C ULTURAL ANALISADO A PARTIR DA BUSCA DA VOCAÇÃO DOS LUGARES E DO
Ao levar as pessoas a frequentarem o espaço público da região central atraídas por boa música, bons espetáculos, e experiências insólitas, a Virada Cultural lança um olhar contemporâneo para a metrópole do século XXI, indo além de qualquer intenção saudosista em relação ao Centro. Contribui para a derrubada de preconceitos, tendo o potencial, portanto, de transformar gradualmente a opinião e olhar de parte da população sobre a região, cuja infraestrutura cultural, de lazer e entretenimento permanece desconhecida de grande parte da população paulistana.
Decerto que apenas o fim dos preconceitos contra a região ou a opinião da população não é capaz de transformar ou requalificar a região. Mas a opinião da
população gera e é gerada por um interesse pessoal; e este, por sua vez, gera e é gerado por outros tipos de interesse: econômicos, culturais, turísticos, políticos, mercadológicos e imobiliários. Estes sim, juntos, são capazes de transformar o caráter do Centro de São Paulo, para que seja espaço de todos os cidadãos; para uns, lugar de confrontar-se com o outro; para outros, lugar de trabalho, descanso, de ócio ou de lazer; para outros ainda, lugar de manifestações políticas ou simplesmente, lugar de passagem.
Reconhecemos, portanto, na Virada Cultural um potencial instrumento para a requalificação do Centro, que, se bem utilizado, pode contribuir, como já o tem feito durante as 24 horas do evento, para o aumento da segurança e do interesse, por parte do poder público e da população, em manter o patrimônio histórico, artístico e arquitetônico da região. Além disso, contribui para o reconhecimento da cidade como polo turístico. Segundo Danilo Santos de Miranda, diretor regional da rede Sesc-SP, a Virada Cultural se apresenta com a marca da diversidade,
“demonstrando o potencial que a cultura tem para movimentar mentes, a civilidade, a economia e a participação social” (MIRANDA in: PMSP 2012).
Além da proposta de ocupar o Centro de São Paulo, a redescoberta da região faz parte do discurso dos organizadores da Virada Cultural. Há nobreza neste discurso e há, sem dúvida, méritos na capacidade de atrair 4 milhões de pessoas às ruas, as quais usufruem o espaço público de forma intensa, como em nenhum outro dia do ano. Por outro lado, a análise sobre o perfil do público participante e seus motivos em frequentar a Virada Cultural faz-nos questionar a profundidade da relação entre o evento e o Centro da cidade, uma vez que grande parte dos frequentadores, inclusive turistas, é atraída pelas atrações culturais oferecidas gratuitamente, em especial as musicais.
Como já visto anteriormente, o evento se distancia da sua origem francesa:
esta última mantém estreitos os laços entre a arte contemporânea e o patrimônio edificado (inclusive este é o conceito que deu origem à Nuit Blanche). Analisamos, a seguir, como a Virada Cultural aplica o discurso de redescoberta do Centro que propõe e se o mesmo tem alguma eficácia. Para tanto, nos valemos do destacamento de algumas iniciativas da programação da Virada Cultural que cremos
contribuir para a redescoberta do patrimônio histórico-cultural da cidade e de lacunas que deixa, sempre tendo como termo comparativo a Nuit Blanche francesa.
A proposta de redescoberta dos edifícios importantes para a cidade se dá, na maioria das vezes, por meio de intervenções (projeções de imagens, realização de acrobacias) nas fachadas de edifícios, como a programação chamada de Percursos Imagéticos, composta por uma mostra interativa e projeção de imagens em edifícios como o Pátio do Colégio, o Edifício Condor, o Edifício Altino Arantes e o Edifício Alexandre Mackenzie. O objetivo destas atividades é mudar a perspectiva do espectador com relação a edifícios aos quais não atenta no cotidiano, convidá-lo a
“olhar para cima”, porém, não fornece qualquer informação a respeito de sua história ou importância cultural para a cidade. Nas figuras a seguir, podemos ver dois exemplos de intervenções artísticas: a Figura 21 mostra uma projeção de imagens no Edifício Altino Arantes (a antiga sede do Banespa) enquanto a Figura 22 mostra a realização de acrobacias no Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo.
Figura 21 – Projeção no Edifício Altino Arantes, durante a 7ª Virada Cultural Foto: Pierre Duarte/ Folhapress. Fonte: Folha de S. Paulo60
60 Disponível no em: <http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/2675-virada-cultural-2011#foto-52598>
- link acessado em maio/ 2013.
Figura 22 – Performance acrobática na fachada do Edifício Matarazzo durante a 6ª Virada Cultural
Foto: J. B. Neto/Agência Estado. Fonte: O Estado de S. Paulo61
Atividades literalmente educativas com relação ao patrimônio histórico da cidade se resumem geralmente aos passeios guiados. Ao longo de sua história, destacamos as Jornadas Fotográficas e a Saída Fotográfica Atrás da Lua (em que os participantes fotografam a cidade durante o evento), passeio através das obras de Oscar Niemeyer no Centro da cidade (2008), Circuito Pedal (visita guiada de bicicleta através dos museus da cidade) e o TurisMetrô, que aderiu à Virada Cultural em várias edições. Apesar de fora do perímetro deste estudo, citamos também o passeio noturno guiado pelo Jardim da Luz, de 2005 a 2008, e o passeio guiado pelo Parque do Ibirapuera promovido pelo Museu de Arte Moderna (MAM). Desta maneira, as atividades instrutivas sobre o patrimônio histórico são ínfimas com relação à quantidade total de atividades propostas.
Não se nega, porém, o fato de um edifício sediar uma apresentação artística já ser capaz de inseri-lo na memória e na experiência do participante. Como no caso do Pátio do Colégio, por exemplo, que muitas vezes cedeu lugar a apresentações teatrais que não tinham necessariamente uma relação literal com o edifício, como ilustra a Figura 23, mas contribuem para a divulgação deste patrimônio histórico e sua inserção nos “mapas mentais” (LYNCH, 2011) dos visitantes.
61 Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,apesar-de-problemas-virada-cultural-diverte-4-milhoes-em-sp,552642,0.htm> - link acessado em maio/ 2013.
Figura 23 – Performance no Pátio do Colégio durante a 7ª Virada Cultura.
Foto: Alessandro Shinoda/ Folhapress. Fonte: Folha de S. Paulo62
Outro fator de suma importância para a “redescoberta” do Centro é o grande público que museus e outras instituições são capazes de atrair durante a Virada Cultural, fazendo que o número de visitações durante o evento mais que dobre com relação aos dias normais. O Teatro Municipal, por exemplo, adquiriu a tradição de atingir a lotação máxima em praticamente todas as suas apresentações durante a Virada Cultural.
Com relação à disposição dos palcos, na maioria das vezes, não demonstra grande preocupação com relação aos edifícios. Quando não se coloca de costas, ou mesmo bloqueia sua visão, não dá a ele nenhum destaque especial além da já existente iluminação, ou integra com ele sua programação. A Figura 24 mostra o público enquanto assiste à programação no palco Estação da Luz. Notar que o público fica de lado para a Estação, patrimônio histórico de São Paulo, e o palco, consequentemente, posto de maneira perpendicular a ela. A Estação não é integrada à programação, a não ser como cenário.
62 Disponível em: <http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/2675-virada-cultural-2011#foto-52678> - link acessado em maio/ 2013.
Figura 24 – Público assiste a apresentação no palco Estação da Luz durante a 8ª Virada Cultural.
Foto: Danilo Verpa/ Folhapress. Fonte: UOL Entretenimento63
A Figura 25 mostra a mesma situação: um palco para apresentações musicais disposto próximo a um edifício de grande relevância histórico-arquitetônica para a cidade, mas sem estabelecer relação direta com ele.
Figura 25 – Público assiste à apresentação em palco na Praça da República durante a 4ª Virada Cultural.
Fonte: Loud Channel64
63 Disponível no site http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2012/05/04/virada-cultural-de-sp-comeca-neste-sabado-5-com-900-atracoes-e-transporte-publico-ininterrupto.htm, link acessado em maio/ 2013.
64 Disponível em: <http://loudchannel.blogspot.com.br/2008/05/virada-cultural-palco-rock-repblica.html>- link acessado em maio/ 2013.
Exceção ao caso é o palco do Largo São Francisco, quando este recebeu programação de música eletrônica em algumas edições. Neste caso, o DJ convidado ficou disposto em um dos balcões do edifício, de onde comanda o público, como demonstram as Figuras 26 e 27. A programação, desta maneira, considera integralmente o edifício, sendo ele o próprio palco.
Figura 26 – Palco de música eletrônica no Largo São Francisco durante a 7ª Virada Cultural.
Foto: Pierre Duarte/ Folhapress. Fonte: Folha de S. Paulo65
Figura 27 – Palco de música eletrônica no Largo São Francisco durante a 6ª Virada Cultural
Foto: Foco Jornalismo/ Fonte: Notícias da Virada Cultural66
65 Disponível em: < http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/2675-virada-cultural-2011#foto-52599> - link acessado em maio/ 2013.
66 Disponível em: http://noticiasdavirada.files.wordpress.com/2010/05/fac-direito.jpg, link acessado em maio/ 2013.
Para a redescoberta do Centro da cidade por parte de seus cidadãos, fator fundamental para a requalificação da região, consideramos ainda a busca da vocação e do potencial dos lugares onde se desenvolve a Virada Cultural, dentro do perímetro deste estudo. Para realizar esta análise, usamos, a seguir, a numeração de palcos e nomenclatura utilizadas na Figura 28 e no Quadro 10.
Na Figura 28, os números inseridos em círculo vermelho indicam pontos de atividades em espaços públicos; os inseridos em círculo azul, pontos de atividades em locais fechados. Apesar de o mapa referir-se à 8ª Virada Cultural, buscamos em outras edições correlações entre a localização dos palcos, os que estão situados neste mapa, e a busca da vocação dos lugares.
Figura 28 – Mapa com a distribuição dos pontos de atividades da 8ª Virada Cultural dentro do perímetro de estudo.
Fonte: recorte e montagem a partir de mapa do Google Maps in: ZARPELON; ABASCAL, 2012.
Quadro 10 – Legenda dos pontos de eventos
A seguir estão descritos os eventos da Virada Cultural que foram desenvolvidos no espaço público e que atentaram à vocação dos lugares em que se inseriram.
- Palco 3, Coreto República: na edição de 2012, visando a reinventar o uso original das bandas de coretos por meio de apresentações de música urbana e contemporânea, como jazz, rap e música regional e eletrônica, este palco reestabeleceu o uso que o coreto um dia teve na Praça da República. Redescobre sua potencialidade e funciona seja como uma provocação seja como estímulo para que o coreto volte a funcionar como espaço de lazer, contemplação, divertimento tendo, como pretexto, apresentações musicais.
- Palco 7, Arouche: ponto de encontro gay, o palco não recebe normalmente programação voltada ao público LGBT. A organização do evento se justifica afirmando que naquela área residem muitos idosos, que compõem grande parte da frequência do Largo. Os eventos ali desenvolvidos consideram este público. O Largo do Arouche recebeu ainda, em 2010, a primeira edição da Revirada, evento nascido a partir da Virada Cultural, cujo tema foi “baile”. Segundo seus organizadores, o tema foi escolhido com base na vocação do lugar.
- Palco 9, Anhangabaú: relembrando o evento “Venha ao Vale” (ver subitem 2.4), reafirma o potencial e a vocação do Vale do Anhangabaú para eventos de médio porte, mostrando que há demanda para programação de qualidade no Centro de São Paulo. Durante a Virada Cultural, o Vale funciona geralmente como palco para concertos, orquestras e companhias de dança.
- Palco 13, Rua Araújo: conhecida por abrigar a famosa casa noturna Love Story, a Rua Araújo, mais especificamente a Praça Darcy Penteado, recebeu durante as últimas edições da Virada Cultural um cabaré a céu aberto. Interpreta com humor o uso que as ruas do entorno da praça possuem no quotidiano: é reduto de travestis e prostitutas. Desta forma, respeita e afirma a vocação do lugar.
- Palco 15, Largo São Bento: em 2008, cede lugar ao evento chamado Silent Disco: um DJ toca para pessoas com fone de ouvidos sem fio. Assim, em frente ao Mosteiro São Bento, pessoas dançavam em silêncio, respeitando uso cotidiano do lugar e chamando a atenção do público para sua simbologia.
- Palco 18, Praça Dom José Gaspar: a partir de uma iniciativa nascida durante a Virada Cultural, a praça recebe quinzenalmente o evento Piano na Praça, em que pianistas apresentam a céu aberto de forma gratuita a cada quinze dias.
Podemos afirmar que a Virada Cultural contribuiu para a descoberta e, posteriormente, do reforço da vocação deste lugar.
- Palco 20, Santa Ifigênia: em 2012, uma roda de rock e o palco Baratos Afins, que também dá nome a uma tradicional loja de discos e produtora do rock independente situada no Largo Paissandu, dá continuidade à vocação do lugar. No palco, bandas de rock independente lançadas pelo selo; na plateia, amantes do rock, frequentadores ou não da região. Durante aquela edição, a organização atentou à vocação do largo (entendida como extensão das atividades que recebe cotidianamente). O largo reuniu em 2011, em frente à Galeria do Rock, artistas que utilizam o próprio corpo como forma de expressão, como a suspensão corporal, tatuagens e piercings, estilo de arte familiar para parte dos frequentadores da Galeria. O palco Santa Ifigênia já recebeu também, em outras edições, o palco Boteco de Bambas, o palco de rap, entre outros.
- Palco 21, 24 de Maio: Em 2012 cedeu espaço para as artes corporais Pode-se dizer que este palco respeita a vocação do lugar, pois a Rua 24 de Maio é conhecida por abrigar diversos estúdios de piercings e tatuagens.
- Palco 23, Libero Badaró: a Rua Libero Badaró e os calçadões do entorno quotidianamente são tomados por mágicos, performances populares e contadores de história. O palco destinado a oferecer 24horas de apresentações de mágica, em 2012, se insere, portanto, no uso que ali transcorre nos outros dias do ano.
A partir desta rápida análise, concluímos que poucos pontos de atividades atentaram à vocação ou à tradição dos lugares em que se inseriram. No caso analisado, foram apenas nove palcos dentre um total de 34.
A Nuit Blanche, por sua vez, apresenta percursos artísticos pré-definidos a serem percorridos a pé, de bicicleta ou por transporte público, como já citamos anteriormente neste mesmo capítulo. As artes plásticas, prioritariamente a arte contemporânea, são o carro chefe do evento e conta também com apresentações teatrais, musicais e outras formas de manifestações artísticas e culturais. O conceito
do evento é baseado no vínculo entre arte contemporânea e a cidade, como demonstra a instalação chamada Decor Sonore, obra do artista plástico Michel Risse que teve lugar na Universidade Pierre e Marie Curie, criada especialmente por ocasião da 10ª Nuit Blanche (Figura 29). Trata-se de uma “decoração sonora”, em que o artista utiliza-se de recursos audiovisuais contextuais, ou seja, sons permanentes ou recorrentes do próprio local (ruídos provenientes do metrô, do trânsito de automóveis, do sistema de ventilação, burburinho de pessoas, assim por diante), bem como de elementos da arquitetura da Universidade, como paredes, esculturas e muros. O objetivo de Risse é criar, por meio destes elementos, uma harmonização entre sons, estrutura física e iluminação, criando um “jardim”
sensorial, que leva o visitante a olhar o edifício a partir de novas perspectivas e despertar nele novas sensações (MAIRIE DE PARIS, 2012).
Figura 29 – Instalação Decor Sonore durante 11ª Nuit Blanche, em Paris.
Fonte: Mairie de Paris, 2012.
Projeções e instalação em fachadas de edifícios de importância histórica e arquitetônica para a cidade são recorrentes na programação da Nuit Blanche, como também o é no caso paulistano. A Figura 30 mostra a projeção da imagem do Cristo Redentor, símbolo do Rio de Janeiro, sobre a fachada da Catedral de Notre Dame, durante a 4ª Nuit Blanche, em 2005.
Figura 30 – Projeção da imagem do Cristo Redentor sobre a fachada da Catedral de Notre Dame durante a 4ª Nuit Blanche, em Paris.
Fonte: Daily Photo in Paris67 .
Já na edição de 2010, a sede da Prefeitura de Paris recebeu uma instalação artística realizada por meio da fixação de elementos luminosos em sua fachada com os dizeres “ame as diferenças” em diversos idiomas – instalação simbólica, porquanto prega a aceitação e a tolerância em um dos edifícios mais emblemáticos para a democracia de uma cidade, a “casa do povo”, como também é conhecida a sede Prefeitura (Figura 31).
67 Disponível em: <http://solotravelerblog.com/wp-content/uploads/2011/01/nuit-blanche-paris-540.jpg?9d7bd4> - link acessado em maio/ 2013
Figura 31 – Instalação sobre a fachada do edifício sede da Prefeitura de Paris, durante a 9ª Nuit Blanche, em Paris.
Fonte: Daily Photo in Paris68
As análises realizadas neste capítulo nos levam a concluir que a Virada Cultural é eficaz em sua proposta de levar o cidadão a ocupar o Centro de São Paulo mediante a atratividade causada pela cultura, tendo por base dois fatores, a saber: a considerável quantidade de pessoas que participam da Virada Cultural no espaço público e o crescente interesse de estabelecimentos comerciais em manterem abertas suas portas durante o evento. Por outro lado, conclui-se que o evento é eficaz, ainda, como elemento fortificador da vocação cultural da região, bem como da imagem de destino turístico de lazer e entretenimento que o poder público vem tentando, nas últimas gestões, fixar para a cidade.
Podemos mencionar ainda a importância do evento em levar ao conhecimento do cidadão paulistano e do turista a infraestrutura cultural disponível no Centro, como demonstra o aumento no número de visitantes aos museus, instituições culturais e teatros da região durante a Virada Cultural.
No entanto, deixa as seguintes lacunas, que poderiam ser melhor trabalhadas: busca efetiva pela vocação histórica ou potencialidade inerente aos
68 Disponível em: < http://dailyphotoparis.blogspot.com.br/2010/10/nuit-blanche.html> - link acessado em maio/ 2013.
lugares em que se desenvolve, educação ou instrução do público participante em relação ao patrimônio histórico edificado – já que estes funcionam, na grande maioria dos casos, como mero cenário e não como peça indissociável de uma busca pela redescoberta do patrimônio da cidade. Podemos apontar deficiência na relação entre o evento e as demais políticas urbanas para o Centro de São Paulo, assim como em propostas que visem à prolongação dos efeitos causados pela Virada Cultural para além da sua duração.
Considerações Finais
O presente trabalho colocou como principal objetivo a análise e o aprofundamento em questões sobre formas de ocupação efêmera do espaço público e sua utilização pelas gestões governamentais nos discursos para a requalificação do Centro Histórico da cidade de São Paulo. Em meio a diversas possibilidades, escolheu-se a Virada Cultural como objeto de estudo por reconhecer no evento características significativamente democráticas, além de apresentar um discurso muito atraente com relação à reapropriação do Centro por meio de oferta cultural.
Para alcançar o objetivo proposto, levantamos, primeiramente, a necessidade de uma abordagem contemporânea para o espaço público, questionando se suas funções primárias – como a de funcionar como espaço político e social, por exemplo – têm ainda alguma relevância dentro do contexto de uma megalópole global, como é o caso de São Paulo. A análise da obra alguns estudiosos da cidade e da sociedade contemporâneas, como Jan Gehl, Henri Lefebvre, Olivier Mongin, David Harvey, Hannah Arendt e Gilles Lipovetsky, nos levaram a compreender que a cidade está em constante evolução, assim como as funções dos seus espaços públicos. Mesmo tendo se distanciado do seu conceito e, principalmente, de sua forma “tradicional”, o espaço público continua a ter importância, sendo inclusive fator primordial para a existência do urbano.
A partir deste entendimento, identificamos o processo de transformação atravessado pela região central da cidade de São Paulo, que culminou em dois aspectos marcantes referentes à sua ocupação humana: o primeiro, heterogeneidade em relação aos horários de frequentação, apresentando fluxo intenso durante o horário comercial e esvaziamento para além deste horário; o segundo, homogeneidade de motivações que levam as pessoas a frequentarem a região, sendo predominantes as de trabalho e serviço em detrimento das de lazer, cultura, entretenimento e encontro (em suma, motivações sociais) e mesmo moradia.
Tendo em mente que o fortalecimento de atividades sociais no espaço público é desencadeado principalmente pela permanência de pessoas e não simplesmente passagem delas – o que constitui, ao lado de outros fatores, aspecto indispensável
para que uma área goze de plena vitalidade – este quadro referente ao Centro não pode ser desprezado na elaboração de qualquer política urbana que intente levar as pessoas a frequentarem novamente a região por razões além de trabalho e serviços.
A Virada Cultural é uma iniciativa que leva em conta tais aspetos em seu discurso, o qual, vimos, foi moldado ao longo das edições. O evento passa a propor o reestabelecimento da função social do espaço público, função esta enfraquecida
A Virada Cultural é uma iniciativa que leva em conta tais aspetos em seu discurso, o qual, vimos, foi moldado ao longo das edições. O evento passa a propor o reestabelecimento da função social do espaço público, função esta enfraquecida