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CAPÍTULO IV – ANÁLISE DOS DADOS

4.2 Infraestrutura geral do texto

4.2.4 Discurso misto teórico com relato interativo

O tipo de discurso relato teórico misto com o relato interativo apareceu nos ensaios E1, E4 e E17, mesclando a experiência do sujeito-autor com seu objeto de discussão. Veja os excertos abaixo, nos quais os trechos em destaque exemplificam a fusão entre os dois tipos de discurso, teórico e relato interativo, principalmente.

(23) No ano em que festejou o seu centenário de nascimento, 2005, muito se falou sobre a temática. Mas, a que conclusão chegaram os debatedores? As respostas são díspares. Primeiro contato com a jovem Anayde Beiriz – pois veio a falecer aos 25 anos – aconteceu entre setembro de 1990 e setembro de 1991, quando participei, na qualidade de aluno do curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE da pesquisa O outro discurso – Ensaístas pernambucanas no século XIX [...]. A grande questão é: porque uma revista voltada à burguesia e à elite pernambucanas publica texto que fala, abertamente, em transgressões femininas, tendo em vista que Nelly é personagem amante de Jean Martin? A Revista da Cidade preocupava-se, sobretudo, com a frivolidade da elite e os bons costumes ditados na época... [...] (p. 298). Reitero, também, que foram necessários 16 anos até que eu produzisse este texto. Tempo do fruto maturar. Necessitei viver antes a compreensão da personagem em foco. (JAPIASSU, 2009, p. 299)

(24) No seu diário, por exemplo, transcreveu a poesia Navio Negreiro, do poeta baiano Castro Alves, comprovando assim seu itinerário de leitura: engajado, libertário e anti-racista. A ela bem cabe a metáfora de Peregrina da Liberdade. Mulher que saía desacompanhada, usava cabelos à la garçonne e saias que não cobriam os pés. Matéria de mulher, que a tornou inserida na História. Exatamente neste sentido, o pesquisador José Joffily (1980. p. 39) a compara à intelectual feminista do interior de São Paulo, mais precisamente de São João da Boa Vista, Patrícia Galvão, ou simplesmente Pagu. (JAPIASSU, 2009, p. 307) (trecho teórico)

(25) Quando, no segundo semestre de 2002, ministrei para universitários (na UFPB) um curso sobre o conto brasileiro, percebi que os textos mais perversos, brutais, despertavam nos estudantes um enorme interesse. [...] Parece que minha intuição (e também era algo não muito difícil de perceber àquela altura), ao ministrar um curso sobre contos violentos em 202 e organizar a coletânea Contos Cruéis em 2006, estava em boa medica correta, como diagnóstico não só da literatura, mas, de forma oblíqua, do cinema e mesmo de outras mídias contemporâneas.‖ (p. 175-176). [...] O professor da USP Alcides Villaça questionou a validade da pesquisa dizendo: ―Eu ficaria espantado se o resultado tivesse sido outro‖. Disse ainda: Se a literatura tivesse sido, desde o início, espelho das virtudes

desejáveis, não se teria recomendado a expulsão dos poetas da República. Bom, com todo respeito, eu discordo do ponto de vista do professor. Na minha opinião, a pesquisa da professora da UnB é bastante válida — é um termômetro que avalia ideologicamente (e por que não?) a posição de nossos narradores contemporâneos. Talvez o recorte da pesquisa, restringindo-se a romances publicados entre 1990 e 2004, é que seja um pouco problemático, haja vista, por exemplo, o grande impulso do conto recentemente. Um conto — e, é claro, estou falando o óbvio — pode ser mais significativo do que um romance. Pode ser um ―resumo implacável de uma certa condição humana‖ ou mesmo um ―símbolo candente de uma ordem social ou histórica‖, conforme Julio Cortázar (FERNANDES, 2012, p. 178).

(26) Por ocasião do Simpósio ―Cultura e Fim de Milênio‖, participei de uma mesa redonda cujo tema era “A educação dos sentidos: música e subjetividade”. A mim coube refletir sobre o tema tendo em vista a pesquisa que havia realizado no curso de doutorado (HONORIO FILHO, 1998). (p. 9) Se no século XIX, segundo Tchaikóvski, a expressão do amor não necessitava do uso das palavras, no XX, principalmente a partir do emprego do rádio e do disco para fins de comunicação e prazer, o casamento entre música e palavras cantadas se tornou uma evidência histórica. Pode-se dizer que a música, constituída de som e palavras, veio compor, no cenário da modernidade deste século, a fila das matérias-primas simbólicas significativas para as relações sociais. Impregnada de um ―querer dizer‖ que não é só verbal nem apenas ―musical‖ mas performativo, a canção veio ocupar um lugar ao sol no mercado simbólico. Neste sentido, enquanto expressão simbólica, torna-se limitado tomar apenas seu alcance econômico. A extensão de seu poder atravessa também os meandros da cultura e da política (FILHO, 2001, p. 13).

Podemos constatar o relato pelo uso de primeira pessoa do singular (ministrei, na minha opinião, participei, parece que minha intuição, eu discordo), marcação de espaço- tempo (no segundo semestre de 2002, Por ocasião do Simpósio ―Cultura e Fim de Milênio‖; participei de uma mesa redonda cujo tema era ―A educação dos sentidos: música e subjetividade‖), ao mesmo tempo em que há orações impessoais (―Pode-se dizer que a música, constituída de som e palavras, veio compor, no cenário da modernidade deste século, a fila das matérias-primas simbólicas significativas para as relações sociais‖), marcadores argumentativos (neste sentido, mas, talvez) e um viés teórico argumentativo assumido ao longo do texto. É interessante observar que nos ensaios houve o imbricamento dos tipos relato-interativo e teórico. Embora não esperássemos encontrar relato em um gênero acadêmico, cujos autores possuem alto grau de formação, essa fortuita descoberta contribui para a hipótese de que o autor do ensaio não visa apenas provocar discussão, mas também demonstrar e dialogar seu ponto de vista a partir de sua experiência pessoal, o que revela uma relação com o interlocutor talvez mais ativa do que a que se verifica no artigo.