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Discurso Queer versus Discurso Machista: sempre conflitantes e

Entre os vários discursos que circulam na sociedade podem existir relações de complementariedade, de concorrência, de conflito etc. Quando dois ou mais discursos são complementares significa que um pode dar suporte ao outro, que eles podem formar sujeitos de um mesmo tipo, que se porta na sociedade dentro de um mesmo padrão de comportamento. São discursos em uma mesma lógica e não concorrem entre si, mas se complementam. Já quando dois ou mais discursos são concorrentes, significa dizer que eles querem formar sujeitos de tipos diferentes e oferecem ou disponibilizam posições de sujeitos também concorrentes. São discursos que entram em conflito, que demandam formas diferentes de ser, que querem e desejam sujeitos diferentes. Assim eles concorrem, disputam forças para existir e ganhar espaço na sociedade.

Vimos no capítulo 6, que os discursos feminista e machista são concorrentes, pois eles querem formar sujeitos de tipos diferentes. Se o Discurso Machista é concorrente e conflitante em tudo com o Discurso Feminista, como foi explicitado no capítulo 5 desta dissertação, o Discurso Machista também é conflitante em todos os pontos com o Discurso Queer. Afinal, o Discurso Machista é binarista, generificado, hierárquico, identitário, normativo, excludente. Ele define o que é ser mulher e o que é ser homem52, de forma a tornar abjeto qualquer um que fuja ou descaracterize essas identidades. O Discurso Queer e o Discurso Feminista recusam as identidades que o Discurso Machista quer naturalizar para homens e mulheres. No entanto, o Discurso Feminista lança mão de outras identidades para lutar por direitos – que serão discutidos no próximo tópico. O Discurso Queer, no entanto, questiona tanto as identidades tidas como naturais pelo Discurso Machista quanto a utilização de identidades como ponto de partida para a política feminista.

O Discurso Machista também é heteronormativo e uma das causas apontadas neste capítulo para isso é o fato de se considerar sexo como algo biológico/ natural, que por sua vez determinaria um gênero de bipolaridade fixa, e este induziria ao desejo heterossexual. Essa lógica heteronormativa é fortemente combatida pelo Discurso Queer. Este tópico tem como objetivo discutir como o Discurso Queer ampara/dá suporte teórico para a luta contra a heteronormatividade a partir da desvinculação da relação sexo-gênero-

52 A identidade demandada para mulheres e homens pelo Discurso Machista, ou seja, as posições de sujeito disponibilizadas para mulheres e homens pelo Discurso Machista de forma a parecerem naturais e obrigatórias foram discutidas no capítulo 6 desta dissertação.

sexualidade. “Essa constituição, lembra-nos Butler nunca é feita de maneira neutra, mas a partir de discursos que se assentam num binarismo restritivo, no falocentrismo53 e na heterossexualidade compulsória.” (PELÚCIO, 2012, p.210).

A polaridade fixa/ restritiva é um ponto de conflito importante entre o Discurso Machista e o Discurso Queer. O Discurso Machista polariza o feminino e o masculino de forma que somente existam essas duas possibilidades e um é construído em relação ao outro. Assim, o masculino depende da existência do feminino, de sua definição natural e inquestionável e da negação dele para se constituir também natural e inquestionável - e vice-versa. O falocentrismo garante a dominação masculina em relação ao feminino. “A univocidade do sexo, a coerência interna do gênero e a estrutura binária para o sexo e o gênero são sempre consideradas como ficções reguladoras que consolidam e naturalizam regimes de poder convergentes de opressão masculina e heterossexista” (BUTLER, 2016, p.70) pelo Discurso Queer. O Discurso Queer rompe com o binarismo pois não considera a relação “entre” um e outro e sim a diferença em si.

A diferença em si é um conceito desenvolvido por Gilles Deleuze que significa o diferenciar-se em si da coisa (DELEUZE, 1988). A diferença em si é a diferença pura, não se refere ao indivíduo diferente, “nunca é diferença entre dois indivíduos”, “não é produto” e “não é relação” (PARAÍSO, 2010b, p.589). A representação “fixa a diferença como identidade, entre o excesso e a deficiência” (GARCIA, 2007, p.19), “não consegue capturar o grande demais e o pequeno demais da diferença” (GARCIA, 2007, p.19). Em vez de a identidade, “que tenta reduzir a diversidade a um elemento comum, Deleuze prefere a diferença em si, a variação, a multiplicação, a disseminação e a proliferação” (PARAÍSO, 2010b, p.588). Nela, “a noção platônica de cópia é abandonada” (GARCIA, 2007, p.19). Então, a diferença “é comportar-se em relação a algo que não tem semelhante ou equivalente. A diferença é o que vem primeiro; é o motor da criação; é a possibilidade de no meio, no espaço-entre” PARAÍSO, 2010b, 592). “Um pensar a diferença não deveria ser juízo de nada, ele deveria coexistir com molaridades, não cessando de molecularizar.” (GARCIA, 2007, p.19). No mesmo sentido, devemos pensar a diferença pura nos currículos: “ou a diferença pura se torna, de uma vez por todas, a principal argila de nosso trabalho pedagógico e curricular, ou seremos educadores perdidos, à deriva, fora de nosso tempo.” (CORAZZA, 2005, p.10).

53 Sobre o falocentrismo, ou seja, sobre a ideia de que o homem é superior à mulher e a todos/as que fujam às normas de gênero, discutimos bastante no capítulo 6. Agora darei continuidade ao texto focando a discussão no binarismo restritivo/ bipolaridade fixa e na heterossexualidade compulsória.

O Discurso Machista é heteronormativo e por isso tem uma lógica obrigatória fixa, que não compreende a diferença em si. A heteronormatividade, como nos explica LOURO (2013),

supõe e institui uma consequência, ela afirma e repete uma norma, apostando numa lógica binária pela qual o corpo, identificando como macho ou como fêmea, determina o gênero (um de dois gêneros possíveis: masculino ou feminino) e leva a uma forma de desejo (especificamente, o desejo dirigido ao sexo/gênero oposto)” (LOURO, 2013, p. 82).

Para o Discurso Machista, existe uma lógica natural e prescritiva entre sexo, gênero e sexualidade. “Essa sequência supõe e institui uma coerência e uma continuidade entre sexo-gênero-sexualidade”. “Ela afirma e repete uma norma” (LOURO, 2013, p.82). O queer desvincula sexo-gênero-sexualidade. Para os Discurso Queer, essas três categorias são independentes e de múltiplas possibilidades de combinação.

“A coerência e a continuidade supostas entre sexo-gênero-sexualidade servem para sustentar a normatização da vida dos indivíduos e das sociedades” (LOURO, 2013, p.90). No entanto, essa “sequência não é natural, nem segura, muito menos indiscutível” (LOURO, 2013, p.83), “a sequência desliza e escapa” (LOURO, 2013, p.83). O Discurso

Queer é um convite ao confrontamento à norma, à regra e para isso disponibiliza várias posições de sujeito onde a sequência sexo-gênero-sexualidade são quebradas e

embaralhadas. “A diversidade de sujeitos, corpos e identidades representadas em narrativas autobiográficas de pessoas trans evidenciam a não coincidência e a não linearidade do sistema sexo/gênero/desejo” (ALVES, 2017, p.5). A professora Tulipa, durante a entrevista, contou sobre um caso que viu na televisão que pode nos servir como exemplo e como fonte rica de análise sobre os discursos presentes nessa fala:

Professora Tulipa: Por exemplo, sabe o que eu vi na televisão, que eu fiquei assim... Gente! tem de tudo mesmo! Um casal que era o seguinte: a menina nasceu menina e aos treze anos descobriu que ela se sentia menino, então ela começou a se vestir como menino. E o menino que aos quinze anos resolveu se assumir como menina, entendeu?! Aí eles se encontram, começa a ter uma amizade. Da amizade nasce um grande amor, foram morar juntos. Aí, apesar deles serem... uma ser lésbica e o outro homossexual, eles mantinham relações heterossexuais, aí o menino engravidou. Aí a mulher, que, no caso, não é mulher, falou ‘ah, você não vai querer ter porque vai estragar seu corpo, sua mama vai encher’. E ele falou ‘Não. Eu quero ter!’. Então, apesar dela ser sapatão, ela aceitou seguir com a gravidez e teve um menino. Vi num programa [de televisão]. Aí a psicóloga [do programa] falou assim: ‘Nossa, mas é um tanto quanto complicado, como é que vocês vão explicar isso pra esse menino?’. Aí a mãe falou a verdade: ‘Uai, nós vamos falar a

verdade pra ele. Que a mamãe era papai, que o papai era mamãe’. E ele nasceu dessa confusão toda e vai ser assim.

Tayline: É muito mais confuso pra nós do que pra eles, provavelmente, né?!

Professora Tulipa: E pra criança também não vai ser confuso. Mas, você vai imaginar que um casal homossexual tem relações heterossexuais e acontece uma coisa dessas? Então, muito legal, muito legal. Então eu acho assim, no mundo de hoje tem espaço pra tudo. Nada é anormal. Nada! (Trecho de entrevista com a professora Tulipa, 11/03/2016)

A primeira leitura do trecho acima a notícia parece confusa. No entanto, o que confunde são as terminologias utilizadas para explicar a vivência do casal citado. A professora Tulipa utiliza algumas expressões confusas como “uma menina que nasceu

menina”; “um menino que se assumiu menina”, “um menino que engravidou”, ela também

fala de “lésbica, sapatão, homossexual”, de um “casal homossexual que tem relações

heterossexuais”. Todos esses termos e expressões utilizadas por ela mostram sua tentativa

de nomear e identificar o casal dentro do sistema heteronormativo. Sua fala, repete e reitera uma história sob a “ótica heterossexual” (LOURO, 2013). Contudo, a esses casais, como o citado no trecho da entrevista, não cabem nomenclaturas e caixinhas. Não é possível falar deles/as com uma linguagem heteronormativa, por isso o trecho parece tão confuso. Eles não se conformam às normas de sexo, gênero e sexualidade. Eles são um

casal queer!

Ao fazer busca pela internet sobre casais queer, encontrei uma notícia que, como a professora Tulipa, também utilizou uma linguagem heteronormativa para se referir a um casal queer que teria um filho/a. O título da notícia54 é: “Homem que era mulher vai dar à luz a filho de mulher que era homem”. A linguagem utilizada para dar título ao fato, pode só parecer não ser adequada ou pertencente ao Discurso Queer. Porém, esses termos podem ter sido utilizados por ignorância e desconhecimento ou pode ser também uma estratégia para confundir os/as leitores/as e promover a discriminação desses casais. Esse título, da forma como está, perpetua o padrão heteronormativo, colocando o casal em uma exposição do tipo anormal, monstruosa, como não natural e que entende o sexo como algo natural e verdadeiro que este casal estaria negando.

Butler (2016) chama de “normas de inteligibilidade” aquilo que confere coerência, continuidade e uma identidade “natural” na sociedade a alguém. São essas normas de inteligibilidade que tornam inteligíveis, passíveis de compreensão e que dão caráter de

54 Ver em https://www.metropoles.com/mundo/homem-que-era-mulher-vai-dar-a-luz-a-filho-de-mulher- que-era-homem. Acesso dia 30/04/2018.

normalidade aos casais que se conformam às normas heterossexuais e de gênero. E essas mesmas normas tornam os casais queers ininteligíveis, incompreensíveis, estranhos, incoerentes, descontínuos, instáveis, confusos e “patológicos” (LOURO, 2013, p.84) sob a ótica heterossexual. Os queers escapam das normas de inteligibilidade, não se deixam ser definidos pelas normas sociais e culturais. Ao contrário, eles/as embaralham as normas. Então, tentarei reescrever a história contada pela professora Tulipa tentando alcançar uma ótica, se não for queer, ao menos que não seja heteronormativa:

Uma pessoa, ao nascer, foi declarada menina. No entanto, ao alcançar seus treze anos de idade se autodenominou menino, pois se identificou mais com o gênero masculino. Então, ele investiu sobre seu corpo práticas e adotou performances que o tornavam um menino. Uma outra pessoa que ao nascer foi declarada menino, investiu sobre seu corpo práticas e performances que o tornavam uma menina e se autodeclarou menina. Essas duas pessoas se encontraram e passaram a se relacionar. Foram morar juntos. Esse casal engravidou e quis assumir essa criança. Apesar de saber que seu corpo se modificaria muito durante a gravidez e o pós-parto e que, inclusive, poderia desenvolver característica consideradas femininas como crescer as mamas, aquele menino quis gestar e ter a criança. Ele e ela disseram não ter problemas em explicar para a criança quem ele/a são.

Essa foi uma tentativa de contribuição para que seja possível ver um contraste entre uma forma/ terminologia heteronormativa e uma forma/ terminologia queer para se referir ao mesmo casal. A professora Tulipa não utilizou uma terminologia típica de quem conhece o Discurso Queer, no entanto, ela divulga o Discurso Queer e demostra, evidencia a contestação à heteronormatividade. Esse é um bom exemplo para se entender a descontinuidade, a transgressão e a subversão possível para as categorias de sexo- gênero-sexualidade. Quando ela diz que a “menina nasceu menina”, a terminologia utilizada aciona a noção de sexo “em termos de uma característica biológica” (LOURO, 2013, p. 82) e que determina também seu gênero. No entanto, quando afirma “o menino

engravidou”, ela promove a noção de descontinuidade entre o sexo e o gênero, pois, a

heteronormatividade não concebe a ideia do sexo ou gênero masculino grávidA. O gênero nesse caso não foi definido a partir do sexo.

Sobre a explicação que o casal daria à criança, filho deles, fiz uma afirmação incitando-a a dar sua opinião. Sua resposta evidencia que a suposta sequência pode ser quebrada também na relação gênero-desejo/sexualidade: “pra criança também não vai

ser confuso”, um casal nessas configurações é “muito legal, muito legal. Então eu acho assim, no mundo de hoje tem espaço pra tudo. Nada é anormal. Nada!”. Isso é possível

normal e, portanto, não haveria, por conseguinte, o anormal; nem o centro, nem a periferia. Exatamente o oposto das relações de poder que o Discurso Machista estabelece, que são hierárquicas, binárias, misógenas e heteronormativas.

Outra professora, a Orquídea, também apresentou uma fala que desvincula sexo de gênero e sexualidade:

Orquídea: Outra coisa também, aí até para sair do gênero, né? o que não é o masculino nem o feminino, quem é? Reconhecê-lo como ele é, o gênero dele biológico, é uma coisa, né?! Assim, biologicamente, ele tem um sexo, mas e se ele não aceita e não convive com isso? (Trecho de entrevista com professora Orquídea, 16/03/2016).

No trecho da fala da professora Orquídea, fica explícito sua concepção sobre o sexo ser uma característica biológica. Isso entra em contradição com o Discurso Queer, que considera o sexo como construto social. O Discurso Machista e o Discurso Feminista consideram, cada um a seu modo e com suas consequências, a categoria sexo como biológico. Trago, portanto, no próximo tópico, a discussão e análise do Discurso Queer em relação ao Discurso Feminista e no tópico 7.4 discutiremos a categoria sexo como biológica ou construto social.