5. A LEGITIMIDADE DO DISCURSO: COM A PALAVRA OS PASTORES DA
5.3. Discurso religioso e poder: a legitimidade da autoridade institucional-religiosa da
A religião, consoante Bourdieu, pode ser interpretada como uma linguagem, instrumento de comunicação e conhecimento, que é um veículo simbólico- estruturante a possibilitar um consenso acerca de certos signos e seus respectivos sentidos (BOURDIEU, 1999). Numa comunidade religiosa específica como a AIECB, se pressupõe um acordo linguístico básico acerca de significados religiosos norteadores para a comunidade. Assim a doutrina e o discurso religioso se difundiriam pela partilha de tais significados. Esta partilha, entretanto, de acordo com Portella (2006, p. 568), numa leitura de Bourdieu (1999) e Foucault (2004b), é condicionada pela exigência de que se reconheçam as mesmas verdades e se aceitem as regras de conformidade com os discursos oficiais. Assim, a doutrina liga as pessoas a certos enunciados, lhes proibindo outros (FOUCAULT, 2004b).
A instituição religiosa, no nosso caso de estudo a AIECB, tem em seu corpo de especialistas (pastores) o monopólio da produção do discurso religioso e doutrinário, que se quer verdadeiro e normativo. A doutrina é sempre regulamentada
109 pelo discurso autorizado e dito legítimo da instituição (PORTELLA, 2006, p. 567). Há, nesta questão, uma acumulação de saber (capital de bens simbólicos) nas mãos de algumas pessoas, especialistas, que se constituem como aquelas autorizadas, por meio de sua racionalidade tornada oficial, a dizer o que legitimamente significa a verdade religiosa (Op. cit.). Este corpo de especialistas é aquele que tem autoridade para ensinar e dirimir dúvidas quanto a validade das questões religiosas (BOURDIEU, 1999).
Boa parte do esforço de Bourdieu se concentra em vincular o aparato religioso com a formação social demonstrando que a estrutura dos sistemas de representações e práticas religiosas tende a assumir a função de instrumento de imposição e legitimação da dominação, contribuindo para assegurar a dominação de uma classe sobre outra (ou de um sexo sobre outro), para a “domesticação dos dominados”.
Uma das formas de se controlar a produção e circulação do discurso é limitar o número daqueles que têm acesso oficial a ele. Nas palavras de Foucault, “trata-se de determinar as condições de seu funcionamento, de impor aos indivíduos que os pronunciam algumas regras e assim não permitir que todo mundo tenha acesso a eles” (FOUCAULT, 2004b, p. 36). Deste modo, “ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfizer certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê-lo” (FOUCAULT, Op. cit., p. 37).
Vimos que a partir dos primeiros séculos, no cristianismo, foi se formando uma classe separada dos leigos. A partir de então, os leigos, ou seja, as pessoas que não pertencem ao corpo de especialistas religiosos, devem se harmonizar com o que diz a doutrina de sua instituição (PORTELLA, 2006.). Consoante Foucault, eles não estão inseridos na ordem do discurso, pois não satisfazem certas exigências, inclusive de qualificação.
As missionárias da AIECB, no entanto, estão qualificadas teologicamente para tal, uma vez que passam pelos mesmos processos de formação teológica que os pastores. Qual, portanto, a exigência que elas não satisfazem a fim de entrar na ordem do discurso institucional hierárquico? Podemos dizer que elas não satisfazem o requisito biológico: ser homem. Para os pastores da AIECB, por serem mulheres não podem entrar na ordem do discurso, ou seja, não podem, também, exercer o
110 monopólio da produção do discurso religioso e doutrinário. A elas é instituída a função de auxiliares, ajudadoras. Como argumenta Azerêdo (2007), a diferenciação de gênero converte-se em desigualdade. Consoante Bourdieu,
A diferença biológica entre os sexos, isto é, entre o corpo masculino e o corpo feminino, e, especificamente, a diferença anatômica entre os órgãos sexuais, pode assim ser vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros e, principalmente, da divisão social do trabalho (BOURDIEU, 2003, p. 20 – grifos do autor).
É a instituição que tem o direito de ditar a ortodoxia, a crença correta. Para nos encontrarmos no verdadeiro, já dizia Foucault, devemos obedecer às regras de uma “política” discursiva (FOUCAULT, 2004b, p. 35).
A produção do discurso é sempre controlada com o intuito de que se domine, no discurso, seu acontecimento aleatório, para que ninguém (nesse caso as mulheres) se aproprie dele de forma não controlada pela instituição. Na AIECB, no que concerne às mulheres, e em particular às missionárias, é a posição de auxiliadora, mesmo que como reconhecem alguns pastores, as mulheres, na prática, desempenham funções de diaconisas, presbíteras e, até, de pastoras.
Mas se há, de alguma forma, contestação do lugar da mulher no interior da instituição, o princípio de autoridade é evocado. E não apenas autoridade devido ao pertencimento ao corpo eclesiástico hierárquico, mas, também autoridade devido ao fato de ser homem e, portanto, o único, segundo entendem, dotado por Deus da capacidade de exercer autoridade e ensinar nas igrejas. Os contestadores são vistos como desviantes.
Assim, a instituição, através de seu corpo de pastores procura criar, nas mulheres, um habitus religioso que possibilite a assimilação da produção oficial da instituição. É necessário inculcar “uma disposição duradora, generalizada e transferível de agir e de pensar conforme os princípios de uma visão sistemática do mundo e da existência” (BOURDIEU, 1999, p. 88).
Consoante Portella (2006, p. 570), “para ver sua autoridade normativa respeitada, a instituição tende a separar ortodoxia de heresia”. Esta última é tudo aquilo que não está concorde o pensamento da instituição. “Busca-se, assim,
111 desqualificar e condenar todo ato que não se coadune com o pensamento oficial, visando, assim, sua dissolução” (PORTELLA, Op. cit.). Este exemplo pode ser visto quando do congresso das missionárias, em 2011, foram convidadas pastoras para ser preletoras. Como a instituição não aprova o pastorado feminino tal prática foi censurada e muitos pastores “protestaram” ameaçando não enviar as missionárias das suas igrejas ao evento130. A diretora do Departamento de Missionárias, por outro lado, teve sua direção ameaçada sendo, de certo modo, “obrigada” a retratar-se em público.
Tal como afirma Foucault: “Em toda a sociedade a produção do discurso é selecionada, organizada, controlada e redistribuída tendo por função evitar seus poderes e perigos” (FOUCAULT, 2004b, p. 9).
De acordo com Gerbara, a análise de gênero nos revela que:
(...) o poder sobre a sabedoria reconhecida é um privilégio masculino. As mulheres são intrusas, usurpadoras de alguma coisa que não lhes pertence. Elas fazem mal desejando o saber e, como resposta a este mal, tenta-se restaurar a harmonia social em forma de castigo, de silêncio (...). Mantêm-se assim a hierarquia do mundo e da humanidade. Mantêm-se os papéis sociais reconhecidos por um tipo de organização social (GEBARA, 2000, p. 81).
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Veremos essa discussão no capítulo 6 no tópico sobre o XVI Congresso do DEMIC e a questão do ministério ordenado feminino.
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6. A INSERÇÃO DA MISSIONÁRIA NA AIECB E SUA VINCULAÇÃO AO