3.3. Entrevista televisiva
3.3.2 Discurso semi-institucional da entrevista
O discurso que decorre na entrevista do talk show, de natureza híbrida e complexa, evidencia características do discurso semi-institucional, na medida em pode assumir um teor mais institucional ou conversacional, dependendo da interacção contextual dos factores discursivos e linguísticos, implícitos nas características globais ou locais do programa (Ilie, 1999: 218). Por outro lado, segundo Ilie (idem: 217), o discurso que aí ocorre é heterogéneo, uma vez que podemos identificar no mesmo programa características de diferentes tipologias de discurso, nomeadamente da entrevista, do debate, da sessão terapêutica, do diálogo de sala de aula ou da conversa espontânea do quotidiano. Por exemplo, tal como nas entrevistas dos programas noticiosos, as sequências de pergunta- resposta são também centrais nas entrevistas dos talk shows, sendo que, neste contexto, o apresentador é o entrevistador e o convidado é o entrevistado.
No entanto, apesar destas semelhanças, estes dois tipos de entrevista diferem em pontos fulcrais, ou seja, nos seus objectivos. As primeiras centram-se exclusivamente na transmissão de informação objectiva e imparcial, enquanto que nas entrevistas dos talk
shows a informação pode ser subjectiva e parcial, ou seja, para além da divulgação de
informação, há também espaço para um envolvimento pessoal e emocional dos participantes, que se manifesta, normalmente, através de comentários críticos, espontâneos
III – O TALK SHOW E A ENTREVISTA TELEVISIVA
show se aproxima dos programas de debate. Pode ser também comparado a sessões de
terapia, uma vez que proporciona aos convidados e aos membros do público uma oportunidade para partilharem experiências e problemas pessoais e/ou sociais e serem confrontados, posteriormente, com diferentes reacções ou sugestões. O contexto do talk
show assemelha-se ainda, segundo a autora, ao de uma sala de aula, na medida em que há,
em ambos, uma distribuição assimétrica do poder visível nos diferentes papéis desempenhados pelo apresentador e pelos convidados. Tal como um professor, o apresentador desempenha, até certo ponto, uma função educativa, uma vez que os assuntos apresentados têm como objectivo servirem de exemplos instrutivos. Finalmente, o discurso que decorre nos talk shows assemelha-se ao discurso espontâneo do quotidiano, porque, apesar de ocorrer num contexto institucional, o estúdio de televisão, pode ser imprevisível e desviar-se um pouco do guião pré-estabelecido, o que é notório quando, por exemplo, há um determinado grau de familiaridade entre o apresentador e o convidado. Nestes momentos, a interacção entre os participantes é mais simétrica e a hierarquia subjacente aos seus papéis menos perceptível.
O discurso da entrevista do talk show evidencia assim uma natureza não homogénea, uma vez que integra características dos discursos institucional e não- institucional. Por um lado, assenta em regras e convenções inerentes ao discurso institucional, mas por outro permite um certo grau de espontaneidade e imprevisibilidade característico do discurso não-institucional. O próprio papel do apresentador do talk show revela a heterogeneidade subjacente a este género de programas, pois pode desempenhar diferentes funções no decorrer da interacção, nomeadamente de entrevistador, moderador, terapeuta, conselheiro, revelando, deliberadamente ou não, certos aspectos da sua personalidade, enquanto que o entrevistador dos programas noticiosos assume um papel estritamente institucional, objectivo e imparcial, não havendo lugar para expor as suas opiniões ou preferências pessoais (idem: 218).
Segundo vários autores (Tolson, 2001a; Ilie, 1999; Scannel, 1991) não é possível estabelecer uma delimitação precisa entre as características conversacionais e institucionais do discurso que decorre neste género de programa televisivo, pois um discurso aparentemente institucional pode revelar particularidades de uma conversa espontânea ou uma conversa casual pode assumir um teor mais institucional.
Uma interacção verbal do quotidiano é tipicamente espontânea e ocorre entre dois
interlocutores, no mínimo, que não desempenham um papel oficial ou público, num
III – O TALK SHOW E A ENTREVISTA TELEVISIVA
propositada e nela participam, no mínimo, dois interlocutores que desempenham papéis oficiais ou públicos, num contexto institucional (Ilie, 1999; Drew & Heritage, 1992). No discurso semi-institucional que decorre no contexto interaccional da entrevista de um talk
show há ocorrências de conversa espontânea, cuja duração e frequência dependem não só
da personalidade e das estratégias utilizados pelo apresentador, como também da personalidade, estatuto e envolvimento dos convidados na interacção (Ilie, 1999: 221).
Assim, a conversa entre o entrevistador e o entrevistado pode ter momentos em que se assemelha a uma conversa espontânea, onde é visível que não houve qualquer planificação. Para além disso, o padrão conversacional é claramente diferente do padrão de uma interacção tipicamente institucional, caracterizada pela sequência planeada de pares de pergunta-resposta.
O padrão de sequências de pares pergunta-resposta55 típico da entrevista de um
programa noticioso, entendida aqui como o protótipo de uma interacção institucional, é conjugado, nas entrevistas dos talk shows, com sequências mais flexíveis e com
perguntas56 cujo objectivo não é meramente informativo, mas principalmente interaccional.
Nestas entrevistas pode haver momentos em que os objectivos interaccionais se sobrepõem aos institucionais, tal como Ilie observa “Whereas interactional goals tend to be internal to the dialogue, institutional goals tend to be regarded as external to the dialogue” (ibidem).
As entrevistas noticiosas, os debates públicos e os julgamentos em tribunal são exemplos de discurso institucional, sendo que todos representam interacções tipicamente baseadas num questionário estruturado e fixo. Os seus objectivos institucionais influenciam o comportamento linguístico dos participantes, fazendo-os agir de acordo com os seus papéis institucionais específicos, seguir regras precisas e utilizar maioritariamente linguagem convencional.
Os pré-requisitos institucionais do talk show reforçam as limitações situacionais e discursivas da entrevista. Situacionalmente, a entrevista desenrola-se num contexto particular, controlado por uma equipa de técnicos e dirigido a uma audiência múltipla; discursivamente, tem de obedecer a várias restrições relacionadas com a gestão de tempo, a selecção dos participantes (que podem ser convidados ou membros do público presente em estúdio) e a distribuição de falas, sendo o apresentador o principal responsável pelo seu controlo e organização. Estas características situacionais e discursivas não se aplicam a
uma interacção conversacional, que pode ocorrer em qualquer contexto,
III – O TALK SHOW E A ENTREVISTA TELEVISIVA
independentemente do número de participantes, do tempo de que dispõem ou das condições que os motivam.
Podemos aplicar o princípio da intertextualidade de Fairclough ao analisar e comparar as características conversacionais e institucionais do talk show. A definição do termo determina que intertextualidade “is a matter of how a discourse type is constituted through a combination of elements of orders of discourse” (1998: 118). Na análise de textos heterogéneos, o autor identifica três tipos: a alternância entre textos ou tipos de discurso dentro de um texto ou discurso - intertextualidade sequencial (sequential
intertextuality) -, a inclusão de um texto ou discurso dentro da matriz de outro -
intertextualidade inclusiva (embedded intertextuality) - e a fusão de textos ou discursos de uma forma mais complexa - intertextualidade entrosada (mixed intertextuality) (ibidem).
No que diz respeito ao discurso da entrevista do talk show, podemos concluir que evidencia dois tipos de intertextualidade entre o discurso institucional e o conversacional: a inclusiva e a entrosada. A natureza semi-institucional destas entrevistas é originada precisamente pela inclusão do discurso conversacional no discurso institucional. A intertextualidade entrosada verifica-se especialmente nos casos em há um elevado grau de familiaridade entre o apresentador e o convidado que proporciona uma interacção conversacional semelhante a uma conversa espontânea. Nestas situações é evidente o entrosamento de objectivos interaccionais/conversacionais e de objectivos institucionais.