• Nenhum resultado encontrado

4.1 O CANTO DA SEREIA: OS DISCURSOS QUE

4.1.3 Discurso tecnicista

Esta retórica não é muito explicitada pela Floripamanhã em seus documentos, especialmente aqueles que visam promover o nome da entidade. Todavia, quando a realidade se impõe sobre a aparência, e se explicita o verdadeiro caráter desta organização, o discurso da técnica como proeminente em relação aos demais ganha visibilidade. Este discurso, por vezes, vem acompanhado de outro discurso, o qual argumenta que o IPUF deveria ser fortalecido. Todavia esse é um assunto contraditório dentro da entidade, e, embora isto por vezes apareça nas atas (ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA, 2006, p. 2), a forma de atuação da entidade, especialmente com respeito ao plano diretor, que veremos na seção 4.3, não parece indicar que a Floripamanhã deseje o fortalecimento do órgão.

Com relação ao discurso técnico, em um documento elaborado pela associação com diversos pareceres técnicos, eis que aparece um parecer de um Professor da Universidade Federal de Santa Catarina, demonstrando algo peculiar da Floripamanhã, o uso de opiniões de

professores universitários para legitimar suas ações. Em determinado trecho do parecer ele diz o seguinte:

As pessoas ainda continuam a pensar que a vontade delas deve ser absorvida na íntegra, mas isto não é condizente com a técnica tanto de planejamento de uma simples edificação e muitíssimo menos com uma entidade complexa como o é uma cidade. Apesar de existir a Resolução 65 do Concidades em que diz que a participação deva ocorrer em todas as etapas do Plano Diretor, esta proposta contém uma ilegalidade e uma inconsistência acadêmica séria. A ilegalidade se divide em duas vertentes: a primeira é que só profissionais legalmente habilitados (pelo CREA e/ou CAU, por exemplo) cabem decisões desta natureza e a segunda que é resolução e não lei. A inconsistência acadêmica é que nunca se conseguiu na Academia em teses ou outra forma aceitável que a população traçasse ao menos o projeto de uma casa ou traçado de uma rua, quanto mais “planejar” uma cidade! (Vide CV do autor.) (FLORIPAMANHÂ, 2012, p.40). A retórica da técnica é um discurso que não permeia só a ONG, mas que tem sido comum em toda a cidade. Mostra-se muito presente nos momentos em que os conflitos internos de Florianópolis são mais intensos, como no caso das audiências do plano diretor ou mesmo nas eleições municipais33, pois aparece como um discurso isento de

ideologias e de partidarismo. Mas isto é só na aparência, pois um técnico não é ninguém acima dos outros, como procura argumentar o autor do trecho acima, e é, muito menos, isento ou apolítico. O profissional, tanto do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia

33 Em meio as eleições para prefeitura de Florianópolis em 2016 um dos

candidatos, Murilo Flores do PSB, tinha como slogan de campanha a “gestão técnica” que contrapunha a “política”.

(CREA) como do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), está sujeito ao emaranhado de interesses e de ideologias que rondam ou impregnam o Estado, a sociedade e o próprio espaço urbano.

Na Audiência Pública do Plano Diretor de Florianópolis do dia 1 de agosto de 2016 realizada no Centro de Eventos da UFSC34, um dos

participantes questionou a proposta de duplicação da Rua Deputado Antônio Edu Vieira, que cruza o Bairro Pantanal alegando que a proposta implicaria em uma série de indenizações para a Prefeitura Municipal de Florianópolis, pois exigiria a transferência de estabelecimento comerciais e de moradia. Todavia, em meio ao tempestuoso clima que se deu em algumas audiências, surge, então, a posição técnica, oriunda de um órgão técnico, pela voz de um técnico, em favor da duplicação. O técnico do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF) alegou que a proposta já era antiga e que tinha que ser aprovada, pois favoreceria o transporte público. O participante ainda contra argumentou, longe dos microfones e em meio a protestos de outras pessoas que estavam lá, afirmando que ao contrário do que o técnico dizia a duplicação tenderia a incentivar o automóvel ao invés do transporte público. Depois disso, o debate sobre o tema se encerrou e não foi mais retomado.

A posição do técnico neste exemplo e em outros que se pôde observar nas Audiências Públicas do Plano Diretor de Florianópolis, chega como um “carteiraço”, interrompendo os debates, numa situação

34 INSTITUTO DE PLANEJAMENTO URBANO DE FLORIANÓPOLIS

(IPUF). 2º Audiência Pública da sede Insular. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=9JLUblBUHT8 >. Acesso em 22 de fevereiro de 2017.

típica do que Lefebvre (2008, p. 68 e 69) chamava de terrorismo intelectual, conforme suas palavras:

A pressão da técnica, dos técnicos e tecnocratas, da epistemologia, das pesquisas de natureza puramente técnica e epistemológica, conduzia a um terrorismo intelectual. A burocracia sempre faz reinar um terrorismo. Há o que se deve e o que não se deve falar. No último decênio, havia o que se considerava sério e o que não era sério. O espírito de seriedade era, e continua sendo em muitos lugares, a expressão de um terrorismo

latente, ligado, ademais, ao sentido da

responsabilidade, ao respeito à competência, qualidades incontestáveis da tecnoburocracia. O discurso técnico na atualidade parece ser um “carteiraço” em favor dos interesses empresariais da ilha, e muitas vezes, por incrível que pareça, sem muito embasamento. No caso, o que não é sério e não pode ser tratado, são as utopias e os devaneios de um setor “radicalizado” da cidade. Em última instância, a retórica da técnica cai na ideologia “possibilista” e pragmática comentada anteriormente. Os argumentos, então, apoiam-se na ideia de que a cidade não pode parar de crescer, ou que a tendência “natural” da cidade é “esta” ou “aquela”. Isso escancara que por trás do técnico há um argumento ideológico, ou seja, o argumento técnico não é apolítico, e, portanto, trata-se de uma estratégia política para legitimar determinada ação no espaço.

E assim conclui-se mais uma vez retomando Lefebvre (2008, p.67) e parafraseando-o: “O espaço é político, portanto, existe uma política do espaço.”