2 LEI DO VENTRE LIVRE E A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO DOS FILHOS DA MULHER ESCRAVIZADA PELO SEU SENHOR OU PELO ESTADO
2.2 Discursos que circulavam entre 1870-1871: o que dizem os arquivos pesquisados.
O primeiro arquivo pesquisado nos sites de busca online das bibliotecas e dos acervos foram as edições do jornal Gazeta de Campinas, analisaram-se 298 edições do início do ano de 1870 até o fim do ano de 1872. A escolha desse período deu-se por conta da Lei do Ventre Livre de 1871, para poder realizar uma análise dos discursos acerca das crianças da época e compreender melhor o contexto em que se deu a promulgação dessa lei.
A Gazeta de Campinas foi um Jornal que iniciou a sua circulação em 1869 e realizava duas publicações semanais, no site da Biblioteca Nacional, onde foram consultados os exemplares, há as edições até o ano de 1875. Na primeira edição, publicada em 31 de outubro de 1869, a Gazeta de Campinas traz uma carta de apresentação, em que explicita seus ideais e objetivos. O jornal em questão se coloca apartidário e a favor da crítica, da liberdade e do pensamento de uma sociedade civilizada. Ao ler os artigos do referido periódico, foi possível notar a parcialidade
deste, que trazia discursos a favor da elite da região. As publicações continham notícias, reportagens, anúncios diversos, oferecendo produtos, serviços, e comunicados de mudanças, de nomeações dos cidadãos, focando na cidade de Campinas e nos interesses de sua elite, também apresentava poesias, sonetos e programação cultural, notícias da capital e internacionais.
Analisaram-se 106 edições que vão do início do ano de 1870 até o fim do ano de 1872. Foram examinadas 22 edições do início de janeiro de 1870 até março do mesmo ano, como objetivo de se obter uma contextualização nos discursos que circulavam naquela época. Outro período foi a partir de abril de 1871 até julho de 1872, 76 edições, visando a analisar os discursos em torno da Lei 2.40/1871, a qual foi apresentada ao senado no dia 12 de maio, mas aprovada somente em outubro daquele ano, entretanto ocorreu a publicação nos jornais apenas em dezembro. Fizemos esse recorte para poder analisar discursos antes da promulgação da lei e discursos depois da publicação. Além desse período, também foram analisadas mais 8 edições, através da ferramenta de busca do site da Biblioteca Nacional procuramos pelos termos “LEI Nº2.04”, “FILHOS LIVRES”, “MÃE ESCRAVA”, tendo resultados em outras edições que estavam fora do período analisado.
As publicações continham notícias, reportagens, anúncios diversos, oferecendo produtos e serviços, comunicados de mudanças, de nomeações dos cidadãos, focando na cidade de Campinas e nos interesses da elite dessa região. Também apresentava poesias, sonetos e programação cultural, notícias da capital e internacionais. Nas edições, eram frequentes os anúncios sobre fuga de escravizados, oferecendo recompensa para quem os achasse e devolvesse, em média havia de um a três anúncios desse tipo por edição. Estes traziam a descrição física dos escravizados que fugiam, idade, cor de pele, estatura, na maioria do caso eram homens entre 20 e 40 anos.
Figura 2 - Anúncio de fuga de escravizado
Fonte: Jornal A Gazeta de Campinas. Edição 22, ano 1870.
A partir da reportagem acima, podemos considerar que naquele contexto o negro escravizado era visto como uma mercadoria, uma ferramenta de trabalho e não como um igual, ou seja, tinha somente um valor econômico. Destacamos o uso da palavra “moleque” referente ao Domingos, o garoto de 18 anos, essa idade provavelmente é aproximada, mas por este ser mais novo que os demais o anúncio utilizou um termo específico que o diferenciava dos outros escravizados adultos e das crianças e jovens brancos. O vocábulo referido, como já foi abordado anteriormente, significa menino negro e na época em questão era utilizado para se referir aos garotos que faziam serviços ou moravam na rua, também dizia respeito àqueles que eram considerados marginais.
Ainda sobre o anúncio acima, temos uma diferenciação da cor da pele do Benedicto dos demais escravizados, este é descrito como mulato e é o único que apresenta uma profissão, no caso, pedreiro. Como foi apresentado anteriormente a cor era um marcador social. No anúncio se utiliza os termos; mulato, fula e preto,
evidenciando a variedade de nomenclaturas utilizadas no período para se remeter a cor de pele, das pessoas não brancas. Pretos, negros, mulatos, pardos, eram termos utilizados para se remeter aos que não possuíam privilégios, e eram explorados
A maioria dos anúncios de escravizados fugidos era sobre adultos, entretanto, na análise das edições de 1870, encontramos um anúncio de fuga de um menino de 14 anos, eram mais raros os anúncios de fuga de crianças/adolescentes. Ainda que tivesse a idade diferente de outros escravizados fugidos, o tratamento era o mesmo, o fato de ser uma criança/adolescente não retirava a condição de escravizado. O conceito de infância e de criança nessa época, no Brasil, estava em construção. Em relação à população branca se tinha uma referência aos filhos e alunos, já em relação a população negra se utiliza os termos muleques, negrinha, ou, escravo. Para aqueles que estavam na condição de escravizados, adultos ou crianças, eram vistos da mesma maneira, como ferramentas de trabalho.
Figura 3 - Fuga de um menino de 14
Fonte: Jornal A Gazeta de Campinas, Edição 42, ano 1870.
Nesse anúncio, o termo moleque não foi utilizado, Jorge é descrito como pardo. Temos novamente uma diferenciação da cor da pele para a identificação do indivíduo, o anúncio não apresenta mais nenhuma informação sobre o garoto.
Assim como anúncio de procura, também havia o anúncio de compra e venda de escravizados, a questão da idade não era um fator que impedia a venda desses indivíduos, muitas vezes, separando famílias.
Figura 4 - Venda de escravizado
Fonte: Jornal A Gazeta de Campina, Edição 170, ano 1871.
A partir da figura anterior, percebemos que o comércio de escravizados funcionava abertamente em espaços públicos, sendo divulgado, reforçando o discurso de que os negros serviam apenas como escravizados e propriedades. Podemos considerar que, nesse contexto, circulavam dois discursos, um que reforçava a ideia de permanência da escravidão como um meio de se manter a estrutura existente e um outro que afirmava ser preciso seguir os modelos de civilização das nações europeias, investindo numa mão de obra assalariada, livre e branca visando ao desenvolvimento da sociedade. Mas, ambos os discursos estavam ligados ao necropoder, o primeiro visava controlar os corpos negros através da escravidão, o segundo visava a construção de uma sociedade livre branca, tendo a construção de projetos de branqueamento.
A prática de comercializar os negros era uma das inúmeras práticas que que retirava a condição de indivíduos, de desumanizá-los. Nesse ambiente os negros não eram vistos como humanos, mas como objetos, ferramentas que estavam à venda. As crianças em condição de escravizadas não eram vistas como crianças, eram tratadas como ferramentas, objetos, a idade, o tamanho suas diferenças com os adultos não lhe proporcionava nenhum tratamento diferenciado. O conceito de família também não era aplicado para os escravizados, nas vendas separava mães e pais de
seus filhos e os irmãos entre si. Os indivíduos de pouca idade que eram vistos como um investimento futuro.
No anúncio anterior, também percebemos que não havia uma separação entre adultos e crianças quando se relacionava aos escravizados, os indivíduos que estavam à venda tinham de 12 a 20 anos, não existia uma noção de infância, dentro desse contexto, o conceito de criança não era aplicado em tal situação. Assim como ocorre no anúncio seguinte em que se demonstra a prática de alugar crianças escravizadas para cuidar de crianças livres.
Figura 5 - Aluguel de uma escravizada
Fonte: Jornal A Gazeta de Campinas. Edição: 188, ano 1871.
Destacamos a figura 5 para discutir o termo “negrinha”, nele utilizado, esse termo faz referência a uma criança do sexo feminino e provavelmente escravizada, ele está no diminutivo, “negrinha”, mesmo está tendo idade entre 10 e 14 anos, idade em que hoje nós consideramos a pessoa como criança ou pré-adolescente, percebe- se, pois, que ela não era considerada uma criança, mas uma escravizada que iria prestar um serviço. Sua condição infantil aparece no diminutivo do termo “negra”, mas não lhe é associado o termo "criança". Havia uma diferenciação, pois a “negrinha” iria cuidar de uma criança (havia possibilidades de ser um bebê branco). Dentro do discurso da época, a criança era o indivíduo que precisaria de cuidados, de proteção, era branco e da elite, já os filhos de escravizados eram vistos como mais um instrumento de trabalho.
Ainda sobre o anúncio anterior, temos um marcador de gênero, procura-se uma menina para cuidar de uma criança, o que reforçava o discurso de que o ato de cuidar era relacionado ao gênero feminino, que tal serviço deveria ser desempenhado por uma mulher.
Figura 6 - Aluguel de uma escravizada (2)
Fonte: Jornal A Gazeta de Campinas. Edição 200, ano 1871.
Nesse outro anúncio, com a possibilidade de se contratar uma criança forra, ou seja, liberta, utiliza-se o termo “mocinha”. Há a possibilidade de concluirmos que as nomeações eram feitas para haver uma diferenciação nas posições sociais ocupadas pelos indivíduos. Uma criança escravizada era chamada de negrinha, já uma liberta, de mocinha, sendo que para esta havia mais possibilidades de circulação na sociedade, mas, apesar disso, ela não era vista como uma igual em relação às meninas brancas, o trabalho sempre era realizado pelos negros.
Sobre a abolição da escravidão, o jornal a Gazeta de Campinas apresenta alguns artigos falando sobre a questão econômica, ao analisar os textos, percebemos que a discussão se foca na substituição do trabalho escravizado pelo imigrante para se ter maiores vantagens econômicas e para promover uma “boa influência” sobre a população. A questão humana das pessoas escravizadas não era discutida, pois eles não eram vistos como iguais, mas sim como diferentes, como vemos nos trechos abaixo do artigo A Magma Questão.
Fonte: Jornal A Gazeta de Campinas, Edição 20, p. 02, Ano 1870.
Nos trechos da carta A Magma Questão, aparecem argumentos econômicos sobre os valores dos escravizados, quanto estes custavam inicialmente e ao longo da vida, comparando com o custo de um colono, a questão dos prejuízos era atribuída apenas aos escravizados, na questão da fuga e de doenças. Os imigrantes eram apresentados como uma forma de trabalho mais lucrativa e vantajosa.
As crianças nascidas antes da publicação da Lei do Ventre Livre eram consideradas escravizadas, sendo assim, como mostram os anúncios acima, eram vendidas como ferramentas de trabalho, como algo que pudesse gerar algum lucro.
Nas discussões sobre a liberdade dos escravizados, ou das crianças escravizadas, não se tinha como centralidade o tópico da infância e nem a condição destas, pois tais discursos não estavam presentes naquela época, os argumentos baseavam-se na questão econômica. Não encontramos uma discussão sobre a Lei do Ventre Livre antes de sua publicação, e depois também não existiram artigos falando sobre a lei em si, nem discutindo seu conteúdo, apenas se publicaram notícias de sua aplicação.
Analisando as edições como um todo, percebemos que não se falava diretamente sobre as crianças, havia anúncios de escolas, que faziam referência a uma criança-aluno, a um indivíduo que necessitava de uma educação clássica acadêmica, com aulas de línguas, escrita, entre outras matérias, geralmente, era direcionada para elite, eram anúncios de escolas particulares, de internatos e de tutores.
Na Edição 165, no mês de junho de 1871, publicou-se um artigo falando sobre a importância de um colégio para a cidade, celebrando a abertura de uma nova instituição, isso demonstra como a educação dentro de um espaço privado, elitizado, tinha uma importância relevante. Tinha um modelo de educação direcionado à elite brasileira, que também estava alicerçado em um ideal de criança. Os filhos da elite brasileira, que eram brancos, meninos, precisavam de uma formação mais clássica, tradicional para desenvolver as capacidades de governar o país, sendo considerados o futuro da nação.
A educação para os filhos da elite focava numa formação clássica, que tinha como modelo os países europeus, por isso, o estudo do francês. A escola/educação era considerada o lugar ideal e privilegiado para desenvolver os cidadãos, ao mesmo tempo em que era uma forma de definir a posição social que se ocupava. “O acesso às letras seria um elemento de diferenciação entre brancos (que se consideravam superiores) e os negros (considerados inferiores).” (BARROS, p. 91, 2005).
A escola e a educação formalizada direcionada aos negros, pardos, pobres, trabalhadores, foi utilizada como um instrumento para a produção de corpos dóceis, obedientes que aceitassem a organização social que era apresenta como verdadeira. A educação e a escola voltadas para os filhos da elite tinha como objetivo a produção de sujeitos autônomos, privilegiados.
A partir da análise feita nas edições estudadas do Jornal A Gazeta de Campinas podemos considerar que a educação para os negros libertos era pensada
e discutida com o objetivo de formar de mão de obra, disciplinar e manter o controle sobre a população negra. Acreditava-se que era preciso “ensinar” como usar sua liberdade. Essa discussão surgiu com mais força e ênfase após a publicação da Lei do Ventre Livre
A educação para a população livre branca também era discutida e apresentada no jornal através de matérias e artigos. A educação para a elite e os trabalhadores era diferenciada. Os filhos da elite podiam desfrutar de uma formação em tempo integral, com tutores em casa, em escolas em internatos. Enquanto a classe trabalhadora dividia seu tempo entre os estudos e o trabalho, sobretudo em escolas noturnas, tendo o foco na leitura e escrita e na formação da futura mão de obra.
No jornal também era apresentado um discurso que representava um ideal de país desenvolvido ligado a uma educação formal e focada na escrita e na leitura. A partir de um anuncio com números de crianças matriculadas, especificando a idade e a nacionalidade, notamos que as matrículas nas escolas noturnas ocorriam a partir de sete anos, com isso, podemos supor que existia muitos indivíduos com sete anos trabalhando, sendo este mais um caso em que a infância se diferenciava entre a elite e os trabalhadores.
Além das escolas noturnas, também observamos algumas menções aos colégios para o sexo feminino, internatos que também recebiam estudantes externas. Os anúncios dessas escolas nos mostram que havia um ideal de educação separada por gênero, tendo papéis sociais definidos para mulheres e homens e que precisava ser ensinado à elite.
Nos discursos que circulavam no jornal a educação era colocada, juntamente com a higiene, a alimentação e a saúde, como salvadora da criança que estava em risco de se perder. Essa corria o perigo de ser corrompida pela influência do meio social, pelo convívio com as crianças mais pobres e as filhas de escravizados. Nessa época, começavam a aparecer as ideias de que as crianças precisavam ser protegidas, mantidas em espaços privados e com uma educação que iria construir sua moral. Esses discursos serviriam de base para desenvolver os discursos médicos- higienistas no início do século XX.
Segundo Barros (2005), a província de São Paulo na época da publicação dessas reportagens havia muitas discussões acerca da educação, mas também havia uma desigualdade de acesso à escola. Era proibida a matrícula de crianças escravizadas e permitida a de negros (havia uma diferenciação entre os termos
negros e pretos). Contudo, para a criança negra estudar, ela precisava cumprir diversas exigências como: roupa, material, comprovar sua liberdade e seus responsáveis, ainda deveriam estar dentro do modelo de higiene. A sociedade tinha o medo das crianças negras conviverem com as crianças brancas, acreditava-se que aquelas poderiam influenciar seus filhos. A separação entre as crianças inicia-se com o medo do preto, do ex-excravizado, ou do ingênuo e no século posterior se transfere para o medo do menor.
A ideia de infância, como nós temos hoje, não estava presente naquela época, as crianças eram vistas como filhas, alunas, trabalhadoras ou escravizadas, sempre pensando no futuro: um adulto, um futuro governante, ou um futuro trabalhador. As crianças negras, porém, não eram vistas do mesmo modo, mas sim como uma futura ferramenta de trabalho.
Utilizando a ferramenta de busca no documento, tendo como referência o termo “LEI nº 2.040”, tivemos como resultado 17 ocorrências. Quando utilizamos o termo “filho livre”, encontramos 16 ocorrências, no acervo inteiro, considerando inclusive as edições anteriores e posteriores ao período estudado, todas essas ocorrências faziam menção à Lei do Ventre Livre.
A lei em questão estava em discussão desde maio de 1871, sendo aprovada em 28 de setembro de 1871, porém só foi publicada na cidade de Campinas em 21 de dezembro de 1871. Na mesma edição de publicação do jornal, não houve comentários ou artigos sobre a lei. Em edições anteriores, discutia-se a passagem do sistema escravocrata para o de trabalho livre, os argumentos estavam ligados à questão econômica e se mencionava a questão das boas influências da imigração europeia para o Brasil.
A lei é mencionada na edição 215 do dia 14 de dezembro de 1871 sobre a organização de instituições para atender os artigos desta, mas não é aprofundada a discussão, vindo aparecer de modo completo somente na edição 217 do dia 21 de dezembro. A lei apareceu também na edição 235 do dia 25 de fevereiro de 1872, referindo-se à questão das matrículas de escravizados e filhos livres de mulheres escravizadas, fazendo referência à seguinte lei: DECRETO Nº 4.835, DE 1º DE DEZEMBRO DE 1871 - Aprova o Regulamento para a matrícula especial dos escravizados e dos filhos livres de mulher escravizada. Essa lei tinha como objetivo ter uma relação de quantas crianças livres filhas de escravizadas havia em cada município. O decreto em questão colocava como obrigação os senhores realizarem
esse registro, caso contrário, poderiam receber multas, a ficha de cadastro de cada crianças deveria conter o nome dela, a filiação, cor e o senhor a quem pertencia.
Figura 8 - Matrícula especial dos escravizados.
O mesmo decreto obrigava os meios de comunicação, e as igrejas a anunciarem os prazos de matrícula dos escravizados, para incentivar o cumprimento da lei, dava-se uma recompensa monetária aos senhores que assim o fizessem. Podemos perceber que, caso o senhor não fizesse a matrícula, o escravizado seria liberto, a questão de alforriar o escravizado, nesse contexto, é para se dar algum prejuízo ao descumpridor da lei, não era para favorecer o escravizado. As demais notícias sobre esse decreto reforçam as mesmas informações e prorrogavam os prazos para fazer a matrícula.
A lei do Ventre Livre operava na lógica do dispositivo do aprisionamento, apesar de conceder uma liberdade, sujeitava os indivíduos a abrigos, a casas de auxílio, ou a trabalhos gratuitos aos seus antigos senhores. Não ocorreu uma construção de discursos que igualava as crianças livres, filhas de escravizados, às livres filhas da elite. Antes da lei, era utilizado o termo “moleque”, para se referir aos meninos negros, depois da lei, esse termo ainda era utilizado, mas passou a ser ingênuo para se referir aos filhos livres de mãe escravizada, esse vocábulo não aparece no corpo da lei em questão, mas era amplamente utilizado nos discursos da época, como mostram os trabalhos de Cardoso (2011) e de Cruz (2009).
Através da construção dos discursos, que operavam na lógica do branqueamento da sociedade brasileira, seguindo os ideais eugênicos e higienistas, presentes no fim do século XIX e início do século XX, o negro sofreu um processo de apagamento da nossa história, teve os direitos e a cidadania negados, sofreu a tentativa de esquecimento da sua cultura e de sua origem. As políticas de branqueamento tinham como objetivo eliminar qualquer traço biológico, cultural e histórico desses indivíduos da nossa sociedade.
A escola participou desse projeto, ao reforçar e difundir a cultura branca como superior, acreditava-se que a alfabetização seria um requisito para alcançar uma posição social melhor e mais prestigiada. As crianças negras, ao participarem da escolarização, nesse contexto, para terem êxito precisavam abandonar a própria cultura e se apropriar da cultura branca.
O conceito de menor, dentro da Lei do Ventre Livre, foi utilizado para se referir às crianças negras filhas de escravizados que conseguiram sua liberdade,