• Nenhum resultado encontrado

DISCUSSÃO

No documento ALDO COELHO SILVA (páginas 68-73)

O objetivo do estudo foi verificar a influência de diferentes tempos musicais sobre as respostas fisiológicas, perceptuais, afetivas e velocidade média durante sessões de caminhada de 30 minutos em mulheres com sobrepeso e obesidade. Até o presente momento, este é o primeiro trabalho que verifica o efeito do recurso musical em uma população com características de obesidade e sobrepeso durante a caminhada. Nosso trabalho avaliou as respostas afetivas através de um foco dimensional, pelo modelo circumplexo, com as medidas sendo avaliadas antes, durante e após o exercício, compreendo o efeito do exercício físico em diversas fases.

A intensidade do exercício foi avaliada pelo limiar ventilatório, tornando válida a discussão através do modelo “Dual Model” (EKKEKAKIS; PETRUZZELLO, 2002;

EKKEKAKIS; HALL; PETRUZZELLO, 2008). Nossos resultados apresentam que a sessão em que as participantes utilizaram música com o tempo médio, produziram menor percepção de esforço e uma sensação de prazer mais positiva do que as sessões sem o recurso musical. O fato do efeito do uso da música sobre a sensação de prazer e sobre a percepção de esforço ser dependente do tempo musical torna nossos resultados interessantes. Nossos resultados podem ter importantes implicações para o estudo das respostas afetivas durante o exercício físico e aplicações práticas importantes para os profissionais da saúde.

O presente estudo verificou que o uso da música não alterou as respostas fisiológicas durante uma caminhada de 30 minutos. Isso indica que as participantes tiveram o mesmo estresse fisiológico durante as três condições, corroborando com estudos prévios sobre o uso da música e respostas fisiológicas. Dyer e Mckune (2013) o efeito da música (tempo musical lento, médio e rápido) sobre as respostas fisiológicas (VO2, FC, R e frequência respiratória) durante um teste de 20KM no cicloergômetro. Os autores não verificaram efeito da música sobre qualquer variável fisiológica analisada. Yamashita et al., (2006) investigaram o efeito da música sobre o sistema nervoso autônomo durante 30 minutos em uma bicicleta estacionária, nas intensidades de 40% e 60% do consumo máximo de oxigênio (VO2máx). Os autores não verificaram efeito da música sobre a FC em nenhuma das intensidades. Potteiger,

Schroeder e Gogg (2000) encontraram resultados similares, não verificando alteração na frequência cardíaca em nenhuma das condições (batidas rápidas, música clássica, música auto selecionada e sem música) durante 20 minutos a 70% do VO2máx no cicloergômetro. De fato, as respostas fisiológicas parecem não ser influenciadas pelo uso da música durante a prática de exercício físico no domínio moderado.

Com relação à percepção de esforço, o presente estudo verificou um efeito da condição sobre a PSE, com o GTMM apresentando menor percepção em comparação ao GSM. De fato, estudos prévios demonstram um efeito do recurso musical sobre as respostas perceptuais durante o exercício, provocando redução na PSE. Potteiger, Schroeder e Goff (2000) verificaram efeito da música sobre a PSE, atenuando a percepção de esforço em comparação a condição sem música. De forma similar, Terry et al., (2012) encontraram maior percepção de esforço na condição sem música durante exercício submáximo na esteira. Uma possível explicação é através do processamento de atenção, onde os impulsos dos nervos aferentes para o processamento do sistema nervoso central são limitados, sendo que a música poderia impedir o feedback fisiológico associado com o esforço físico (TENENBAUM, 2001).

Entretanto, esta influência da música sobre o feedback aferente parece ser determinada pela intensidade do exercício. Em maiores intensidades, as vias fisiológicas parecem dominar o processamento da informação, enquanto em intensidade moderada, vias externas, como o uso da música, podem ser processadas em paralelo (REJESKI, 1985). A música parece ter pouco potencial para alterar a percepção de fadiga em exercício de alta intensidade, mas pode mudar como se interpreta ou responde a uma sensação de alto esforço (REJESKI, 1985).

Tendo em vista que todas as sessões foram realizadas no domínio moderado ou próximas ao domínio pesado, a percepção de esforço deveria ter apresentado uma redução nas duas condições com uso da música. A alteração na percepção subjetiva de esforço foi verificada apenas entre GSM e GTMM. Um possível motivo para a PSE não ter sido menor no GTMR em comparação ao GSM pode ser decorrente do tempo de exposição. Karageorghis, Jones e Low (2006) sugerem que a exposição contínua ao tempo musical rápido pode acarretar numa redução na motivação, levando ao tédio e aborrecimento. Essas modificações nas respostas psicológicas poderiam alterar a forma como as participantes perceberam o exercício.

No que se refere a análise do comportamento das respostas afetivas durante as sessões, a sensação de prazer não apresentou um declínio significativo ao longo

das sessões. De fato, quando a sessão é realizada abaixo ou próxima do LV, a redução na sensação de prazer não tem sido relatada. Essa redução devido ao tempo torna-se presente quando a intensidade excede o LV. Tendo em vista que na maior parte do tempo de todas as sessões a intensidade do exercício foi abaixo ou equivalente ao LV, nossos resultados corroboram com a literatura (EKKEKAKIS;

PETRUZZELLO, 1999; EKKEKAKIS, PANTELEIMON; LIND, ERIK, 2006;

EKKEKAKIS; HALL; PETRUZZELLO, 2008).

Nossos resultados verificaram um efeito do recurso musical sobre a sensação de prazer, onde as sessões realizadas com tempo musical médio produziram uma sensação de prazer mais positiva do que a condição sem música. Nesse sentido, a literatura tem apresentado que o uso da música produz maior sensação de prazer durante a prática do exercício comparado a situações onde não há o uso da música.

Por exemplo, Karageorghis et al., (2009a) observaram que indivíduos ao realizarem o exercício com música motivacional apresentaram sensação de prazer mais positiva do que nas sessões sem o uso da música. De forma similar, Lim et al., (2014) verificaram diferenças entre o exercício realizado no cicloergômetro com música (assíncrona e síncrona) e o exercício realizado, onde o exercício realizado com o recurso musical produziu maior sensação de prazer. De acordo com o modelo “Dual Mode”, no domínio moderado os fatores cognitivos apresentam pouca influência sobre as respostas afetivas. Já no domínio pesado, os fatores cognitivos (por exemplo, a motivação intrínseca) influenciam as respostas afetivas, com estas apresentando uma variabilidade em suas respostas. Considerando que em todas as sessões participantes permaneceram maior parte do tempo no domínio moderado, seria esperado uma homogeneidade no comportamento da sensação de prazer. Entretanto, verificamos que o comportamento da sensação de prazer se diferiu de acordo com a condição, onde GTMM apresentou respostas mais positivas que o GSM durante as sessões de caminhada em ritmo autosselecionado, com o GTMR não apresentando diferença para o GSM. Esse resultado torna interessante os resultados da presente pesquisa, verificando a influência do tempo musical sobre a sensação de prazer mesmo em condições abaixo ou próximas ao LV.

Uma possível explicação para a resposta mais positiva do GTMM pode ser o fato do tempo musical médio apresentar respostas mais positivas em algumas variáveis psicológicas. Karageorghis, Jones e Stuart (2008) apresentaram que o tempo musical médio produziu maior estado de fluxo, maior nível de satisfação e maior

preferência em comparação ao exercício sem música. Além disso, o exercício quando realizado com tempo musical médio apresentou maior nível de motivação intrínseca em comparação à demais condições. Esta última variável a motivação intrínseca, é um fator determinante na produção das respostas afetivas (PARFITT; ROSE;

MARKLAND, 2000; PARFITT; HUGHES, 2009). De acordo com o modelo “Dual Mode”

(EKKEKAKIS; HALL; PETRUZZELLO, 2005), no domínio pesado os fatores cognitivos (por exemplo, a motivação intrínseca) influenciam as respostas afetivas. Com isso, poderíamos supor, que o tempo musical médio ao produzir maior motivação intrínseca, consequentemente, afetou de maneira positiva a sensação de prazer durante a caminhada em nosso estudo. Considerando que a maior parte das sessões permaneceram no domínio moderado e mesmo assim houve um comportamento diferente na sensação de prazer, sugerimos que pesquisas futuras no campo das respostas afetivas investiguem quais fatores possam modular as respostas afetivas quando o exercício é realizado abaixo do LV.

Conforme exibido pelo modelo circumplexo, as sessões de caminhada sem o uso da música apresentaram menores valores para a escala de prazer e ativação percebida, permanecendo parte da sessão entre o quadrante “Calma” e “Energia”. Já as sessões com tempo musical médio e rápido, permaneceram maior parte da sessão no quadrante “Energia”. Porém, em todas as sessões, após o término da atividade houve um aumento na sensação de prazer em comparação ao início e durante a sessão. Estudos prévios apresentam que após o término do exercício, ocorre um efeito “rebote” positivo nas respostas afetivas, resultando em uma resposta afetiva pós exercício maior do que a resposta afetiva pré e durante o exercício (HARDY;

REJESKI, 1989c; EKKEKAKIS; PETRUZZELLO, 1999). Parfitt, Eston e Connolly (1996) verificaram um aumento na sensação de prazer 5 minutos após o término do exercício em relação ao último momento da sessão. Da mesma forma, Oliveira et al., (2013) observaram um aumento na sensação de prazer após o término da sessão de exercício, independentemente o exercício fosse contínuo ou intervalado de alta intensidade (“High-intensity Interval Training”, HIT). De acordo com a teoria do processo oponente (SOLOMON, 1980), após a sensação de desprazer durante o exercício físico, o sentimento de prazer pode ocorrer, levando a um efeito “rebote”. A liberação de substâncias neuromodulatórias (como dopamina, endorfina e serotonina) relacionadas a redução do estado de ansiedade e ao aumento do humor, podem estar associadas ao aumento no prazer após o fim do exercício (SCULLY et al., 1998).

As alterações provocadas pelo uso da música nas respostas afetivas/psicológicas podem ser justificadas por algumas alterações a nível cerebral.

Somada a capacidade de ativar estruturas neurais que promovem o movimento rítmico, a música também pode causar uma estimulação genérica de partes cerebrais responsáveis por controlar os sentimentos, como o sistema límbico e o sistema de ativação reticular (PRIEST; KARAGEORGHIS; SHARP, 2004). Tem sido verificada uma maior atividade em áreas cerebrais responsáveis pelo controle dos sentimentos, demonstrando que estímulos musicais que provoquem emoções positivas ou negativas, ativam áreas límbicas e paralímbicas, que envolvem o processamento afetivo (BROWN; MARTINEZ; PARSONS, 2004). O uso da música também parece aumentar o fluxo sanguíneo cerebral dentro de estruturas do sistema mesocorticolímbico, como o corpo estriado ventral, região que vem sendo relacionada com o processo de sensação de prazer (CHANDA; LEVITIN, 2013).

Uma das limitações do presente estudo foi a seleção do recurso musical. Têm sido estabelecido na literatura que a lista musical formada por músicas favoritas poderia favorecer as respostas psicológicas durante o exercício (NAKAMURA et al., 2010). Devido a logística do trabalho, optou-se pela seleção descrita por outros estudos (KARAGEORGHIS; JONES; LOW, 2006; KARAGEORGHIS; JONES;

STUART, 2008). Nossos resultados também são específicos para sessões agudas, sendo recomendado estudos que façam a utilização do recurso musical em mulheres com sobrepeso e obesidade em períodos maiores.

No documento ALDO COELHO SILVA (páginas 68-73)

Documentos relacionados