No presente trabalho, procurou-se caracterizar a linguagem oral das crianças com IC com base nas várias competências adquiridas. Os resultados do estudo permitem inferir a pertinência desta investigação, uma vez que facultou informações cruciais para a caracterização das crianças implantadas, nas duas faixas etárias estudadas que foram alvo de análise.
A interpretação dos resultados de algumas variáveis, como a idade da implantação, carece de uma reflexão cuidada e crítica. O facto de a idade auditiva ser significativamente diferente não permite, por si só, afirmar a solidez das evidências constatadas. Esta foi uma das limitações reconhecidas do presente estudo, bem como o reduzido número da amostra e de faixas etárias estudadas.
1-Análise geral
Na análise geral dos resultados obtidos, verificou-se que os valores médios das variáveis estudadas estavam abaixo, ainda que na maioria dos casos, de forma não significativa, das médias dos normo-ouvintes. Este facto é referenciado por Fortunato, Bevilacqua e Costa (2009) e Stuchi et al. (2007). Estes investigadores consideram que, apesar dos ganhos efectivos, em termos de desenvolvimento de competências linguísticas, as crianças com IC não alcançam, a priori, competências inequivocamente iguais às das crianças normo- ouvintes. Todavia, tal diferença, parece tender a esbater-se com o aumento da idade auditiva e menor tempo de privação sensorial. Com efeito, verificou-se, ainda na análise geral dos resultados, que as diferenças foram menores nas crianças entre os 9 anos e 01 mês e os 10 anos.
2-Efeito do género nas estruturas da linguagem das crianças com IC
Ao verificar os resultados nas 3 diferentes estruturas linguísticas, em relação ao género, não se registaram diferenças significativas. Ozdemir et al. (2011) e Gérard et al. (2010) também concluíram que não havia diferenças significativas entre os géneros, suportando os resultados obtidos. Todavia, no presente estudo foi notório que os valores das médias, de uma forma geral, foram sempre ligeiramente superiores nos indivíduos do género masculino.
3-Estrutura da semântica, da morfossintaxe e da fonologia nas crianças com IC
Ao estudar e comparar as características das variáveis do grupo das crianças de [8;01- 9;00], verificou-se que o desempenho nas diferentes estruturas linguísticas não foi uniforme neste grupo etário. Os resultados na estrutura da morfossintaxe apresentaram-se significativamente mais baixos nas crianças utilizadoras de IC do que nas crianças normo- ouvintes com a mesma idade auditiva. Contrariamente, as aptidões adquiridas pelas mesmas crianças nos domínios da semântica e da fonologia foram superiores, e muito semelhantes às das crianças normo-ouvintes. Os seus valores, apesar de ligeiramente inferiores em termos numéricos aos das crianças normo-ouvintes, não se revelaram estatisticamente diferentes. Este facto merece uma análise e atenção particulares. Uma reflexão sobre o mesmo é feita por Young e Killen (2002), que avaliaram um grupo de sete crianças com idade entre os oito e os nove anos utilizadoras de IC há cinco anos. Estes investigadores relataram que a capacidade semântica apresentada por essas crianças foi melhor do que a sintáctica e a morfológica (Stuchi et al., 2007). As observações presentes neste estudo estão concordantes com os resultados dos referidos investigadores.
revelou grande dificuldade na tarefa de definição de palavras. Este item foi o único em que a sua prestação foi significativamente inferior à das crianças normo-ouvintes. Este facto também é referido na literatura internacional no estudo de Stuchi e colegas, no qual as crianças apresentaram grande dificuldade para descrever o significado das palavras. (Stuchi et al., 2007) Por seu turno, a nomeação das classes foi o item em que as crianças obtiveram pontuações que mais se assemelharam aos valores de referência. Na capacidade de nomeação de opostos, registaram-se igualmente valores elevados.
Ao reflectir sobre os resultados obtidos das crianças de [9;01-10;00], como já foi citado anteriormente, verifica-se, que nas três componentes da estrutura linguística estudadas, o grupo de crianças desta faixa etária teve uma prestação estatisticamente igual à das crianças normo-ouvintes. Este facto, como também já foi citado consubstancia a ideia de que o aumento do tempo de uso do IC e, naturalmente da idade cronológica, condiciona novos ganhos linguísticos nas crianças após a implantação, como é corroborado por Manrique et al. (2004) e Colletti et al. (2005). Apesar disso, observou-se, na comparação das médias e nos valores de significância, que a estrutura morfossintaxe foi aquela em que os valores médios foram mais inferiores, comparativamente aos normo-ouvintes , para os quais o valor de p foi inferior. Este dado reforça a ideia, antes cogitada, de este constituir o domínio em que as crianças com IC exibem maiores dificuldades.
Ao verificar, em pormenor, as componentes das estruturas linguísticas estudadas, notou-se que na estrutura semântica as pontuações obtidas pelas crianças implantadas na definição de palavras, na nomeação de classes e de opostos foram todas elevadas, muito próximas dos valores de referência e que em nenhum caso a diferença das médias foi significativa. No que concerne à estrutura da morfossintaxe, no grupo das crianças de [8;01-9;00], os
resultados das tarefas de reconhecimento das frases agramaticais e da derivação de palavras, contribuíram de forma indiscutível para a baixa performance destas crianças
nesta competência linguística estudada. Nestes itens, as crianças utilizadoras de IC tiveram uma prestação que se revelou muito aquém dos valores de referência. Todavia, diferente evidência se apurou no estudo dos dois outros itens. As pontuações atingidas pelas crianças utilizadoras de IC foram estatisticamente idênticas ao estandardizado, no que se refere à coordenação e subordinação de frases e à ordenação de palavras. Não foram encontrados dados na literatura com referências que pudessem servir de base comparativa a estes resultados.
Nas crianças da faixa etária de [9;01-10;00], as componentes da morfologia e da sintaxe exibiram diferenças muito significativas em relação ao normal. A capacidade de derivação de palavras foi significativamente baixa. Este item revelou-se mesmo o mais baixo entre todos os estudados e em praticamente todas as crianças deste grupo. Este facto foi, em grande medida, semelhante ao observado nas crianças de [8;01-9;00] do presente estudo.
Os valores obtidos pelas crianças utilizadoras de IC na tarefa de reconhecimento de frases agramaticais foi outro item que se revelou aquém dos valores de referência das crianças normo-ouvintes. Apesar disso, os seus valores não foram estatisticamente diferentes. Já na coordenação e subordinação de frases, as crianças desta faixa etária tiveram uma prestação elevada e o valor médio estimado revelou que esta competência estava muito próxima do grupo das crianças com audição normal. As crianças deste grupo acusaram também uma boa capacidade de ordenar as palavras para formar frases. Esta competência foi mesmo a
mais desenvolvida em relação ao valor de referência.
Quanto à fonologia, no grupo de [8;01-9;00], observou-se que as capacidades de identificação de palavras que rimam e de segmentação de palavras em sílabas (com valores acima da média do padrão) foram os dois aspectos que se realçaram positivamente. O mesmo não sucedeu com a discriminação de pares de palavras e a discriminação de pseudo-palavras. Estes resultados estão de acordo com um estudo de Bouton, Colé e
Serniclaes (2012) realizado com 25 crianças (idades compreendidas entre os 7 anos e 11 meses e os 11 anos e 6 meses) no qual verificaram que tanto a discriminação de pares de palavras como de pseudo-palavras foi inferior à das crianças normo-ouvintes com a mesma
idade auditiva. Contudo, a tarefa de discriminação de palavras revelou melhores resultados que a tarefa de discriminação de pseudopalavras.
Nas crianças do grupo de [9;01-10;00], as aptidões no domínio da fonologia, apesar de exibirem uma média geral dentro do normal, não foram todas estatisticamente iguais aos valores de referência utilizados. Particularmente, na tarefa de discriminação de pseudo- palavras e pares de palavras os resultados apontam para uma fraca prestação. Quanto à segmentação silábica, as crianças utilizadoras de IC obtiveram melhores resultados em relação às crianças nas quais se estandardizaram os valores usados como referência, sendo estes resultados estatisticamente muito significativos.
5- Análise e comparação das estruturas da linguagem oral em função da idade de implantação
Nos resultados do presente estudo, verificamos que as crianças implantadas com idade igual ou inferior a 2 anos e 6 meses apresentaram melhores resultados nas componentes linguísticas estudadas. Todavia, observou-se que a idade auditiva do grupo de crianças implantadas com idade igual ou inferior a 2 anos e seis meses era significativamente superior à das crianças implantadas após essa idade. Este facto por si só impede-nos de assumir, sem reservas, que neste estudo a idade da implantação cirúrgica, mais precoce, foi um factor que contribuiu positivamente para os ganhos na linguagem oral das crianças. Poucos foram os investigadores que não verificaram diferenças significativas nas competências da linguagem oral, resultantes da idade da implantação cirúrgica. Holt e Svirsky (2008) não verificaram diferenças entre crianças implantadas antes dos 12 meses
de idade e as implantadas entre os 13 e 24 meses de idade. Nesse estudo, os autores reconheceram que a amostra era muito pequena. Contudo, assumiram que as crianças implantadas mais cedo revelam maior velocidade na aquisição da estrutura da linguagem. Esta opinião é contrária à do investigador May-Mederake, que estudou 28 crianças implantadas antes dos 2 anos de idade, observando que tinham uma performance equiparada ou melhor que os seus pares normo-ouvintes na fala e no desenvolvimento morfossintáctico (May-Mederake, 2012). A maioria dos estudos encontrados na literatura internacional refere que a implantação em idades precoces contribui consideravelmente para a estruturação da linguagem nas crianças marcando uma diferença significativa em
relação às crianças implantadas tardiamente (Clark, Wang e Riley, 2012;Ertmer et al., 2012;Gérard et al., 2010;Hallberg et al., 2005;Kanda, Kumagami e Hara, 2012;Ozdemir et al., 2011;Spencer, Tomblin e Gantz, 2012), o que, apesar das nossas reservas, parece ser também a tendência dos nossos resultados.
A idade de implantação, bem como outros factores referenciados na presente investigação, continuam por esclarecer e a merecer a atenção da comunidade científica, reforçando a necessidade de prossecução do estudo, com um número maior de crianças, com o intuito de conhecer a tendência deste fenómeno e criar um conjunto de mecanismos para a resolução das questões cujas soluções beneficiem as crianças com IC.