Capítulo 3: Propensão à sindicalização no emprego formal no Brasil
3.3. Discussão dos resultados do modelo testado
Dentre as variáveis selecionadas, somente a variável “Sexo” nos anos de 2003 e 2015 não apresenta significância estatística (um p-valor < 0,05). Na variável “Grupos Ocupacionais” no ano de 2015, a maioria de seus itens também não apresenta significância. No mais, apenas a faixa de 1 a 3 anos de estudos para todos os períodos testados e a faixa de 3 a 7 anos de estudos para o ano de 2015 também não apresentaram significância. Assim sendo, podemos considerar o modelo testado útil para tecer alguns apontamentos. Os resultados discutidos podem ser consultados no Quadro 3-4.
a) Setor de atividade
O trabalhador do setor industrial é o mais propenso a se sindicalizar em comparação com todos os demais. Em todo o período entre 2003 e 2015, em média, um trabalhador do setor de serviços tinha 23,6% menos de chances de se sindicalizar que um trabalhador ocupado na indústria. Entre o início e o final deste período, esta probabilidade se alterou de forma relevante, já que em 2003, um trabalhador dos serviços tinha apenas 17,1% menos de chances de se sindicalizar quando comparado a um trabalhador industrial.
b) Setor de atuação
Segundo o modelo testado, trabalhadores do setor público são mais propensos a se sindicalizar do que os trabalhadores formais do setor privado. Não há alteração relevante na magnitude desta maior propensão no período de análise. Em 2015, trabalhadores do setor público tinham 13,3% a mais de chances de se sindicalizar do que trabalhadores do setor privado. Porém, quando comparamos o tipo de contrato, nota-se uma considerável alteração. Em 2003, funcionários públicos estatutários eram 11,7% mais propensos a se sindicalizar que os demais trabalhadores com carteira de trabalho assinada, já em 2015 as chances de sindicalização dos estatutários era 41,4% maior de que dos celetistas.
c) Remuneração
Confirma-se o que se verificou com a análise descritiva dos dados. Quanto maior a remuneração, maior a propensão a se sindicalizar. Na Figura 3-2 ilustramos como se comporta a curva de propensão a sindicalização dos trabalhadores formais conforme as faixas de remuneração. Nota-se que o efeito linearmente crescente tem sua dimensão reduzida de 2003
para 2015. Mesmo diante desta redução de impacto, a remuneração ainda aparece como uma das variáveis com diferença mais marcada, já que a passagem de uma faixa de remuneração para a outra implica numa mudança acentuada na probabilidade de sindicalização.
Figura 3-2 - Propensão a se sindicalizar dos trabalhadores formais por faixa de remuneração em salários mínimos (Ref. = até 1 salário mínimo), Brasil 2003 e 2015
Fonte: Quadro 3-4
d) Região Geográfica
Os trabalhadores das regiões Nordeste e Sul são os mais propensos a se sindicalizar. Comparados com os trabalhadores da região Sudeste (onde está concentrada grande parte da massa de trabalhadores formais no Brasil) verifica-se respectivamente, 42,7% e 20,2% a mais de chances. No entanto, quando considerado apenas o ano de 2015, as chances de sindicalização dos trabalhadores sulistas caem para 7,8% a mais em relação aos trabalhadores do Sudeste, refletindo a queda de sindicalização verificada na região na análise do capítulo anterior. Quando comparados os trabalhadores das regiões Norte e Centro-Oeste com os trabalhadores do Sudeste, aparece uma diferença de propensão à sindicalização muito baixa, ao longo dos 12 anos estudados. Para o ano de 2015, não há significância estatística no comparativo destas regiões. 109,38 210,30 322,77 449,27 520,89 539,12 89,17 173,52 216,06 243,45 319,95 329,14 1 |--- 2 2 |--- 3 3 |--- 5 5 |--- 10 10 |--- 20 Acima de 20 2003 2015
e) Anos de estudo
Assim como na relação com as faixas de remuneração, quando consideradas faixas de anos de estudo, se apura uma trajetória linearmente crescente ao longo do período 2003-2015. Quanto mais anos de estudos, maior a propensão do indivíduo se sindicalizar. No ano de 2015 essa relação passa a ser de menor magnitude quando comparado ao ano de 2003 e também ocorre uma queda mais acentuada na propensão de sindicalização dos trabalhadores com mais de 15 anos estudo, de forma que a propensão destes trabalhadores aderirem aos seus sindicatos passa a ser menor de que a propensão dos trabalhadores com 11 a 14 anos de estudos, quebrando a relação linear observada no período.
f) Zona Censitária
Ao passo que em 2003 e ao longo dos anos estudados, os trabalhadores rurais apresentavam menor propensão a se sindicalizar (em média 4,3%), no ano de 2015 a propensão à sindicalização dos trabalhadores formais das regiões rurais foi 2,1% maior relativamente aos trabalhadores urbanos.
g) Faixa etária
O efeito da idade sobre a propensão à sindicalização reflete o que se constatou na análise descritiva dos dados. Grupos de idade mais avançada têm probabilidade maior à sindicalização que os grupos de trabalhadores mais jovens. Este efeito intensifica-se no comparativo entre 2003 e 2015, apontando para uma tendência de maior afastamento dos mais jovens dos sindicatos. As curvas da Figura 3-3 mostram que em todas as faixas etárias há aumento da propensão à sindicalização no comparativo do ano de 2003 e 2015, tendo como referência o grupo de jovens trabalhadores (entre 15 e 23 anos). No topo da pirâmide etária, a faixa de trabalhadores com 60 anos ou mais, embora apresente ampliação da propensão à sindicalização em relação ao ano de 2003, deixa de ser o grupo mais propenso à sindicalização, ficando atrás do grupo de trabalhadores com idade entre 50 e 59 anos.
Figura 3-3 - Propensão à sindicalização por faixas etárias (Ref.=15 a 23 anos) - Brasil, 2003-2015
Fonte: Quadro 3-4
h) Cor da pele/ Etnia
Trabalhadores brancos tiveram, em média, 7,16% de chances a mais de se sindicalizar quando comparados com trabalhadores não-brancos no período 2003-2015. A propensão isolada desta variável nos anos específicos de 2003 e 2015 orbita próxima deste valor médio do período.
i) Sexo
A análise isolada dos anos de 2003 e 2015 não fornece resultados estatisticamente significativos. Quando observado o conjunto de anos entre 2003 e 2015, o modelo aponta para uma propensão 2,67% maior de chances de sindicalização para as mulheres em relação aos homens.