Apesar do nosso esforço para conseguir participantes para nossa pesquisa, infelizmente o número obtido não foi o desejado. Embora houvesse problemas referentes ao número de participantes, 25 brasileiros e apenas 15 japoneses, foi possível, por meio dos questionários, conseguir uma amostra significativa dos atos de fala dentro do ambiente corporativo. Os resultados aqui apresentados não foram suficientes para fazermos afirmações quanto ao uso e expectativas de uso dos atos diretivos, no entanto, foi possível observarmos alguns pontos reveladores de comportamento pragmalinguístico no uso das estratégias de pedido no português falado nas regiões de Curitiba e o japonês falado por expatriados japoneses residentes nas regiões de Curitiba.
Muitos aspectos linguístico-culturais semelhantes foram observados, assim como diferenças de variação nas duas culturas. Fatores contextuais que influenciaram para que ocorressem tais diferenças também foram apresentados e analisados.
Quanto ao uso dos alertas, ou seja, os marcadores formais e marcadores informais, o emprego do môshiwakenai [desculpe] e derivados, pelos japoneses, é característico nas interações no mundo corporativo. A expectativa de que o poder relativo, a hierarquia, que pensávamos ser o fator mais relevante para o falante pedir desculpas, não se concretizou. Nas situações 3 e 4, em que o falante japonês está na posição inferior ao ouvinte, eles aparecem apenas 7 vezes ao todo, ou seja, em apenas 23% das respostas dos participantes. A relação de distância social foi decisiva para o uso desse marcador, que apareceu mais de uma vez nas interações das situações que envolvem contato com os clientes. Outro fator primordial para o seu uso foi o contexto. Apesar de não haver diferença de poder e a distância social não ser grande, afinal são colegas de trabalho, nas situações 7 e 8, reunião e barzinho, em que o contexto cuja ameaça à face do falante é alta, tanto os japoneses como os brasileiros usaram a polidez negativa para fazer os pedidos. O pedido de desculpas novamente aparece em todas as interações dos falantes japoneses. No português, apesar de os brasileiros se desculparem muito pouco, há a presença de marcadores, como “por favor”, “faz favor” e
alguns pedidos de desculpas em todas as 8 situações, perfazendo 20% do total de uso dos marcadores formais ou informais.
Quanto aos vocativos, os brasileiros preferem começar a interação, chamando pelo nome da pessoa, na forma formal com pronomes de tratamento, na forma informal com nomes ou apelidos, ou usando as expressões como
“amigo”, “cara”, ou ainda usando nomes comuns para chamar desconhecidos como “José”. A diferença entre as duas culturas nesse aspecto é muito grande, uma vez que os japoneses utilizaram esse recurso apenas algumas vezes.
Há um mito de que os japoneses são extremamente “polidos” e mais indiretos devido ao emprego dos honoríficos que são institucionalizados. O que se observou na pesquisa, entretanto, foi que, no ambiente corporativo, eles são muito diretos e claros quando precisam dar ordens aos seus subordinados.
Como foi salientado anteriormente, mesmo nas duas situações em que o poder relativo do falante é maior, os brasileiros atenuaram mais, usando atos de apoio e a indiretividade, o que quase não ocorria com os gerentes japoneses.
Não é só por falta de conhecimento linguístico que eles têm dificuldade de se comunicar, mas essa diferença no uso de estratégias, diferentes da sua cultura, tem causado algumas vezes o constrangimento e criado o mal estar. Os brasileiros estão habituados com essas atenuações e não se sentem confortáveis em serem “mandados” de forma direta. Conversando com japoneses sobre a questão, ao longo da vida docente da pesquisadora, ex-alunos japoneses de PLE afirmaram que, de certa forma, estão “acostumados”
com a hierarquia e não se importam tanto, achando que o comando é necessário na empresa. Segundo Nakane (1967, apud KIKUCHI, 2014), a hierarquia, como princípio da estruturação da sociedade japonesa, prevalece em todas as relações sociais e tem como característica a ênfase da localidade
“ba”. Ela concentra principalmente no local de trabalho, uma vez que o indivíduo fica maior parte do tempo nele. Dessa forma se explica o emprego dos enunciados diretos pelos chefes e a aceitação natural por parte dos funcionários dentro da corporação.
Quando o poder relativo do falante é menor e a distância social não é tão grande, caso das relações internas de uma empresa, as estratégias de polidez negativa foram as mais empregadas e verificou-se que as estratégias preparatórias foram usadas de igual forma pelos falantes brasileiros e
japoneses. A perspectiva orientada para o falante também foi semelhante, mas a diferença foi observada na escolha da estratégia: os brasileiros usaram mais o performativo atenuado enquanto os japoneses preferiram os performativos explícitos e declaração de vontade, sendo muito mais contundentes ao expressar a sua vontade de ir ao casamento do irmão. Essas escolhas, de certa forma, foram inesperadas, pois supunha-se que por ser uma situação privada, os japoneses se sentissem mais propensos a usar os performativos atenuados ou formas indiretas.
Na situação em que o falante precisava pedir para alterar o procedimento, ambos usaram muito a indiretividade, como as fórmulas sugestivas. Entende-se que por ser uma situação delicada, os falantes coloquem as suas posições, perspectiva voltada ao falante, e usem as estratégias que os comprometam menos. A diferença aqui verificada é que, como na situação anterior, ao se dirigirem aos seus superiores, há um percentual de participantes japoneses que foram mais claros na exigência de mudança no procedimento, o que de alguma maneira, remete ao sistema do Modelo Toyota (vide p. 9), que prioriza o produto de qualidade, e incentiva o kaizen, que significa melhoria contínua, gradual, na vida em geral (pessoal, familiar, social e no trabalho) (LIKER, 2005). Para efetuar o kaizen, a proposta é que todos (gerentes, funcionários, operários) participem do processo. O número das estratégias de diretividade (performativos explícitos, 8%, declaração de obrigação 4%, declaração de vontade 23%, e até derivável de modo) é mais alto do que o dos brasileiros que empregaram mais os performativos atenuados, 29%, além das estratégias de indiretividade – as sugestivas, as preparatórias e pistas fortes e moderadas. Para atenuar ainda mais o pedido, foram utilizadas pelos brasileiros as justificativas, como atos de apoio em grande número. Por essas descobertas, podemos dizer que os brasileiros preferem usar mais as estratégias da indiretividade nas duas situações que a hierarquia era mais acentuada.
Nos contatos com clientes, como era de se esperar, a indiretividade esteve presente tanto em português como em japonês. As atenuações com as estratégias diretas também foram muito usadas. Descobrimos uma sequência de estratégias muito semelhantes em todos os questionários respondidos, como se fosse uma padronização de pedido em japonês. Ao contrário dos
japoneses, que usaram quase que exclusivamente a polidez negativa, os brasileiros tentam se aproximar do cliente, diminuindo a distância existente, o que se justifica segundo Kerbrat-Orecchioni (2006), porque as regras que marcam a distância ou intimidade são “mais brandas” no mundo ocidental. É interessante notar, porém, que a sequência em português é muito mais variada, mostrando claramente que a escolha do uso das estratégias de polidez é feita pelo falante, após considerar as variáveis e o contexto.
No Português, as formas formais e informais não diferem tanto como em japonês. Na elaboração das situações 7 e 8, esperava-se que com a distância menor e com o poder relativo igual entre os interlocutores, houvesse maior uso de polidez positiva. No entanto, o grau de imposição dos FTAs, que segundo Brown e Levinson são definidos cultural e situacionalmente, levando-se em conta o grau de interferência de tais atos nos desejos de autodeterminação ou de aprovação do interlocutor, influenciou muito na escolha das estratégias de polidez. Mesmo sendo colegas, o ato de pedir para pagar a sua conta no barzinho é mais constrangedor para os brasileiros, enquanto que, para os japoneses, é mais constrangedor dar trabalho ao colega, por problemas particulares. No Japão, há uma expressão – hitoni meiwakuwo kakeruna [não incomode o outro] – que os pais e os professores passam sempre para as crianças. Elas são educadas a evitar o incômodo, seguindo os ensinamentos budistas e confucionistas. Esse espírito de não incomodar o outro provavelmente está na atitude dos japoneses em relação ao pedido para ir à reunião. Evidentemente, pedir emprestado o dinheiro do outro também é um incômodo, mas como são colegas de trabalho, eles acham que podem devolver no dia seguinte, portanto o incômodo é menor do que pedir a um colega para participar de uma reunião de trabalho em São Paulo. Vale lembrar que no Japão, salvo exceções, o emprego é vitalício, o que faz com que haja um relacionamento mais estreito entre os colegas de trabalho.
4.4.2 Síntese do capítulo
Neste capítulo, apresentamos os resultados obtidos nos questionários respondidos por 25 participantes brasileiros e 15 participantes japoneses. Com base nesses resultados, realizamos a análise quanto aos alertas, que classificamos em marcadores formais 1 e 2 e marcadores informais 1 e 2.
Resultados interessantes puderam ser constatados, principalmente no que se refere à diferença cultural no uso dos marcadores. Os pedidos de desculpas foram intensamente empregados pelos japoneses enquanto que isso não se verificou nas respostas dos brasileiros. Não obstante, o uso dos vocativos, tanto formais como informais, foi verificado em grande percentual em português, enquanto em japonês isso quase não ocorreu. Posteriormente, prosseguimos com a análise de cada duas situações, considerando o poder relativo e a distância social. Como é no ambiente de trabalho que ocorre a interação, houve predominância de uso de estratégias diretas com ou sem atenuações, dependendo da situação. Os números de português e japonês quanto ao uso da in-diretividade são muito parecidos.
Depois da análise das situações, os honoríficos e os morfemas finais japoneses receberam uma subseção à parte devido às suas peculiaridades.
Foram analisados o uso dos honoríficos e os morfemas finais, como yo, ne, kana, cada qual com sua função específica. Constatou-se que os morfemas finais, como os honoríficos na língua japonesa, são empregados pelos interlocutores com funções de conteúdo proposicional, mas a “polidez pragmática” e a subjetividade do locutor são fatores que influenciam o seu uso.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS