5 AS EXPERIÊNCIAS VIVIDAS NA PAISAGEM DO CONJUNTO HISTÓRICO E
5.3 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.3.3 Discussão dos resultados obtidos junto aos visitantes
As respostas obtidas sobre a motivação dos sujeitos entrevistados em visitar Antonina revelaram uma busca por tranquilidade e por elementos culturais, conforme inferido quando eles mencionaram o interesse na contemplação da paisagem e no conhecimento da arquitetura C.H.P. de Antonina.
A motivação para viajar, segundo Lohmann e Panosso Netto (2008) está diretamente relacionada com a busca por novas experiências que sejam capazes de trazer algo de significativo para a vida dos indivíduos.
De acordo com Barretto (2003) as motivações de viagem são influenciadas por fatores afetivos e racionais.
Assim, nessa pesquisa, nas primeiras respostas obtidas junto aos visitantes observou-se como fatores afetivos a questão da visita a familiares e como fatores racionais a decisão movida por interesses diversos e o planejamento para concretizá-los.
Para Andrade (2006, p. 89-90) as principais motivações de viagem são “[...] o desejo de evasão, necessidade de evasão, espírito de aventura, aquisição de status, necessidade de tranquilidade, desejo ou necessidade cultural, desejo ou necessidade de compra”. Isso porque segundo o autor,
A intensa atividade humana e os desgastes dela decorrentes levaram a própria sociedade a procurar recursos capazes de fornecer aos indivíduos os necessários meios para o atingimento de suas aspirações, entre as quais a prática do lazer e do turismo. (ANDRADE, 2006, p. 89).
Além disso, as respostas obtidas por meio do questionário aplicado indicaram também que a modalidade de turismo praticada pelos sujeitos respondentes era aquela denominada de cultural, como definido por Barretto (2003, p. 22) sobre “[...] o turismo cultural [ser] aquele que tem como objetivo conhecer os bens materiais e imateriais produzidos pelo homem”.
Os adjetivos utilizados para descrever a paisagem do C.H.P. de Antonina confirmaram mais uma vez a busca por tranquilidade como motivação de viagem como mencionado por Andrade (2006), colocando em evidência a atratividade e a potencialidade que essa paisagem possui para o turismo.
Desse modo, foi possível observar que o valor atribuído à paisagem, de acordo com o descrito por Meneses (1992) era aquele de caráter formal pela apreciação dos elementos disponíveis visualmente e aquele denominado pelo autor de pragmático por estar atrelado a um uso, uma função, no caso do encontrado nessa pesquisa, um uso turístico.
Nesse sentido, Chemin (2011, p. 279) em seu estudo sobre os espaços de paisagem em cidades do litoral paranaense considerou os elementos da paisagem do C.H.P. de Antonina, principalmente aqueles relacionados com a arquitetura, as áreas verdes e a Baía, como importantes “lócus turístico”.
Igualmente Andrukiu e Gândara (2015) enfatizaram a paisagem no escopo de seu estudo sobre a classificações dos atrativos turísticos de Antonina de acordo com as emoções dos sujeitos que os visitaram, e encontraram como resultado que
[...] o município possui principalmente atrativos indicados para pessoas que visam à contemplação, devido aos recursos paisagísticos e alguns locais que oferecem tranquilidade e relaxamento, ou ainda para aqueles que buscam entretenimento fotografando paisagens. (ANDRUKIU; GÂNDARA, 2015, p.
1).
Considerando que é no C.H.P. de Antonina que estão localizados os principais atrativos turísticos do município, esses estudos contribuem para demonstrar que a paisagem dessa área é um recurso para o desenvolvimento do turismo.
Todavia, as respostas de dois sujeitos que utilizaram adjetivos negativos para descrever essa paisagem permitiram identificar, além de potencialidades, também fragilidades, o que na concepção da pesquisadora está relacionado ao fato de que ambos permaneceram na cidade por 2 dias, o que possivelmente proporcionou condições para uma avaliação mais crítica sobre a experiência turística que vivenciaram em Antonina.
Com relação a totalidade dos elementos presentes na paisagem do C.H.P. de Antonina constituir-se em um patrimônio, todos os sujeitos assentiram que sim. Dentre esses elementos foram citados o barreado, os marcos históricos representados em algumas edificações e a Festa de Nossa Senhora do Pilar.
Aqui cabe mencionar que Gimenes (2009) em seu estudo sobre a culinária do litoral paranaense e a sua relação com o turismo encontrou que o nome dado a esse prato está relacionado com a técnica de “barrear” a panela, vedando-a com uma mistura de farinha de mandioca, cinza de fogão e água e, em alguns casos, também com uma folha de bananeira e abrindo-a após aproximadamente doze horas de cozimento. Para a autora um aspecto importante na tradição desse preparo é a sua continuidade nas residências e nas festas comunitárias, permanecendo como peça integrante do cotidiano e da cultura local, mesmo tendo se expandido para os restaurantes das cidades.
Para Fagliari (2005), no turismo a busca por experiências gastronômicas e a satisfação que elas podem trazer ajuda a criar impressões favoráveis ou desfavoráveis da viagem em sua totalidade, já que a alimentação é ao mesmo tempo forma de lazer e prazer e um dos elementos essenciais da experiência turística, mais marcante que a materialidade de um simples souvenir.
Com relação aos marcos históricos presentes na paisagem, observou-se nas respostas obtidas que especialmente para aqueles sujeitos cuja cidade de origem era Curitiba, a importância da paisagem do C.H.P. de Antonina residia no fato dela conter
as marcas da fase áurea da economia do município que ilustra a sua contribuição até mesmo para desenvolvimento do Estado do Paraná, considerando que o município foi uma de suas primeiras províncias, conforme apontado por Berg (2003).
Esses apontamentos demonstraram uma certa nostalgia pelo passado, tal como discutido por Jeudy (1990) e Choay (2001), e colocaram também em evidência a atratividade das cidades históricas tombadas como patrimônio, apresentada por Fonseca (2009).
Cabe aqui registrar que em nenhum momento do contato da pesquisadora com o visitante houve questionamento por parte deles com relação à autenticidade dos elementos observados durante a visita, mesmo com as intervenções e as modificações pelas quais a arquitetura dos bens imóveis que compõem o C.H.P. de Antonina sofreram ao longo dos séculos.
Isso sugere que os sujeitos participantes dessa pesquisa podem ser classificados como pós-turistas, conforme descrito por Urry (2001), Barretto (2003) e Santana (2009), como aqueles que buscam por experiências e ambientes que diferem daqueles vivenciados em seu cotidiano e por essa razão não estão preocupados com a suposta originalidade do que é comercializado como atrativo turístico.
Com relação à experiência vivenciada com a participação na Festa de Nossa Senhora do Pilar, o único sujeito respondente que a tinha como principal motivação de visita expressou descontentamento, mencionando que nos anos anteriores houve maior movimentação de pessoas no evento, o que confirmou aquilo que já havia sido mencionado pelos moradores durante as entrevistas com eles realizadas.
Contudo, no final de semana que antecedeu o dia comemorativo da padroeira local, nos dias 13 e 14 de agosto de 2016, no entorno da Igreja de Nossa Senhora do Pilar (FIGURA 28), diferente do ocorrido no início da semana da Festa, no dia 06 de agosto de 2016, durante a realização do trabalho de campo dessa pesquisa, observou-se uma movimentação maior de pessoas caminhando pelas ruas e praças centrais, algumas delas com o interesse de participar das atividades culturais que estavam sendo promovidas pela Igreja, tais como apresentações musicais e bingo, mescladas com as atividades religiosas de missas e procissões.
FIGURA 28 – AMBIENTES DE ATIVIDADES CULTURAIS NA FESTA DE N. S. DO PILAR FONTE: A AUTORA (2016).
LEGENDA: A) Acesso a entrada da Igreja Nossa Senhora do Pilar. B) Barracas-palco na Praça Coronel Macedo.
Além disso, observou-se também uma movimentação de pessoas em deslocamento e circulação pelos demais ambientes montados especialmente para Festa, tais como o parque de diversões e as barracas que comercializavam produtos variados, dentre eles brinquedos, alimentos, confecções, eletrônicos, etc. (FIGURA 29) demonstrando o caráter comercial dessa festividade confirmando o encontrado na literatura sobre esse tema e também o mencionado pelos moradores nas entrevistas.
FIGURA 29 – AMBIENTES DE DIVERSÃO E COMÉRCIO NA FESTA DE N. S. DO PILAR FONTE: A AUTORA (2016).
LEGENDA: A) Rua onde foi instalado um parque de diversão. B) Barracas de comercialização de produtos diversos.
Silva (2014) em seu estudo sobre essa Festa apontou a potencialidade que ela possui para ser trabalhada como um atrativo turístico de Antonina. A mesma perspectiva foi apreendida por meio das entrevistas realizadas pela pesquisadora com os moradores e durante a participação no evento.
Em síntese, as respostas que mesclaram a admiração e a consideração pelos elementos naturais, materiais e imateriais contidos na paisagem do C.H.P. de Antonina sinalizaram um entendimento por parte dos sujeitos respondentes sobre o conceito contemporâneo de patrimônio que engloba os elementos materiais e imateriais da cultura de uma comunidade, acrescido conforme colocado por Choay (2001, p. 11)50,
“[...] de todos os savoir faire dos seres humanos”. Além disso, os resultados obtidos contribuíram para apoiar a sugestão mencionada nessa pesquisa de que a área em estudo poderia ser enquadrada em uma das categorias estabelecidas pela UNESCO e adotada pelo IPHAN, pelo fato de atender aos critérios necessários para ser classificada como paisagem cultural.
Com relação a qualificação da experiência turística, para a pesquisadora o curto período de permanência desses sujeitos em Antonina possivelmente seja o responsável pela satisfação generalizada com visita e a ausência de criticidade com relação às questões de infraestrutura e de qualificação profissional no setor turístico local.
Com relação ao procedimento metodológico adotado nessa pesquisa, o fato de estar com o visitante no momento da coleta de dados, como recomendado por Panosso Netto (2005) sobre os procedimentos da pesquisa qualitativa de base fenomenológica, foi fundamental para a obtenção dos resultados aqui discutidos porque por meio da interação pesquisadora e sujeito respondente foi possível adentrar, guardadas as devidas limitações, na realidade da experiência turística que por eles estava sendo vivenciada.
Dessa forma, os resultados obtidos com esse grupo de sujeitos contribuíram para consolidar a Tese defendida nessa pesquisa de que os elementos componentes e integrantes da paisagem do C.H.P. de Antonina de caráter material, representados pelas construções antigas e pelas ruínas, aqueles de caráter natural, representados pelo Mar e pela Serra, e os imateriais representados pelas manifestações culturais, sobretudo a Festa de Nossa Senhora do Pilar fazem dela um patrimônio e um recurso ao desenvolvimento do turismo local.
50 “[...] de todos os saber-fazer dos seres humanos” (CHOAY, 2001, p. 11, tradução nossa).