O presente estudo seguiu padrões conceituais e metodológicos utilizados em pesquisas prévias sobre escolha de parceiros em humanos (e.g. Buss, 2000; Marquezan, 2005). Por exemplo, embora a amostra incluísse uma pequena porcentagem de homens e mulheres com mais de 25 anos de idade, os sujeitos eram, em sua maioria, universitários com faixa etária entre 18-25 anos. Cada sujeito foi avaliado a partir de questionários que utilizavam uma escala associada ao grau de importância de cada atributo. Os atributos usados na pesquisa também foram selecionados a partir de estudos prévios, e incluíam tanto aqueles considerados importantes para ambos os sexos (ex. inteligência, fidelidade, companheirismo) como aqueles tidos como dependentes do gênero (ex. condição financeira, ambição, corpo e rosto bonito).
Também levamos em consideração como os sujeitos participantes se auto- avaliavam, e como respondiam a perguntas relacionadas a dados sócios demográficos e sobre relacionamentos passados. Duas destas variáveis mostraram-se dependentes do gênero: ter ou não um emprego remunerado e freqüentar culto ou igreja. No primeiro caso, é difícil estabelecer se esta diferença poderia ter influenciado diretamente as respostas dos sujeitos em relação ao modo como escolhem parceiros. É possível, por exemplo, que homens jovens não se preocupem com a condição financeira e ambição da parceira em potencial porque elas em geral não possuem emprego e independência econômica. Por outro lado, a relação poderia ser contrária: o fato de mulheres valorizarem mais homens com potencial de conseguir atributos pode influenciar o comportamento de homens de procurar e manter empregos. É também possível que as duas variáveis sejam influenciadas por variáveis antecedentes relacionadas a valores culturais que enaltecem a independência financeira masculina mais do que a feminina, embora estes valores estejam sofrendo modificações nas últimas décadas.
A maior adesão, em nossa amostra, de mulheres a cultos e igrejas também pode estar relacionado a valores diferenciados para os dois gêneros, e pode ter sido um fator na diferença significativa encontrada paro critério “religiosidade” no caso do parceiro ideal. Por outro lado, esta diferença não se manteve quando analisamos as respostas relativas (percentual do total de pontos usados pelo sujeito), nem no caso do parceiro ideal, nem no caso das respostas com restrições orçamentárias. Além disso, tanto para homens como para mulheres o quesito “religiosidade” ganhou importância relativa (ranking dos atributos) com o aumento da restrição. Desta forma, o maior número de mulheres freqüentadoras de cultos ou igrejas parece não ter influenciado de forma significativa os resultados sobre o efeito das restrições nos dois gêneros.
Com a exceção das diferenças acima, a análise exploratória inicial indicou poucas diferenças demográficas entre os sujeitos do sexo masculino e feminino. O fato de não haver, em nossa amostra, diferenças de gênero para idade, classe sócio- econômica, e fortalece a conclusão de que as diferenças na forma com que homens e mulheres responderam ao questionário dependeu principalmente de seu sexo, e não de outros possíveis fatores. Assim, a comparação entre nossos resultados e os apresentados em estudos prévios sobre o parceiro ideal serviu o propósito de nosso primeiro objetivo: avaliar a validade externa dos resultados encontrados em outras pesquisas.
De fato, nossos resultados foram bastante consistentes com os trabalhos prévios sobre o parceiro ideal encontrados na literatura, tantos os realizados em outras localidades como o realizado em Goiânia por Marquezan (2005). Os atributos “inteligência”, “fidelidade” e “companheirismo” figuraram entre os mais importantes para os dois sexos. Mulheres foram mais exigentes do que homens, pontuando mais do que estes para 8 dos 10 atributos de nosso questionário, 6 dos quais apresentaram diferenças significativas. Dentre estes atributos constavam, conforme esperado a partir
de nossas hipóteses, “condição financeira” e “ambição”. Os únicos atributos mais desejados por homens do que para mulheres foram os relacionados à beleza física (rosto bonito, corpo atlético), ambos apresentando diferença significativa entre os gêneros. Nossos resultados reforçam, portanto a idéia de que as diferenças de gênero na escolha de parceiros são características universais, e bastante resistentes a fatores culturais. Analisando gênero e estratégias sociossexuais, encontramos uma diferença significativa que também está de acordo com estudos prévios: os homens afirmaram ter tido mais parceiras (com e sem relações sexuais) nos últimos 6 meses Estas diferenças estão de acordo com o esperado, a partir de trabalhos prévios (Bateman, 1948; Buunk, 2001; Buss, 1993; Castro, 2009; Li & Kenrick 2006; Geary 2004). No entanto, é possível que nosso questionário não tenha gerado resultados fidedignos. Observamos que 45 mulheres que disseram ter um parceiro fixo, 30 delas há mais de 8 meses, também relataram não ter feito sexo com nenhum parceiro. O mesmo aconteceu para 21 homens que disseram ter uma parceira fixa, incluindo 10 sujeitos cujo relacionamento já durava mais de 8 meses no dia da coleta. É provável que a pergunta tenha sido mal interpretada por muitas pessoas, ou seja, muitos sujeitos provavelmente contaram o número de parceiros de ficar e fazer sexo sem incluir o parceiro fixo atual (número de traições). Embora este erro possa ter afetado ambos os gêneros de forma semelhante, não temos como avaliar a porcentagem correta de homens e mulheres de nossa amostra que não tiveram nenhum parceiro nos últimos seis meses.
Nosso trabalho também se equipara à maioria dos estudos prévios por adotar, como referenciais teóricos, tanto a abordagem evolucionista darwiniana como a teoria de valor de mercado defendida por Pawlowski (1999; 2000) entre outros. A introdução de restrição de pontos na escolha de parceiro potencial, porém, representou uma estratégia menos utilizada. Nossos resultados novamente estão de acordo com os
apresentados por Li & Kenrick (2006) e por Castro (2009), com as diferenças previstas pela Psicologia Evolucionista tendo persistido no caso de escolhas com restrições.
É curioso, a princípio, que o balanceamento inicial do parceiro ideal (valores relativos para respostas sem restrição orçamentária) tenha mostrado diferenças significativas para apenas 4 atributos. No entanto, 3 destes atributos eram “biologicamente relevantes”. Homens consideraram “rosto bonito” e “corpo atlético” relativamente mais importante do que mulheres, e mulheres o fizeram no caso de ambição. O outro atributo considerado, de forma relativa, mais importante para mulheres foi “experiência sexual”. Esta diferença também faz sentido do ponto de vista evolucionista, já que virgindade e pouca experiência podem aumentar as chances de uma parceira com sociosexualidade voltada a poucos parceiros, e consequentemente a probabilidade de paternidade.
No geral, o efeito da restrição só foi mais aparente no caso da pontuação de 30 pontos (grande restrição). Nesta situação, apenas os quatro atributos “biologicamente relevantes” apresentaram diferenças significativas, e o fizeram na direção esperada pela Psicologia Evolucionista: rosto bonito e corpo atlético mais importante para homens; condição financeira e ambição para mulheres. Além disso, a restrição teve efeito semelhante para homens e mulheres nos valores relativos atribuídos. Dois destes atributos (ambição e condição econômica) permaneceram no mesmo ranking de importância quando comparamos a situação sem restrição com restrição de 30 pontos, e outro aumentou seu ranking (corpo). Apenas “rosto bonito” perdeu postos para os dois sexos, embora no caso de homens esta perda pode estar associada ao aumento de ranking de “corpo bonito”.
Apesar das previsões evolucionistas terem sido fortalecidas em geral, é importante ressaltar a complexidade de fatores envolvidos na escolha de parceiros
humanos. Por exemplo, tanto para homens e mulheres, inteligência e religiosidade aumentaram de posto, e companheirismo, criatividade e rosto diminuíram, com a restrição de 30 pontos. Fidelidade aumentou de posto no caso de sujeitos do sexo feminino. Religiosidade, em particular, obteve valores relativos muito maiores com a restrição. A busca de parceiros, embora possa ter fundamentos biológicos, implica em uma série de considerações a respeito dos parceiros em potencial. Além das características “biológicas” dos candidatos, o sujeito que escolhe deve levar em conta uma série de características relacionadas à capacidade de relacionamento e de se comprometer emocionalmente, e à capacidade de prover e cuidar (Buss, 2008). Além disso, sujeitos com valores e atitudes semelhantes, como por exemplo, o grau de religiosidade, podem durar mais e resultar em melhores relacionamentos.