2.1 Os objetivos do uso de filmes em sala de aula
2.1.1 Discussão e complementação das aulas e estudos de história
O primeiro objetivo direciona-se para a discussão e complementação do que foi desenvolvido em sala de aula; visando a ampliação da análise histórica de determinado conteúdo, fazendo revisão do foi estudado em relação ao filme por meio de resumo,
26 Item 2.2.9 do capítulo 2: objetivo do uso do cinema em sala de aula.
resenha, relatório ou discussão sobre o filme. A pretensão é de revisão e fixação do tema estudado no programa, representado por sua vez na obra cinematográfica.
O professor do colégio T apresentou uma atividade que segue tal objetivo. A atividade, no entanto, pode deixar a desejar quanto ao desenvolvimento crítico e formação dos alunos, pois não compara um tipo de representação com outra(s) produção(ões). O trabalho de cada grupo de alunos foi desenvolvido isoladamente. Relacionar as produções seria uma forma de pensar as diferentes representações do que o professor chama de
“mundo na primeira metade do século XX”.
Eu sorteei, por exemplo, 3º ano: peguei um elenco de filmes que tratam do período que vai dos anos 20 aos anos 40. Uma série de filmes27, entre eles: A queda, Os intocáveis, Era uma vez na América... Para dar uma idéia de contexto... De mundo. Como seria o mundo, né... Para discutir exatamente com eles essa idéia de mundo. Como era esse mundo na primeira metade do século XX. Até segunda guerra mundial. Então cada um teve de pegar esses filmes, assistir, montar uma resenha... Daí a gente discutir a partir da resenha. Não foi possível discutir resenha por resenha. Uma das resenhas que eu discuti com eles foi A queda.
O professor, entretanto complementou, dizendo que também faz comparações ente filmes em sala de aula, estratégia sugerida por FERRO como fundamental para os estudos históricos, mostrando as permanências e rupturas em relação a representação ou discussão em torno de determinado assunto: “Por exemplo: A guerra fria. Pega um trecho do Doutor Jivago, do James Bond.[não citou algum especificadamente] Dá pra discutir exatamente como se dá a guerra fria e a construção de propaganda. Porque é uma guerra de propaganda.”
O professor do colégio B refere-se ao seu trabalho apresentando o objetivo de mostrar a Idade Média e ao mesmo tempo criticar a obra do cinema, que ele chama de
“comercial”:
Em história eu usei sim no ensino médio, segundo ano do ensino médio... Eu usei o documentário sobre como se constrói os castelos medievais. Mostrando como era a construção dos castelos. E Coração de cavaleiro pra mostrar como se forma o cavaleiro medieval. A questão do... Um comercial e outro documentário. O comercial atraiu mais atenção. [estratégia do Coração de cavaleiro] Dei toda parte teórica. Dei uma falada antes.
Não passei o texto. Daí a gente assistiu o filme... Daí na aula seguinte eu passei o texto e
27 As referências dos filmes estão, na íntegra, nas transcrições das entrevistas em anexo.
daí fui explicando. E comparando com filme. Por exemplo, ah... Quando aparecia lá ele se formando com a espada, o príncipe chegou pra ele e ordenou ele como cavaleiro.
Lembram? Lembramos. Então essas coisas assim pra fazer eles retomarem o filme também.
Não houve por parte do entrevistado a utilização do problema para encaminhar a aula. Ou seja, há dúvidas do que se pode chamar de filme comercial: um documentário é comercial também. Então a questão não é ser comercial, mas sim qual a forma de produção, seu interesse e direcionamento. O filme em questão, por exemplo, além de ter uma dinâmica acelerada, tem também uma trilha sonora atual, com composições a partir dos anos 80, todas remixadas. Então o clima de aventura e ação proposto pela direção é mesclado de romance e enfatiza a auto-afirmação, a superação individual própria dos jovens e adolescentes.
Pode-se dizer que é uma Europa Medieval representada pelos EUA, de um ponto de vista não formal. Usando canções de sucesso dos anos 90 e 80 como trilha e tratando os personagens com problemas pertinentes à atualidade adolescente. Assim, o fato da professora não ter atentado para os motivos pelos quais os alunos mais gostaram do filme, demonstra a falta de cuidado e atenção, ou desconhecimento da a cultura dos seus alunos.
As características do período medieval, pautadas pelo anacronismo da trilha sonora e dos detalhes de figurino, maquiagem e diálogos, poderiam ter conduzido uma discussão muito mais coerente e profícua. (Como por exemplo, a armadura do cavaleiro é confeccionada, no filme, por uma artesã que fixa no metal a paródia de uma grife atual).
O professor do colégio Z apresentou uma sistematização de atividade bem mais aproximada dos projetos de ensino pedagogicamente preparados. Mostrou detalhadamente seu trabalho, comentando os passos e indicando a fonte28.
Eu procuro usar sempre filmes que estão relacionados com o assunto. É... Que a gente está trabalhando. Como no momento nós estamos trabalhando a expansão territorial e a Guerra de Secessão nos Estados Unidos. É... Levantou-se a abordagem da Ku Klux Klan, né...Da segregação racial. E nós estamos assistindo Mississipi em chamas. Então... Eu sempre faço um roteiro. E... Depois a gente retorna em sala de aula pras discussões do filme assistido pra que não seja só... É...
Hum... Assistir o filme por si só. Nós queremos que o filme esteja dentro do contexto que a gente esteja estudando em sala de aula. [como é esse roteiro, é dado antes do filme?] Exato. Bom... É... Normalmente eu cobro o título, os principais atores, a trama principal do filme, né... E deixo aberto pra que eles dêem a opinião
28 Na entrevista, em anexo, incluímos uma cópia do modelo do trabalho do entrevistado.
deles também. E a ligação que o filme tem com o conteúdo que estava sendo trabalhado. Sempre é passado um roteiro anterior. Não só feito um relatório aberto assim... Porque aí fica uma coisa muito vaga. Então eu prefiro trabalhar com um roteiro pra que eles depois do... Nas aulas seguintes entreguem o roteiro pra que a gente avalie o resultado.
Tal professor, bem como o outro do colégio T, avalia o resultado dos trabalhos. O retorno aos alunos sobre a leitura que fizeram da obra cinematográfica contribui para aprimorar a leitura das linguagens do cinema. Observar o que os alunos produziram pode dar margem a novas estratégias de trabalho. Porém não se observam avanços no sentido de mostrar as continuidades e rupturas históricas e tampouco são introduzidas discussões do ponto de vista da Indústria Cultural.
No entanto, proporciona aos alunos a prática da observação dos aspectos da produção de uma obra e indica leituras possíveis das várias cenas. Há no direcionamento desta atividade a idéia de relacionar o filme ao conteúdo diretamente desenvolvido em sala de aula, algo comum no trabalho dos professores entrevistados.