Capítulo III - The secreted protein signature of hydatid fluid from pulmonary 3. Discussão geral, conclusões e perspectivas Nos últimos anos melhorias substanciais nos métodos de genotipagem mudaram as abordagens utilizadas para identificação das mais diferentes espécies. Este passo envolveu grandes avanços em bioinformática, e mesmo na automação dos métodos de genotipagem. Outro fator preponderante para tal melhoria são as bases de dados genômicos, as quais atualmente encontram-se em constante atualização e permitem avaliações rápidas e fáceis entre dados obtidos por distintos laboratórios, facilitando comparações fidedignas entre distintos grupos de pesquisa. Todos estes fatores juntos permitem que técnicas alternativas ao sequenciamento de DNA sejam desenvolvidas e empregadas com maior eficiência e precisão auxiliando na identificação e diferenciação de espécies. O DNA mitocondroal é largamente utilizado para discriminação de organismos intimamente relacionados, devido a sua taxa de evolução relativamente rápida, se comparado à maioria dos genes nucleares em um dado organismo, e sua herança exclusivamente materna. O sequenciamento do gene cox1, utilizado desde 1992 nas análises moleculares com o intuito de identificar as variantes genotipicas existentes entre as espécies do gênero Echinococcus, tem sido empregado para a determinação de um grande número de espécies. Como resultado do sequenciamento em massa do fragmento de cox1 o GenBank, banco de dados de acesso público, possui atualmente mais de 214.000 sequências do gene, sendo a espécie E. granulosus a décima oitava com maior número de sequencias depositadas, totalizando 798 (05/04/16). Embora o gênero Echinococcus seja atualmente compreendido por dez espécies, o número de sequencias depositadas para as nove espécies restantes restringe-se a 319. Se levarmos em conta a existência de variações haplotípicas descritas para diferentes populações das espécies de Echinococcus, 146 visualizaremos um panorama dispendioso financeiramente, para um laboratório interessado em identificar corretamente o material com que trabalha rotineiramente. Além disso, outro agravante do sequenciamento de DNA é o tempo dispendido tanto para a preparação das amostras como para a identificação e diferenciação dos indivíduos de uma população. Com o intuito de facilitar o processo de varredura de novos genótipos e a identificação dos já descritos, diferentes técnicas de genotipagem vem sendo empregadas, as quais diminuem os custos e o tempo associados à análise, devido à redução substancial (geralmente 70-90%) do número de amostras a serem sequenciadas (Jabbar & Gasser, 2013). A rotina de trabalho com amostras provenientes do cisto hidático inclui a identificação do genótipo e/ou espécie associado ao material coletado. Existem na fase larval deste parasito, duas frações biológicas das quais são possíveis à extração de DNA em quantidades suficientes para a identificação do parasito, os protoescólices e a camada germinativa (McManus, 2006; Balbinotti et al., 2012). Este fator é um limitante para muitos estudos funcionais, os quais necessitam usar o material parasitário coletado para a obtenção de RNAs e proteínas. Uma alterntiva para tal problema deu-se com a experimentação e posterior emprego de uma rotina na qual a extração de DNA passou a ser realizada a partir de uma quantidade mínima de material biológico, 10-20 protoescólices (Haag et al., 2004; Balbinotti et al., 2012). O emprego desta metodologia levou a uma diminuição considerável do material utilizado para genotipagem, possibilitando a utilização do mesmo para extração de outras biomoléculas. Atualmente o custo aproximado de uma reação de sequenciamento é de 20 reais, sendo que para a obtenção de uma sequência nucleotídica de boa qualidade e consequentemente confiável o suficiente para a identificação da espécie do parasito, são 147 necessários ao menos duas reações distintas de sequenciamento, direta e reversa, o que eleva o custo por amostra biológica a cerca de 40 reais. Mais que o valor agregado ao sequenciamento, o tempo empregado na marcação, purificação, injeção da amostra, além da análise computacional podem totalizar mais 48 horas de procedimento. Cada abordagem metodológica possui vantagens e desvantagens, sendo que uma ou mais abordagens para genotipagem podem ser utilizadas, dependendo do ambiente do laboratório, apoio financeiro disponível, e da disposição de material biológico. Com o intuito de diminuir os custos e principalmente o tempo empreendido em tal procedimento, a técnica de HRM surgiu como alternativa ao processo de amplificação seguido de sequenciamento. Em estudo onde a alteração de uma única base foi sistematicamente investigada em fragmentos que variavam de 50 pb até 1000 pb com conteúdo GC entre 40-60% concluiu-se que para produtos de PCR de até 400 pb a concluiu-sensibilidade e especificidade para detecção de polimorfismos de base única por HRM é de 100%. Já para produtos de PCR de 400 até 1000 pb a sensibilidade e especificidade ficaram respectivamente em 96 e 99% (Reed & Wittwer, 2004). Também é importante levar em consideração o uso do fluoróforo mais adequado, que forneça maior flexibilidade de uso, custo reduzido, e que permita a análise precisa das curvas de dissociação geradas a partir da separação dos produtos de PCR (Ririe et al., 1997; Buh et al., 2010). Apesar da grande variedade de fluoróforos comercialmente disponíveis, a imensa maioria das reações de PCR quantitativo em tempo real é realizada utilizando-se o corante SYBR Green. Isso se deve em grande parte ao fato do SYBR Green exibir um sinal fluorescente muito forte e, portanto facilmente detectável mesmo em baixas concentrações. Contudo já se mostrou que o mesmo é capaz de inibir a reação de PCR 148 além de diminuir a reprodutibilidade da mesma quando comparado a outros fluoróforos (Gudnason et al., 2007). A análise da forma da curva gerada pela desnaturação da molécula de DNA usando o corante SYBR Green é complicada, pois o mesmo é descrito por alterar a temperatura de desnaturação do DNA e por ser capaz de se redistribuir ao longo da molécula de dupla fita intacta à medida que as regiões de fita simples de DNA o despreendem (Giglio et al., 2003; Varga & James, 2006). Tal característica não saturante da molécula em questão, aliado aos fatores supracitados, proporcionaram o surgimento de corantes alternativos, sendo muitos deles para uso específico na técnica de HRM. Dentre as várias moléculas atualmente disponíveis para o uso em HRM-PCR, destacam-se os corantes da família Syto (Gudnason et al., 2007). Tais corantes são mais hidrofóbicos do que a grande maioria dos demais fluoróforos existentes no mercado, além de ligarem-se preferencialmente na região do sulco menor da molécula de dupla fita de DNA. Dentro desta família de corantes existem variações em relação, ao custo e excitação de cada molécula, na emissão dos espectros, e na seletividade e afinidade de ligação ao DNA. Os corantes Syto 13 e 16 são considerados os melhores corantes no que concerne à ausência de inibição da reação de PCR e efeitos na desnaturação da dupla fita de DNA (Eischeid, 2011). Como mencionado acima o método de HRM é útil, reproduzível, e vantajoso finaceiramente, acrescentando o valor de 1 (um) real por reação de PCR (Li et al., 2010). Desde que respeitado suas limitações, a técnica de HRM pode ser rotineiramente empregada em laboratórios que trabalhem com genotipgem, especialmente em áreas onde duas ou mais espécies do coexistam. No presente trabalho a análise do fragmento de 444 pb do cox1 permitiu a distinção entre seis espécies do gênero Echinococcus, E. granulosus, E. ortleppi, E. multilocularis, 149 E. canadensis, E. vogeli e E. oligarthra além da espécie T. hydatigena (Santos et al., 2013). A utilização de uma espécie do gênero Taenia levanta a possibilidade da utilização do marcador mitocondrial da técnica de HRM para os demais membros da família Taenidae. Além disso, os resultados levantados abrem possibilidade para o uso da técnica como ferramenta em estudos de identificação de polimorfismos e como metodologia alternativa para genotipagem de indivíduos em estudos de genética de população em larga escala, substituindo assim metodologias como RFLP e SSCP. Atualmente o artigo apresentado neste trabalho, Santos et al. (2013), possui seis citações. Safa et al. (2015) usaram uma região do gene cox1 contendo um único polimorfismo e com sucesso empregaram a técnica de HRM para distinguir as espécies E. granulosus e E. canadensis (G6 e G7). Os autores Sady et al. (2015), que diferenciaram as espécies Schistosoma mansoni e Schistosoma haematobium, e Wang et al. (2015), os quais utilizaram a técnica de HRM para detectar mutações em pacientes com osteogênese imperfeita, utilizaram a metodologia de HRM como ferramenta diagnóstica. Mais recentemente Dehgahni et al. (2016) utilizaram o marcador ITS1 e por HRM diferenciaram quatro espécies distintas de parasitos Taeniideos, T. hydatigena, T. multiceps, T. ovis e E. granulosus. Em suma a utilização da metodologia de HRM, vinculada ao marcador mitocondrial cox1, vem permitindo o uso mais racional do material biológico, o que possibilitou a seleção de amostras com pouco material para a realização, por exemplo, de experimentos de proteômica em larga escala (Santos et al., 2016a,b). Neste trabalho utilizamos dois conjuntos distintos de amostras de líquido hidático do parasito Echinococcus spp., ambos provenientes de cistos pequenos e com baixa quantidade de material biológico disponível, a fim de analisar possíveis mecanismos 150 moleculares envolvidos na infertilidade dos cistos e na adaptação de diferentes espécies ao hospedeiro bovino. Para tanto utilizamos uma abordagem proteômica, para identificação de proteínas do parasito e do hospedeiro, constituída do fracionamento das amostras por SCX, seguido de análise por LC-MS/MS. Todas as amostras utilizadas no presente trabalho pertenciam a cistos com pouca quantidade de albumina bovina, o que permitiu que as os experimentos fossem realizados sem a necessidade do uso de técnicas para depleção ou concentração de proteínas, permitindo a análise semi-quantitativa das amostras. Dentre os resultados obtidos no presente trabalho destacamos: aumento no repertório conhecido de proteínas, do parasito Echinococcus spp. e do hospedeiro B. taurus, presentes no líquido hidático de cistos das espécies E. granulosus e E. ortleppi; identificação de um novo mecanismo de secreção de proteínas na fase larval de E. granulosus, envolvendo vesículas extracelulares; indícios da existência de uma ‘corrida armamentista” entre parasito e hospedeiro coordenada pelas proteínas secretadas no líquido hidático de Echinococcus spp.; existência de uma grande número de proteínas com função não identificada ou com prováveis funções alternativas, as quais devem ser alvo de futuros estudos funcionais; identificação de um conjunto de proteínas presente em cistos férteis oriundos dos pulmões de bovinos; e a identificação de proteínas encontradas exclusivamente nas espécies E. granulosus e E. ortleppi. A disponibilidade de genomas, transcritomas e proteomas vem fornecendo informações sem precedentes em relação aos parasitos do gênero Echinococcus. Em estudo recente Wang et al. (2015) identificaram, através da análise in silico do genoma de E. multilocularis, que 673 proteínas (6,4% do proteoma predito) são possivelmente secretadas 151 proteínas do parasito E. granulosus no líquido hidático, mesmo utilizando ferramentas para depleção de proteínas abundantes do hospedeiro, como albumina (Monteiro et al., 2010; Aziz et al., 2011). No presente trabalho foi possível identificar um total de 204 proteínas parasitárias analisando oito frações (resultantes do fracionamento por troca catiônica forte) de cistos férteis e inférteis, e 842 proteínas analisando 30 frações relativas às espécies E. granulosus e E. ortleppi. Com o intuito de diminuir ao máximo as interferências externas, aquelas as quais as amostras de cistos hidáticos coletadas de bovinos já possuem intrinsicamente, como origem, alimentação e idade do hospedeiro, decidiu-se coletar somente amostras de cistos oriundos de pulmão de bovino com volume semelhante e baixa quantidade de albumina. Após a coleta de mais de 600 amostras de cisto hidático, definiram-se aquelas a serem utilizadas no presente estudo, diferenciando-se apenas quanto à fertilidade e a espécie do parasito. Além disso, os experimentos não contaram com nenhum tipo de manipulação proteica posterior a coleta, como depleção de albumina, o que acabaria prejudicando a análise qualitativa e quantitativa das proteínas presentes no líquido hidático, devido à inespecificidade intrínseca apresentada por tal metodologia. Aziz et al. (2011) também analisaram amostras oriundas de líquido hidático de cistos férteis e inférteis e de distintos hospedeiros, todas pertencentes a espécie E. granulosus. Suas amostras eram constituídas de três amostras de cistos férteis de fígado de ovelha, duas amostras de cistos inférteis de fígado de bovino e três amostras de cistos férteis de fígado de humanos. A comparação entre as amostras de cistos férteis e inférteis ficou comprometida pois os cistos escolhidos eram oriundos de diferentes hospedeiros, que pode levar a interpretações errôneas a 152 respeito da infertilidade. Apenas a comparação entre cistos de diferentes hospedeiros, ovelha e humanos, pôde ser realizada com confiabilidade. No presente trabalho, a partir da análise das proteínas identificadas e por microscopia eletrônica de transmissão sugerimos a existência de um novo modo de secreção utilizando vesículas extracelulares (microvesículas e exossomos) tanto pelo parasito E. granulosus quanto possivelmente pelo hospedeiro B. taurus. A produção e liberação de vesículas extracelulares é atualmente conhecida como uma característica universal de organismos tanto procariotos quanto eucariotos. Vesículas secretadas variam de acordo com sua biogênese, composição e tamanho, sendo divididas em diferentes grupos de acordo com essas características. Os dois principais grupos de vesículas extracelulares são os exossomos (<100 nm), que são formados a partir das vesículas intraluminais dos corpos multivesiculares, e as microvesículas (100 nm – 1 µm), que se originam na membrana plasmática (Silverman & Reiner, 2011; Deolindo et al., 2013). Vesículas extracelulares apresentam múltiplas funções biológicas e diversos estudos indicam que seu conteúdo é destinado à comunicação com outras células ou áreas vizinhas, sendo liberadas tanto de maneira fisiológica como em resposta a fatores externos (Deolindo et al., 2013). Estudos recentes têm demonstrado que vesículas extracelulares possuem papel fundamental na relação parasito-hospedeiro, atuando na transferência de moléculas (proteínas, ácidos nucleicos, metabólitos) do parasito para as células do hospedeiro, e vice-versa (Valadi et al., 2007; Novacki et al., 2015). A liberação de vesículas também é uma via importante para secreção de proteínas, pois fornece a vantagem da proteção contra degradação por proteases do hospedeiro e a possibilidade de direcionamento para células 153 específicas. Em Leishmania spp., por exemplo, foi descrito que a liberação de exossomos contendo proteínas imunossupressoras, nas etapas iniciais da infecção, facilita o processo de invasão de macrófagos (Silverman & Reiner, 2012). Em helmintos parasitas já foram identificadas vesículas extracelulares em três espécies da classe Trematoda, Fasciola hepatica, Echinostoma caproni e Dicrocoelium dendriticum. Marcilla et al. (2012) identificaram vesículas do tipo exossomo no tegumento e nos produtos de secreção de F. hepatica e E. caproni. Os mesmos autores também demonstraram que as vesículas de E. caproni são internalizadas por enterócitos em cultura, tipo celular com a qual o verme tem contato durante a infecção. Em exossomos de D. dendriticum foram identificados miRNAs com potencial utilização como biomarcadores para diagnóstico da infecção (Bernal et al., 2014). A presença de diferentes moléculas de RNA em vesículas extracelulares parasitárias indica que essa classe de biomoléculas também tem papel importante na interação parasito-hospedeiro. Em Trypanosoma cruzi foi demonstrado que pequenos RNAs derivados de tRNA são transferidos para células de mamíferos suscetíveis (Garcia-Silva et al., 2014a,b). Os pequenos RNAs e mRNAs transferidos, via vesículas, para as células do hospedeiro atuam regulando a produção de proteínas e a expressão gênica do hospedeiro em favor do parasito (Valadi et al., 2007). Surpreendentemente, em Leishmania spp. e F. hepatica observou-se que as proteínas contidas nas vesículas secretadas correspondiam a mais da metade do total de proteínas secretadas, incluindo proteínas que não possuem sequência sinal conhecida de secreção, explicando assim a localização extracelular de tais proteínas (Marcilla et al., 2012; Silverman et al., 2010). 154 A contrapartida também é valida, pois recentemente muitos trabalhos têm observado como hospedeiros reagem à infecção ou contato com outros organismos incluindo parasitos por meio da liberação de vesículas extracelulares e exossomos (Ramachandra et al., 2015; Schorey et al., 2015). Baseados nos dados aqui descritos nós hipotetizamos que as vesículas extracelulares encontradas no líquido hidático de cistos inférteis provêm do hospedeiro e que as mesmas poderiam ser aqui explicadas, por terem duas origens distintas, contudo não exludentes. Internamente o cisto hidático é recoberto pela camada germinativa a qual produz os protoescólices, e que possui como barreira protetora as células e/ou matriz extracelular do hospedeiro a camada laminar, uma capa acelular rica em carboidratos secretada pela prórpia camada germinativa (Díaz et al., 2011a). A camada laminar possui uma espessura de aproximadamente 3 mm na espécie E. granulosus (Bortoletti & Ferreti, 1978), sendo considerada uma matriz extracelular especializada encontrada unicamente em parasitos do gênero Echinococcus, e evolutivamente designada a manter a integridade física do metacestódeo e proteger a camada germinativa da resposta imune gerada pelo hospedeiro. Rupturas no cisto hidático durante seu estabelecimento e manutenção nos órgãos do hospedeiro ocorrem com frequência e é justamente a camada laminar que dificulta e muitas vezes impede a entrada de células e moléculas do hospedeiro através de microfissuras causadas pela pressão externa (Brunetti et al., 2010). Embora a camada laminar seja elástica, o crescimento do cisto hidático em até seis ordens de grandeza não pode ser suportado apenas pela característica elasticidade; e, por conseguinte acredita-se que o afrouxamento mecânico e/ou químico da estrutura laminar da camada laminar deva ocorrer (Díaz et al., 2011a). Tal afrouxamento acrescido ao fato da camada laminar permitir a 155 passagem de nutrientes e algumas proteínas, a caracterizam como uma malha elástica, hidrofílica, a qual permite a difusão de macromoléculas de até 150 kDa (Coltorii & Varela-Díaz, 1974; Díaz et al., 2011b). Sendo assim, a primeira possível origem para a existência de vesículas extracelulares de B. taurus dentro dos cistos é a de que tais partículas e mesmo proteínas isoladas ou em complexos proteicos teriam a capacidade de transpassar a camada laminar, durante o crescimento do cisto, ou através de difusão através da malha laminar. Conhecidamente, neutrófilos estão na linha de frente da defesa inata contra bactérias, atuam principalmente por fagocitose e digestão de bactérias invasoras. Entre as respostas recentemente descritas para neutrófilos estão as NETs, nas quais há liberação de DNA do neutrófilo associado a proteínas antimicrobianas (Brinkmann et al., 2004). Os neutrófilos encontrados no sangue humano também são capazes de controlar o crescimento bacteriano através da liberação de vesículas extracelulares (Timár et al., 2013). Os mesmos autores mostraram que vesículas extracelulares produzidas por neutrófilos encontrados no sangue humano têm tamanho e composição proteica própria quando os mesmos são estimulados pela presença de bactérias. Como resultado, tais autores verificaram que vesículas extracelulares possuem efeito bacteriostático, atuando na redução do crescimento e locomoção bacterianos. Além do efeito bacteriostático, existem indícios de que a secreção de vesículas extracelulares por neutrófilos tenha efeito antibacteriano, aumentando ainda mais a complexidade e diversidade de resposta à presença de bactérias promovida por neutrófilos. Neutrófilos são conhecidos por interagirem com parasitos invasores e por desempenharem papel fundamental na defesa do hospedeiro durante o estabelecimento de tais organismos (Falcone et al., 2001). Interessantemente, neutrófilos já 156 foram encontrados no líquido hidático de cistos hidáticos coletados de humanos (Zhang et al., 2003), além disso já foi demonstrado in vitro que neutrófilos em associação com anticorpos levam a morte da oncosfera e protoescólices de E. granulosus (Riley et al., 1986; Rogan et al., 1992). Uma segunda origem para a existência de vesículas extracelulares do B. taurus dentro do cisto hidático seria através da entrada de neutrófilos no cisto, os quais secretariam tais vesículas. O líquido hidático de E. granulosus contém uma mistura complexa de produtos de excreção/secreção oriundos da camada germinativa, dos protoescólices, além de proteínas do hospedeiro, indicando uma intensa comunicação parasito-hospedeiro, na qual vesículas extracelulares poderiam ter um papel central (Santos et al., 2016a). Trabalhos anteriores identificaram no líquido hidático e no sobrenadante de cultivo in vitro de protoescólices diversas proteínas que não apresentam sinal para exportação (Lorenzatto et al., 2012; Monteiro et al., 2010; Virginio et al., 2012), mas que já foram descritas em outros parasitos sendo secretadas por meio de vesículas, como por exemplo as proteínas aldolase, enolase e histonas. A produção de vesículas extracelulares e o seu conteúdo pode estar relacionado com a capacidade de estabelecimento e sobrevivência do cisto hidático através da atuação em processos básicos de evasão da resposta imune e captação de nutrientes. A caracterização das vesículas extracelulares poderá ajudar a identificar mecanismos moleculares que possam diferenciar espécies muito similares morfologicamente, mas com diferenças nas taxas de desenvolvimento, patogenicidade e especificidade pelo hospedeiro. Uma proporção grande das proteínas identificadas tanto do parasito quanto do hospedeiro foi caracterizada como peptidases e inibidores de peptidase, o que já foi relatado para outros helmintos, inclusive para a espécie T. solium (Gomez et al., 2015). As No documento Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Centro de Biotecnologia. Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular (páginas 146-162)