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DISCUSSÃO GERAL

No documento Daniel Miranda Carnevale (páginas 97-114)

O conjunto de estudo que compõem essa dissertação buscavam, principalmente, verificar qual a influência das funções executivas, maturação biológica, experiência e perfil motor no comportamento tático de jogadores da categoria sub-15. Como resultado principal foi constatado que existe grande influência de todas estas variáveis para um melhor desempenho tático dos atletas.

Porém, para destrinchar esta resposta, foram desenvolvidos três estudos, entre eles uma revisão sistemática, cujo objetivo foi investigar quais são os principais instrumentos de avaliação das funções executivas em jogadores de futebol saudáveis. Além disso, outro objetivo desta revisão sistemática foi orientar os outros estudos para que fossem feitas análises baseadas nos instrumentos que a literatura reporta como ideais.

Assim, a presente revisão sistemática aponta que o Trail Making Test, seguido do Stop Signal Test e do Design Fluency Test, são os testes de função executiva mais utilizados na literatura. Tais protocolos avaliam duas funções executivas, a flexibilidade cognitiva e o controle inibitório, muito em função da alta complexidade de processamento e interpretação dos estímulos que estes protocolos impõem ao sujeito avaliado (98), fazendo com que o cenário do teste simule minimamente o cenário dos jogos desportivos coletivos, como o futebol (99). Nesse sentido, a relação entre futebol, controle inibitório e flexibilidade cognitiva acontece mediante a dinâmica do jogo, onde os jogadores são obrigados a reagir rapidamente aos novos estímulos gerados, inibindo possíveis ações e criando novas estratégias de ação mediante a mudança de cenário (31, 100).

No que se refere a memória de trabalho, observou-se que esta função executiva foi menos mencionadas do que as anteriores, teve uma maior variedade de testes (com estímulos visuais ou auditivos), o que pode ter sido fundamental para a falta de coesão entre os achados referente a esta função executiva, causando pouca especificidade com o futebol, visto que metade dos estudos analisados concluíram que a memória de trabalho não tem relação com a performance esportiva (31, 48, 95, 101). Por isso, os demais estudos não fizeram análises acerca desta função executiva.

Concomitante à revisão sistemática, e com auxílio da mesma, a presente dissertação buscou investigar a relação entre a performance esportiva e o desempenho nos testes de funções executivas. Na literatura existem indícios apontando que os jogadores de elite parecem ter uma melhor performance cognitiva do que seus pares sub-elite (30, 31, 48-50), além de outras correlações entre gols marcados e desempenho na avaliação de flexibilidade cognitiva (32), por exemplo.

Nesse sentido, na busca por achados que pudessem complementar este cenário, o presente estudo buscou olhar de um prisma coletivo. Assim, foi constatado que a equipe com melhor classificação ao final da competição, ou seja, que demonstrou maior eficácia coletiva foi a mesma que demonstrou ter melhor performance cognitiva, principalmente porque as funções executivas parecem contribuir para as tomadas de decisão durante o jogo de futebol (102), ativando circuitos neurais responsáveis por identificar, interpretar, escolher e realizar as ações no jogo (42).

Ainda neste estudo original, foi feita uma análise de regressão múltipla que apontou a flexibilidade cognitiva, a maturação biológica e o tempo de prática deliberada no modelo de regressão múltipla final, explicando 48% dos casos. Este achado complementa outros estudos na literatura que sustentam a ideia de que as funções executivas podem influenciar a performance coletiva e individual no futebol (48, 49). A tarefa de flexibilidade cognitiva que entrou no modelo de regressão foi o DFT, muito em função dos estímulos de dispersão espacial que a tarefa exige dos sujeitos, além da necessidade de adaptação às mudanças de regras do teste, fator que pode ser relacionado à dinâmica do jogo de futebol (99).

Além da assertividade no DFT, outros fatores que mostraram significância na eficácia coletiva foram tempo de prática deliberada e maturidade biológica, o que pode ser explicado pelos jogadores pertencerem à categoria sub-15. A literatura indica que estas variáveis estão associadas, visto que atletas com maturação biológica precoce tendem a ter uma vantagem física, e acabam por ser selecionado para os clubes antes do que seus pares com maturação biológica tardia (79), adquirindo assim mais tempo de prática deliberada. Além disso, os sujeitos com maturação biológica mais avançada apresentam maior densidade e volume de massa cerebral branca (80), responsável pela transmissão de informações no cérebro e pela taxa de reprogramação de tomada de decisão (81), talvez por isto

esta variável tenha influenciado uma melhor classificação da equipe ao final do campeonato.

A presente dissertação apresentou ainda um terceiro estudo com o objetivo de responder sobre quais variáveis do jogo de futebol mais influenciam o comportamento tático. Nesse sentido, o comportamento tático foi dividido em 3 índices de performance tática, onde cada índice foi dividido em tercis de desempenho e foi gerada uma análise de componente principal para cada um destes tercis de desempenho. Para os três índices de performance tática, os jogadores com melhor comportamento tático recebem influência positiva de 1 variável em comum: desempenho no Trail Making Test, o qual avalia a capacidade de flexibilidade cognitiva.

É interessante observar que outras variáveis também se mostraram importantes, como o tempo de prática deliberada, que faz com que o atleta desenvolva habilidades que o permitam tomar melhores decisões (81, 102 e 103).

Outra variável com relações significativas com a tática é a maturação biológica, a qual gera nos atletas um maior nível de testosterona no sangue, contribuindo para a capacidade de tempo de reação (50). Nesse sentido, alguns estudos relacionam o desenvolvimento cognitivo com o alcance da puberdade (50, 104), pois estes atletas têm maior densidade e volume de massa branca cerebral (80), melhorando a tomada de decisão (81).

Em relação ao perfil motor, tanto a distância percorrida no yoyo test e a altura alcançada no salto vertical, representado aqui pela resistência aeróbia e potência muscular, respectivamente, também se mostraram importantes para melhores desempenhos táticos. Em relação à potência muscular, o jogo exige diversas ações curtas e intensas (85, 86), assim como exige ações de baixa intensidade e longa duração (87), o que se relaciona com a resistência aeróbia. Sendo assim, o jogador com melhor desenvolvimento destas valências física deve ter mais êxito na execução dos comportamentos táticos, visto que executará com maior eficácia motora as ações táticas. A relação entre perfil motor e comportamento tático também pode ser analisada pela utilização dos sistemas energéticos. Os atletas com maior potência muscular conseguem realizar comportamento táticos baseados em ações motoras que são determinantes para o jogo de futebol, fazendo uso do sistema

ATP-CP (93). Já os atletas com melhor resistência aeróbia conseguem realizar comportamentos táticos com base em ações motoras predominantes ao jogo de futebol, utilizando o sistema energético oxidativo (93), responsável também por realizar a recuperação fisiológica rapidamente entre os estímulos de alta intensidade, gerando maiores possibilidades de novos comportamentos táticos determinantes para o resultado do jogo.

Ainda neste terceiro estudo, no que se refere às funções executivas, fora o desempenho no TMT, o desempenho no stroop test, no verbal fluency test e no stop-signal test também foram significativamente relacionados aos atletas com melhor performance tática, visto que a dinâmica do jogo de futebol exige que o atleta seja mais rápido nas ações e criativo na elaboração das jogadas para vencer o a ação opositora do adversário (105). Além disso, esses processos cognitivos auxiliam na elaboração de diferentes respostas, alteração de respostas motoras em curso e, por fim, auxiliam no processo de tomada de decisão dos atletas.

Os presentes resultados corroboram à literatura acerca da relação entre as funções executivas e o sucesso esportivo, onde há estudos indicando que bons desempenhos nos testes de função executiva podem predizer o nível de performance de jogadores de futebol. Nesse sentido, parece que o desempenho cognitivo e o desempenho tático interagem de modo concomitante, tendo a tomada de decisão como ponto de intersecção.

CONCLUSÃO

Com base nas conclusões gerais de cada um dos estudos que compõem esta dissertação, é possível destacar que não há um consenso na literatura acerca dos testes de função executiva para jogadores de futebol, apesar disso, existem alguns indícios que apontam os protocolos do trail making test, do stop signal test e do design fluency test, como sendo os mais utilizados neste segmento de análise.

Outro ponto de destaque é que a assertividade no design fluency test, assim como o tempo de prática deliberada e a maturação biológica parecem ser determinantes para a melhor classificação de uma equipe sub-15 em um campeonato de elite. Além disso, a performance cognitiva da equipe melhor classificada foi significativamente superior do que a performance cognitiva da equipe pior classificada neste mesmo campeonato.

Por fim, esta dissertação também destaca que as variáveis do jogo de futebol que mais influenciam positivamente o comportamento tático de jogo, defensivo e ofensivo dos jogadores são as variáveis cognitivas, seguidas por tempo de prática deliberada, variáveis fisiológicas e antropométricas.

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