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DISCUSSÃO GERAL

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O fato da maior parte dos dados observacionais e das entrevistas terem sido coletados nos finais de semana, reduziu o escopo da pesquisa. Podem ter ficado de fora, importantes e relevantes padrões de comportamento que aconteceram nos dias de semana, especialmente nos dias de feira. Contudo, foi traçado um perfil das interações nos dias de maior fluxo de visitantes.

As observações feitas e os relatos dos visitantes coincidiram mostrando que as áreas do Parque onde as pessoas permaneceram mais tempo foram a mata e a área de brinquedos. Poucas pessoas disseram levar lanche de casa para o Parque, e isso coincidiu também com os dados observados que mostraram que os alimentos mais utilizados durante as interações foram os vendidos no Parque. Mas, muitas pessoas disseram transportar objetos que não lembravam armas, o que não coincidiu com os dados observados que mostraram haver poucas pessoas transportando objetos. Os dados observacionais refletiram os depoimentos dos freqüentadores do Parque quanto às interações não conflituosas: olhar os macacos, parar para olhá-los, falar com eles e alimentá-los. Mas houve divergências em relação às interações conflituosas: tocar os macacos, ameaça-los e agredi-los. Talvez por uma tentativa de mascarar seus comportamentos agressivos, seja por constrangimento, receio de sofrerem represaria ou de serem de alguma forma julgados. Mas pode ser que de fato, as pessoas entrevistadas não tinham o hábito de afligir os animais. Por outro lado, relataram presenciar outras pessoas atacarem os macacos, que é um fato constatado nas observações, mas que pode mostrar também, a facilidade que os humanos têm de responsabilizar os outros e de se preservar. Outro ponto em que os dados observacionais coincidiram com os dados relatados foi quanto aos humanos atacarem mais os macacos que os macacos atacarem os humanos.

As observações apontaram dois fatores como os principais geradores de conflitos entre macacos e humanos: questões ligadas a alimentação e ataques e ameaças dos humanos aos macacos. Em relação às questões ligadas a alimentação, pode-se listar os seguintes fatores: gestos diferentes utilizadas pelos humanos nas suas tentativas de alimentar os macacos, que poderiam ter sido interpretadas por eles como

forma de agressão ou ameaças; tentativa dos macacos de adquirir recursos e negativa por parte dos humanos, que poderia levar esses macacos a utilizar de diferentes estratégias de extorsão com sucesso; roubos a humanos.

Em relação a ataques e ameaças de humanos a macacos, conclui-se que aconteceram quando os humanos antecipavam-se a possíveis ataques dos macacos, munindo-se de armas e muitas vezes atacando ou ameaçando primeiro - comportamento respondido em forma de ataques ou ameaças por parte dos macacos, na maioria das vezes. Outro fator que motivava ameaças e ataques foi que, aparentemente, os humanos sentiam prazer em ameaçar ou atacar e por isso o faziam. Essas explicações também foram dadas pelos frequentadores do Parque, o que demonstrou uma percepção correta da realidade. Os frequentadores conseguiram ainda perceber que a falta de alimentos na mata ou disponibilizados especificamente para os macacos, coincidiu com a intensificação das ameaças e ataques dos macacos - quando a prefeitura deixou de fornecer alimentos aos macacos. A opinião dos frequentadores, bem como os resultados da pesquisa, reforçaram a importância deles nos ataques dos macacos aos humanos; contrariando portanto a imagem que a mídia tentou passar para população de que os macacos atacavam indiscriminadamente - representando naturalmente um problema insolúvel e um perigo em potencial para a segurança da população.

Os freqüentadores do Parque mostraram-se favoráveis à existência de parques como aquele, apesar da intensificação dos ataques aos humanos. Isso talvez se deva ao fato de terem identificado, mesmo que por senso comum, os verdadeiros motivos que provocaram o crescimento das ameaças e dos ataques. Foram praticamente unânimes quando informados da possibilidade da implantação de um programa de educação ambiental - se isso acontecesse de fato, haveria condições de convívio pacífico entre os humanos e os macacos, no Parque.

Foi uma série de fatores que impediu a solução mais razoável para os problemas enfrentados no Parque da Criança: falta de interesse e responsabilidade da prefeitura de Anápolis; questões políticas e econômicas - refletidas nas denúncias de desvio de verba do Parque, relatada pelo ministério público; desqualificação, a falta de compromisso ou ação tendenciosa da mídia local sobre a questão. Ação do ministério público, que talvez por falta de conhecimento sobre o comportamento dos macacos e da real situação, determinou a retirada dos animais - solução mais cômoda e historicamente utilizada em casos como esse, em que os animais silvestres colocam em risco os humanos e seus

animais. Transferiu, dessa forma, o problema para uma área longe de sua responsabilidade.

Para se evitar que problemas e soluções equivocadas como essas se repitam constantemente, é importante que a comunidade científica torne as informações sobre ecologia e manejo dos animais silvestre em áreas urbanas acessíveis às autoridades governamentais e à população de uma forma geral. Porque, como foi mostrado neste trabalho, o público leigo pode perceber fatores importantes dos conflitos e entender que os macacos não são sozinhos os causadores, mas que reagem às condições ambientais a que são expostos. Contudo, a população não sabe o que fazer diante desses fatos. Também as autoridades se mostram perdidas, o que aumenta as decisões equivocadas que prejudicam os animais.

Se a comunidade científica conseguir mobilizar as autoridades, conseguirá fortes aliados para que os programas de educação ambiental sejam de fato implantados, o que seria bom para os animais, para a população e para essas autoridades.

Para tanto, é importante que aumente o número de cientistas com interesse em estudar e desenvolver trabalhos sobre o assunto, e que esses, mobilizem estudantes universitários a desenvolverem trabalhos nessa área. Por fim, que haja programas que ultrapassem os limites dos parques, e alcancem as escolas e a comunidade local.

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